08/10/14

Musica Falada



"Todos nós estamos indo. Estamos numa escala de ida, não adianta querer o igual... E coerência, eu me dou o direito de não tê-la!" Egberto Gismonti 

11/08/13

O Índio de Casaca. Villa-Lobos no Cinema.



Heitor Villa-Lobos é tema do excelente documentário “O Índio de Casaca”. Produzido em 1987, com direção de Roberto Feith e apresentado pelo ator Paulo José, o filme conta a história da música brasileira através a vida e da obra do maestro Villa. Entre as imagens raras do compositor e de sua época, há depoimentos de personagens como Guerra Peixe, Tom Jobim, Andrés Segovia, Ana Stella Schic, Walter Burle Marx, Turíbio Santos, Vasco Mariz, Maria Augusta Machado e outros.

31/12/11

“Sangue Mineiro” 1929 direção Humberto Mauro [trilha musical BossaFilmes]


“Sangue Mineiro” é um dos filmes mais importantes produzidos durante a era do cinema mudo no Brasil. Dirigido por Humberto Mauro e fotografado por Edgar Brazil [o fotógrafo do inacreditável “Limite”], “Sangue Mineiro” é estrelado por Carmen Santos, Maury Bueno, Nita Ney, Máximo Serrano e outros. A trama gira em torno do olhar romântico e das desventuras amorosas de quatro jovens, em especial nas de Carmen, interpretada com sutileza e emoção pela então estrela Carmen Santos.

No entanto o que se vê na tela é o retrato de uma sociedade rural e conservadora vista através do olhar microscópico e nada convencional de Humberto Mauro. O solar onde se passa a maior parte da ação, assim como a natureza que emoldura as belíssimas cenas de exterior, não são apenas cenários e tomam ares de personagens. A iluminação, o uso dos travellings, closes, planos sequenciais, a câmera focando os pés, o céu ou a cidade vista do alto, cada fotograma revela o cuidado e a intenção de criar uma estética visual extremamente bem cuidada.

Nada passa pelas lentes de Mauro sem que a ação seja enriquecida pelos detalhes. Toda a sequencia do baile de São João – a principal do filme – que culmina em uma tensa tentativa de suicídio é perfeita e bem amarrada. A cena da luta entre os primos tem a edição dinâmica, assim como a cena do acidente automobilístico. A câmera se emociona na sequencia em que as irmãs adotivas se reencontram, ou na cena em que Nita Ney esconde a fotografia do amado, quando a mobília se torna personagem da ação. Outras sequencias evocam o prazer de se estar ao ar livre no campo, ou a liberdade da “vida moderna” quando é Carmen quem dirige o calhambeque com naturalidade. “Sangue Mineiro” é poesia em cada fotograma.

Ao nos apaixonar pelo filme, de imediato pensamos em qual seria a trilha sonora adequada que pudesse enriquecer a experiência de assisti-lo. E assim, em 2011, a BossaFilmes tomou a liberdade de adicionar uma trilha musical ao filme, como parte do resgate da memória áudio-visual brasileira promovida por este site.

Após uma extensa pesquisa e um sem número de horas de edição, foram escolhidas as peças musicais que entrariam na trilha. Música erudita brasileira, interpretada por artistas brasileiros, preferencialmente em gravações originais de época. Uma enorme responsabilidade para com o filme em si e para com a obra de Humberto Mauro e dos compositores e intérpretes envolvidos. O trabalho intrincado de edição de som exigiu meses de dedicação até a mixagem final. O resultado pessoalmente nos pareceu satisfatório e com o youtube nos doando uma conta em que permite uploads de filmes inteiros, “Sangue Mineiro” de Humberto Mauro renasce na rede, agora com trilha sonora.

Dividido em temas, a trilha musical tem Heitor Villa-Lobos, Francisco Mignone, Hekel Tavares, Ernesto Nazareth, Camargo Guarnieri, Joaquim Manoel da Câmara, Santos Coelho, Júlio Reis, Lina Pesce e Guerra-Peixe. Entre os intérpretes estão Oscar Borgerth, Pattápio Silva, Arnaldo Estrela, Carolina Cardoso de Menezes, Léo Peracchi, Homero de Guimarães, Iara Behs e outros.

Agradeçemos a todos que apoiaram este projeto, em especial a Humberto Mauro pelo legado e inspiração. Para outras informações sobre este e os novos projetos envolvendo a adição de trilhas para filmes mudos aqui.

Desejamos um fantástico 2012 a todos! 

Este projeto não tem fins lucrativos.

c & p 2011 BossaFilmes

“Meus Oito Anos” 1955 direção Humberto Mauro


“Meus Oito Anos” faz parte da série de curtas documentais “Brasilianas” produzida e dirigida por Humberto Mauro na década de 1950. Com poesia de Casimiro de Abreu, cenário musical de José Mauro, arranjos do maestro Aldo Taranto e fotografia de José A. Mauro. “Meus Oito Anos” é um pequeno exemplo da maturidade artística do diretor que registra com poesia e belas imagens a sua própria infância.

“Aruanda” 1960 direção Linduarte Noronha



“Aruanda” é um documentário produzido e dirigido por Linduarte Noronha, em 1960 e retrata o cotidiano de uma comunidade rural fundada por descendentes de escravos no interior da Paraíba. Com linguagem poética e cinematografia arrebatadora, o filme é considerado influente no inicio do movimento do Cinema Novo. No entanto a referencia principal é o cinema de Humberto Mauro e sua série de curtas documentais “Brasilianas”, onde a delicadeza do olhar e a simplicidade estética foram inspiração para Linduarte Noronha compor este belo retrato de sua terra que é “Aruanda”.  Atenção para a hipnótica cena da confecção do pote de cerâmica. Belíssimo.

20/12/11

Cascatinha & Inhana “Cascatinha & Inhana Cantando pra Você” 1955 [Todamérica LPP TA 6]


Se você não tem coração, nunca amou alguém ou não tem coragem de amar, esta música não é para você. O assunto aqui é linguagem universal expressa em poesia e música.

Cascatinha [Francisco dos Santos 1919 ~ 1996] era músico no elenco de um modesto circo que excursionava pelo interior do estado de São Paulo quando conheceu a cantora Inhana [Ana Eufrosina da Silva 1923 ~ 1981] em uma apresentação em Araras. Ela cantava na jazz-band da cidade, onde gostava de se arriscar em algumas músicas dos repertórios de Aracy de Almeida e Dalva de Oliveira. Casaram-se cinco meses depois do primeiro encontro, amor que duraria a vida toda.

Em 1942, Cascatinha & Inhana oficializam também o casamento musical formando a dupla que percorreu palcos, picadeiros, estúdios de gravação, emissoras de rádio e TVs por todo o Brasil com grande sucesso. Foram quase dez anos na estrada até conseguirem fazer as primeiras gravações, lançadas pelo selo Todamérica, em Junho de 1951. Precisaram de apenas cinco discos de 78 rotações para estourarem em todas as rádios brasileiras com a música “Índia” de M. Ortiz Guerrero e José Asunción Flores, na versão de José Fortuna e com “Meu Primeiro Amor”, de Hermínio Gimenez, versão de José Fortuna e Pinheirinho Jr. Ambas, versões em português para guarânias paraguaias.



O gênero musical chamado guarânia pode soar estranho hoje à primeira vista, mas está presente na raiz de grande parte das formas musicais folclóricas do interior do Brasil, do Rio Grande do Sul à Amazônia. A toada bebeu na mesma fonte, os caboclos e cantadores rústicos também criaram ritmos e melodias que devem sua origem à guarânia. A atual “música sertaneja” também.

Com esta música romântica de origem paraguaia, a dupla Cascatinha & Inhana estourou também nos centros urbanos, diferentemente de outros artistas similares onde o campo de atuação era maior no interior. A beleza das vozes de Cascatinha & Inhana permanece como um clássico único na música brasileira, um mistério.

Mas qual o mistério destas vozes? Alguns dizem que é a história de amor vivida pela dupla. É de causar espanto alguém gostar verdadeiramente de música e não se encantar com as vozes de Cascatinha & Inhana. Eles brincam com a modulação da melodia, em dupla ou em momentos solo, com naturalidade impressionante, como se o cantar fosse sempre qualquer coisa de maravilhoso. Perfeição harmônica e tonal que ninguém conseguiria reproduzir nos dias de hoje “em computador”.

Outras duplas da música regional do passado também fizeram sucesso e também modulavam as vozes de forma parecida, como os geniais Alvarenga & Ranchinho, mas o som produzido por Cascatinha & Inhana era único. Duas vozes em timbres característicos que vão criando paisagens e truques irresistíveis, como o “pistão nasal” que Inhana [o apelido vem de “Sinhá Ana”] fazia nas gravações da dupla.



“Índia” e “Meu Primeiro Amor” foram lançadas em um disco de 78 rotações em 1952. Conta-se que o diretor do selo Todamérica só gravou o disco depois de muita insistência, porque não acreditava no sucesso das músicas na língua portuguesa, sem saber que o público já os ouvira cantando no Rádio e encomendava os discos nas lojas, antes mesmo delas terem sido gravadas. O sucesso foi enorme e a dupla Cascatinha & Inhana entrou para a história. “Os Sabiás do Sertão”, como foram apelidados no rádio, apareceram cantando estas duas músicas no filme “Carnaval em Lá Maior” de Adhemar Gonzaga em 1955, mesmo ano do lançamento do disco.

É uma honra para nós trazermos este pequeno disco de 10 polegadas com a música de Cascatinha & Inhana. Trata-se de uma coletânea de faixas lançadas anteriormente em discos de 78 rotações, formando o primeiro long-playing da dupla, e claro, incluindo “Índia” e “Meu Primeiro Amor”. As datas das gravações variam entre 1952 e 1955, antes do processo da gravação em Alta Fidelidade chegar ao Brasil, portanto a qualidade sonora não é a melhor, fizemos o possível para preservar a sonoridade original.

Na maioria das faixas há um acompanhamento de um pequeno conjunto regional, mas também uma orquestra completa os arranjos  em algumas faixas. Tudo com o capricho peculiar da época, mas infelizmente sem os créditos dos maestros e orquestras. Este disco é um pequeno tesouro lançado pelo selo Todamérica do onde destacamos também, a bela capa que une grafismo e fotografia, uma criação do mestre Paez Torres.

Música com gosto de sertão, amor, terra e mato. Para ouvir e chorar.


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Cascatinha & Inhana “Cascatinha & Inhana Cantando pra Você” 1955 [Todamérica LPP TA 6]


01 Solidão [Martinez, Flores, Cardoso, versão Fortuna] guarânia TA 5282 - 1952
02 Queira-Me Muito [Quiereme Mucho] [Roig, versão Almeida] bolero TA 5511 - 1955 
03 Iracema [Mário Zan, Nhô Pai] rasqueado TA 5511 - 1955 
04 Meu Primeiro Amor [Gimenez, versão Fortuna e Pinheirinho Jr] canção TA 5179 - 1952 
05 Desilusão [Paulo Freitas, Manoel Freitas, Zuzo] guarânia TA 5529 - 1955 
06 Assuncion [F. Riera, versão José Fortuna] guarânia TA 5262 - 1953 
07 Recordando [Mário Pinto da Mota] guarânia TA 5282 - 1953 
08 Índia [Flores, Guerrero, versão José Fortuna] guarânia TA 5179 - 1952
Este disco é um presente do site Bossa Brasileira e não pode ser comercializado.

Em trecho do programa Ensaio gravado pela TV Cultura em 1973, Cascatinha & Inhana cantam Meu Primeiro Amor, um dos videos mais assistidos no canal Bossabrasileira com mais de 250 mil visualizações.

15/12/11

Alice Ribeiro 1958 “Cangerê: Cantata em Tupi” [Uirapuru LPU 1007]


Se você gostar de ouvir algo completamente fora do comum, apresentamos um disco maravilhoso e ao mesmo tempo uma experiência radical. Não se trata de música popular, apesar da forma estrutural ter origem nas canções populares do nordeste brasileiro. Tão pouco é um disco de música erudita como a conhecemos. Temos aqui, talvez a mais bela e estranha simbiose musical já gravada em nossa terra entre música erudita e música indígena produzida pelos povos brasileiros.

Diversos dos nossos compositores eruditos se empenharam em tentar criar um cenário musical exótico onde a música indígena apareceria como elemento principal ou secundário, alguns tiveram êxito. Poucos, no entanto, conseguiram transpor o exotismo e realmente inserir a música indígena propriamente dita na estrutura da partitura orquestral. Menor ainda é o número de compositores que nessa tentativa tiveram êxito.  Entre estes, Baptista Siqueira propôs uma das peças mais radicais, a “Cantata em Tupi Cangerê”.

Não é preciso citar a raridade ou importância histórica do disco. “Cangerê” foi lançado no formato long-playing em 10 polegadas em 1958 pela gravadora Uirapuru, pequeno selo que costumava lançar música folclórica e erudita brasileira. Este LP nunca foi reeditado em nenhum outro formato e permanece praticamente inédito até hoje. É uma felicidade postá-lo aqui.

“Cangerê: Cantata em Tupi” tem a bela voz da soprano Alice Ribeiro, cantora erudita do primeiro time, dialogando com o coro misto de Murilo de Carvalho e orquestra regida por José Siqueira.


Alice Ribeiro soprano que empresta a voz a “Cangerê”.

O ritmo marcante e o desenho harmônico inusitado são essencialmente música indígena, composta dentro da estrutura tradicional para grande orquestra e coro. As flautas, a percussão e especialmente os oboés na “Catira n° 3: Defumação” do primeiro lado do LP, são exemplos geniais da criatividade do maestro Baptista Siqueira. Em alguns momentos a música é dissonante e mesmo agressiva, mas se disposto a degustar com atenção, você se surpreenderá com sua beleza. Há chuva, o turbilhão de sons da floresta, cascatas no meio da mata, pássaros, cantos rituais sagrados e cantos de guerra. Além da orquestra tradicional foram usados também instrumentos musicais indígenas como Iuxê, Inkê e Arremêdo de Inambú e Arremêdo de Jacutinga, usados nas invocações dos espíritos dos Caboclos e Iaras. Talvez sejam as primeiras gravações destes instrumentos na discografia brasileira.

Segundo o texto da contracapa, a palavra “Cangerê” foi registrada pela primeira vez pelo missionário francês Jean de Lery no século 16, e se refere à religião dos índios, suas músicas, ritos e ritmos, numa época “anterior a chegada do elemento negro ao solo do Brasil”.

O texto da música evoca lendas sobre a criação do universo segundo a nação Caraíba, e foi escrito em língua Tupi. Apenas a faixa “Catira n° 6: Confraternização” tem letra em português citando palavras e termos na língua indígena.

Em 1959 “Cangerê” ganhou o prêmio “Cidade São Sebastião” como melhor composição erudita do ano, e Alice Ribeiro ganhou o mesmo prêmio como melhor intérprete.

Muito mais do que curiosidade musical, “Cangerê” é uma obra de arte verdadeiramente brasileira que deveria ser resgatada pelos pesquisadores e maestros e voltar a ser executada pelas orquestras do país. Sem esse resgate uma parte importante da história da nossa música estaria perdida. Trata-se de uma bem sucedida ousadia musical, do compositor, pesquisador, escritor, musicólogo e maestro paraibano Baptista Siqueira, autor de diversos livros importantes sobre nossa música, que só poderia ter nascido por conta da bossa do nosso Brasil.

O excelente site Toque-Musical postou recentemente dois outros discos com a obra de Baptista Siqueira: “Cantata Ritual de Pescaria Caatimbó”, espécie de continuação também no selo Uirapuru, obrigatório para quem se interessou e gostou de “Cangerê: Cantata em Tupi” &  “Sinfonia Nordeste/Jandaia Poema Sinfônico” também da Uirapuru. Vale a pena conferir. O mesmo site também disponibilizou outro disco excelente da soprano Alice Ribeiro lançado em 1964 pelo selo Corcovado “A Voz, Na Canção do Brasil” que também merece sua atenção.

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01 Catira n. 1 “Evocação à Tupã”
02 Catira n.2 “Evocação à Iara”
03 Catira n.3 “Defumação”
04 Catira n.4 “Ritual do Cangerê”
05 Catira n.5 “Exaltação à Terra”
06 Catira n.6 “Confraternização”
07 Catira n.7 “Encerramento”
Este disco é um presente do site Bossa Brasileira e não pode ser comercializado.

13/12/11

Henrique Simonetti 1955 “Música das Esferas” [Polydor LPN 2018]


“Música das Esferas” é o curioso nome que estampa a capa deste long-playing de 10 polegadas lançado no Brasil pela Polydor em 1955. Assinada simplesmente “K.” pelo artista, a capa mostra em uma pintura colorida um telescópio sob uma curiosa formação estelar, com as estrelas do céu noturno ele formou a frase  “Música das Esferas”.
“...Não perguntem, portanto, aos autores das belas páginas musicais contidas neste long-play, como a sua intuição trouxe aos ouvidos humanos a “Música das Esferas.”

Mas o que seria segundo o maestro
 Simonetti essa tal “Música das Esferas”? Na contracapa do disquinho temos uma curiosa seleção de temas famosos como “As Pastorinhas” [com o subtítulo de “Estrela D’Alva”] de Pixinguinha e João de Barro, “Stella by Starlight” de Victor Young,  “Luna Rossa” de Vian e Crescenzo, “Blue Moon” de Rodgers e Lorenz Hart e outras. O texto assinado pelo compositor Nazareno de Brito, também não ajuda. Encontramos resposta somente com a agulha deslizando no castigado vinil.

Trata-se de um dos primeiros LPs brasileiros a explorar um gênero de música orquestrada que nos Estados Unidos ganhava a denominação de
 “exotica”. Durante a década de 1950 e início da década seguinte, alguns artistas como Enoch Light, Esquivel, Les Baxter e Yma Sumac gravaram belos discos ambientando orquestra a experimentações sonoras diversas de caráter étnico ou futurista, sons eletrônicos e novas possibilidades técnicas de gravação. A intenção era criar uma música para devaneio, ou para os sonhos. Diferentemente da música “para dançar”, nos arranjos entravam instrumentos inusitados como teremin, celeste, vibrafone e harpas, criando um efeito “espacial”, “atmosférico” ou “ambient” exatamente como o gênero da música eletrônica hoje.


Olá, meu nome é Enrico Simonetti. Você com certeza já ouviu algo que eu fiz ou participei nos mais de quinze anos em que atuei no Brasil. Esta bela foto foi tirada pelo meu amigo Dirceu Côrte-Real, por culpa desta maledeta que me botaram a pecha de homem das meias vermelhas...

Alguém já ouviu “Blue Moon” com solo de sax e teremin? “Música das Esferas” provavelmente possui as primeiras gravações de um teremin no Brasil. O instrumento criado pelo russo Léon Theremin em 1919, é talvez o primeiro instrumento eletrônico do mundo e o único a ser tocado sem o contato físico com o instrumentista até hoje. É o avô dos sintetizadores. Para saber mais, alguns links interessantes: Teremin no Brasil, site da Família Theremin [em russo, alguns navegadores traduzem automaticamente] e na Wikipédia, onde há outros links sobre o assunto.

Henrique Simonetti foi um dos maestros mais importantes na história da música popular brasileira. Condutor, arranjador, compositor e pianista fazia o mesmo papel que os produtores/arranjadores atuais. Nasceu na Itália em 1924 e foi menino-prodígio, começou a estudar música aos quatro anos de idade. Chegou ao Brasil em 1949, chamando a atenção de quem o ouviu ao piano liderando o trio instrumental do Nick Bar. Sua primeira composição importante por aqui foi feita sob encomenda para a Companhia de Teatro Brasileiro de Comédia, na peça “Anjo de Pedra” em 1950. Seguiram muitos outros trabalhos em rádio, cinema, teatro e televisão. Vale destacar as belas trilhas que compôs para os filmes “Presença de Anita” de 1951, dirigido pelo também italiano Ruggero Jacobbi [Simonetti aparece tocando piano em uma cena] e “Floradas na Serra” de Luciano Salce, rodado em 1954, estrelado por Cacilda Becker e Jardel Filho, ambos da Vera Cruz. Segundo o site IMDB Simonetti participou de 39 filmes no Brasil, incluindo alguns como ator, em pequenas pontas. 


Esta era minha orquestra na época da RGE, quase trinta membros!

Inicialmente grava discos pela Polydor, depois se torna diretor artístico, maestro e principal arranjador da RGE, que tinha sede em São Paulo e se tornou uma das mais importantes gravadoras brasileiras até a metade dos anos 1960. Longe de ter uma visão “estrangeirada” da nossa música, Simonetti aprendeu e incorporou toda a bossa e a malícia do samba, com grande respeito e reverência. Sua maneira arranjar as cordas e valorizar percussão e sopros foi fundamental como referencia para a elaboração da sonoridade moderna da Bossa Nova. Enrico ou Henrique Simonetti [como assinava aqui], escreveu uma quantidade enorme de arranjos e participou de inúmeras gravações. Entre os principais trabalhos estão criações para os cantores Agostinho dos Santos,  MaysaLeny Eversong,  Elza Laranjeira,  Roberto Luna e outros, além das dezenas de discos instrumentais gravados por sua orquestra.  Em 1960 foi um dos maestros que se apresentaram nas celebrações da inauguração de Brasília. Volta à Itália coincidentemente na mesma época do estabelecimento da ditadura militar no país, por lá continua a produzir intensamente, os discos italianos gravados nos anos 70 são verdadeiras jóias que passeiam pelo jazz, soul, psicodelia e experimentalismo. Seu filho Cláudio Simonetti, herda o talento do pai, é o fundador do importante grupo de música experimental Goblin, imortalizado pelas trilhas dos filmes de Dario Argento.

“Regi até nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, em 1958.

Este certamente não é o melhor disco que o maestro gravou no Brasil, mas está aqui pelo ineditismo - não há muitos exemplos do gênero gravados no país. Simonetti voltaria a usar este tratamento “ambient” ou exótico em 1959, nos arranjos da série “Música à Luz da Oração” da gravadora RGE, comercializada com sucesso até hoje. Outro motivo de termos o disco aqui é a estranha e ousada versão do clássico “As Pastorinhas” de Pixinguinha e João de Barro, arranjo único [ou quase inédito] que provavelmente só se ouve neste disco. Coro, cordas, percussão e flautas no tema principal e no intermezzo uma viagem de dar nó na orelha.

O tema de abertura “Música das Esferas” composto pelo próprio maestro, soa denso e abstrato, quase espacial. Não se assustem ao ouvirem a voz de trovão do ator Walter Forster declamando uma parte do estranho texto do Nazareno de Brito que está na contracapa. Lembro que estamos em 1955 e não havia ainda nem sombra do homem na lua ou do filme 2001 Uma Odisseia no Espaço... Outro destaque é o belo arranjo para o clássico “Stella by Starlight” de Victor Young com o piano de Simonetti em primeiro plano, orquestra e solos de celeste e teremin, novamente ele...

Com minha mana Maysa fiz meus melhores discos, saudades...

“O artista não se utiliza dos engenhos complicados que combinam lentes, espelhos e instrumentos de laboratório para compreender a majestade do Universo. Ele parece estar sintonizado com o mundo que o cerca...”

Peço desculpas pela qualidade do som obtido na digitalização, infelizmente a cópia estava em péssimo estado. Ainda assim, a ambiência exótica que o maestro, arranjador e pianista Henrique Simonetti criou e a versão espetacular de “As Pastorinhas”, valem cada segundo da sua audição.


Henrique Simonetti 1955 “Música das Esferas [Polydor LPN2018]
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01 Música das Esferas [Simonetti, Nazareno de Brito] fantasia, voz Walter Forster 
02 Blue Moon [Rodgers, Hart] fox
03 Céu [Renato César] bolero
04 Luna Rossa [Avian, Verescenzo] beguine
05 As Pastorinhas [Noel Rosa, João de Barro] marcha-rancho
06 Estrelas Tropicais [M. Jari, B. Baiz] mambo
07 Stella By Starlight [V. Young] fox
08 La Luna [M. Panzeri, G. Calvi] valsa
Este disco é um presente do site Bossa Brasileira e não pode ser comercializado.

Já fui até garoto-propaganda...

Cena de   Presença de Anita”  de Ruggero Jacobbi 1951. Simonetti aparece tocando ao lado da cantora Carmen Déa, aos 1:23 minutos.

Abaixo a abertura do filme.

01/12/11

Ataulfo Alves, Jorge Fernandes, Léo Peracchi, Lenita Bruno & Heitor dos Prazeres “Melodias de Terreiro, Pontos e Rituais” 1955 [Sinter SLP 1041]


Porque “macumba” também é bossa. A palavra “macumba” entra em nosso texto porque no início da história da indústria fonográfica brasileira ela classificou um conjunto de ritmos e batucadas que definiam um determinado gênero musical, da mesma forma que os termos samba, ou choro. Longe de qualquer conotação negativa atribuída mais tarde, o gênero “macumba” por incrível que pareça, sempre foi muito gravado no Brasil, existem diversos discos de 78 rotações classificados como “macumba” onde nos selos aparecem nomes de ritmos diferentes como curimba, batuque, ponto-cruzado, ponto-cateretê, batuque de mina e outros.

Quando colonizaram o Brasil com milhões de escravos africanos, os portugueses não faziam idéia que estavam criando a maior nação africana fora da África. Um dos regimes mais longos e brutais de escravidão na história recente da humanidade acabou por criar uma herança cultural multifacetada onde o africano, o índio e o europeu formaram um único povo.

foto de Rita Ruiz

“Para a semana vou fazer uma festança / Muito bacana para alegrar as crianças / Mamãe Oxum criança é tudo pra mim / Cosme, Damião e Doum, Crispiniano e Crispim...”

É uma grande alegria trazer este disco muito bacana para alegrar - como diz a letra da música - a nós, crianças que gostamos dos discos raros e estranhos da nossa brasilidade... “Melodias de Terreiro, Pontos e Rituais” é uma coleção de músicas gravadas por diversos artistas, lançada em disco de 10 polegadas pela gravadora Sinter no ano de 1955.

Com muito carinho e respeito para com a Umbanda e todos os outros cultos afro-brasileiros que fazem do nosso país uma terra de espiritualidade, magia, ritmo e sensualidade. Onde as noções de sagrado e profano do pensamento ocidental ganham licença poética.

Fácil concluir que o próprio samba também nasceu nos terreiros. A religião afro-brasileira é totalmente musical, música e espírito formam uma coisa só. Não existe culto sem música.

Desde as primeiras gravações realizadas pela Casa Edison do Rio de Janeiro no início do século XX, uma quantidade significativa de discos em 78 rpms com músicas extraídas dos cultos afro-brasileiros foi editada, em sua maioria, gravadas com autenticidade. Havia artistas que faziam carreiras musicais apenas gravando músicas do gênero “macumba” e outros, como os grandes sambistas da época, que nunca deixaram de gravar e compor os tais sambas “de terreiro”.

O sambista e pintor Heitor dos Prazeres.

O time neste pequeno disco da gravadora Sinter é “de peso”, sambistas da primeira linha como Ataulfo Alves e Heitor dos Prazeres com suas respectivas “Pastoras” puxam a fila. E contam com o apoio de uma orquestra completa arranjada e conduzida pelo mestre Léo Peracchi, que trouxe a esposa, Lenita Bruno para pontuar com sua voz treinada nos salões de música erudita em duas faixas - há uma citação a Villa-Lobos em linguagem de samplerPeracchi faz corar arranjadores e DJs atuais. E para completar o time Jorge Fernandes, cantor de sucesso na época, infelizmente esquecido, comparece em quatro das oito faixas do LP.

Enquanto Ataulfo Alves e Heitor dos Prazeres são considerados grandes nomes do samba e tem suas obras sempre apreciadas e estudadas, Jorge Fernandes ainda é um ilustre desconhecido. Poucos sabem que foi ele quem gravou pela primeira vez a canção “Meu Limão, Meu Limoeiro” retirada do folclore para as rádios com grande sucesso lá na década de 1930. Jorge recebeu educação privilegiada com inclinação para as artes, era moço de família tradicional, se formou em arquitetura, mas possuía talento incomum para a escultura, arte a que se dedicou enquanto se tornava cantor de rádio. No início concorria com o sucesso de Carlos Galhardo e Silvio Caldas, mas diferente destes foi encontrar seu “estilo” primeiro na música folclórica e depois na música “de terreiro”, da qual gravou vários discos até a década de 1970.

O cantor, escultor e arquiteto Jorge Fernandes.

Na contra capa de “Melodias de Terreiro” há descrições detalhadas sobre as faixas e informações pouco comuns nos discos da época, como a data exata da gravação [Julho de 1955] e o nome dos técnicos que a fizeram - Armando Dulcetti e Roberto de Castro. “Nesses cantos de origem litúrgica e sentimental, estão entrelaçados a poesia do europeu, em sua religiosidade católica, a súplica e o lamento dos negros africanos, sob jugo do cativeiro, e toda nobreza dos ameríndios, com sua índole guerreira e selvagem.” “... nesta fonte tão rica de motivos, que foram recolhidos, selecionados, ambientados, os pontos rituais, curimbas e danças que compõem este long-playing. Houve nesta escolha, o cuidado de agrupá-los e cruzá-los dentro da mesma força a que cada qual está ligado, evitando assim, o chamado “choque de forças”.” - diz o texto anônimo.

Oxum, Xangô, Ogum, Cosme e Damião, Crispim e Crispiniano, Pai Joaquim de Angola, Ogum-Yara, Yemanjá, Caboclinho da Mata... São os Orixás e personagens que desfilam nas letras das canções.

O mestre Ataulfo Alves e seu violão.

A gravação obteve resultado exuberante. Os arranjos de Léo Peracchi normalmente geniais, ganham um contorno à mais, como nas linhas de metais e sopros em momentos onde se evoca o choro, ou mesmo o jazz, ou o fox norte americano, ou quando é o cavaquinho que aparece para marcar a cadência. Peracchi foi econômico, não há paredes de violinos, respeitou o silencio entre os toques dos instrumentos de percussão e criou uma mistura inusitada de samba, choro, “macumba” e canção popular com seu toque refinado. “Melodias de Terreiro” preserva o caráter de registro autêntico da música dos cultos afro-brasileiros, muito mais do que uma curiosidade musical estranha, sua ousada mistura cria uma estética que antecipa em décadas o som que se ouviria no tropicalismo e em toda a boa música contemporânea feita no Brasil hoje.

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foto de Rita Ruiz

01 Aruanda [tradicional] Léo Peracchi & Jorge Fernandes
02 Agô-Iê [tradicional] Ataulfo Alves & Suas Pastoras
03 Oxum-Maré [tradicional] Jorge Fernandes, Lenita Bruno & Léo Peracchi
04 Nêgo Véio [tradicional] Heitor dos Prazeres
05 Congo [tradicional] Léo Peracchi, Lenita Bruno & Jorge Fernandes 
06 Pai Joaquim d'Angola [tradicional] Ataulfo Alves
07 Ogum-Yara [tradicional] Jorge Fernandes & Léo Peracchi 
08 Vamos Brincar no Terreiro [tradicional] Heitor dos Prazeres
Este disco é um presente do site Bossa Brasileira e não pode ser comercializado.

foto de Miriam Fichtner

Obra de Heitor dos Prazeres.