27/10/09

"Minha" Dolores Duran

Dolores Duran foi uma das maiores compositoras e intérpretes da Música Brasileira, ouso mesmo dizer que da música mundial. Foi com felicidade que recebi o convite do Milan para elaborar esta coleção de canções para seu site Parallel Realities Studio, que sempre enfoca belas vozes femininas do Brasil.

Dolores Duran é um caso único na história da nossa música. Surgiu como menina-prodígio capaz de impressionar o exigente Ary Barroso na sua primeira aparição frente aos microfones de uma emissora de rádio. Tornou-se, no auge de sua trajetória, uma bela mulher, dona de uma personalidade magnética, mulata de sorriso largo, musicalidade absoluta e um par de bochechas que teimavam em sustentar o constante e belo sorriso.
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Sua voz rouquinha de emissão não muito potente cantou a tristeza de maneira impressionante, porém ela ao mesmo tempo era capaz de levantar o astral de todos à sua volta com intermináveis anedotas e imitações das manias e trejeitos dos seus colegas da boemia carioca. Era o centro das atenções em todas as mesas que freqüentava, aliando graça, inteligência e sagacidade. Seus versos rebuscados e confessionais em “A Noite do Meu Bem”, são até hoje muitas vezes interpretados em tom de tristeza, sendo a música na verdade, uma ode à alegria de se encontrar o ser amado. Dolores tinha facilidade em aprender línguas e absorveu de maneira genial a música e a cultura de outros países, cantando perfeitamente em inglês, francês, espanhol e italiano. A consciência política a levou a se apaixonar pelo socialismo, e ela chegou a se apresentar na antiga União Soviética ao lado de Nora Ney e Jorge Goulart. Num mundo profissional totalmente machista e bastante racista, onde a criatividade duelava marcadamente com a competição musical, ela conseguiu impor respeito, dando um passo além de muitos de seus colegas e contemporâneos - sua arte é atemporal. Dolores Duran é um patrimônio artístico deste país.

Nesta coleção procurei selecionar as canções de seu repertório, baseando a escolha num tom pessoal. O resultado me surpreendeu, pois acabou mostrando o quanto moderna era a sua interpretação, e o quanto modernos eram também os compositores, os arranjos e o repertório escolhido a dedo pela grande sensibilidade da cantora. Para o efeito ser completo, o ideal é ouvir a coleção como um disco, na seqüência, do início ao fim. Sambas, sambas-canção, boleros, jazz e até mesmo baião, em uma viagem por todo o mundo musical particular de Dolores. Os fonogramas também receberam um leve tratamento digital para dar unidade ao som. Entre as canções em outras línguas há até mesmo uma em esperanto - “Nigraj Manteloj”, versão para a famosa “Coimbra” [de Errao, Galhardo, na versão de Baena].
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Não poderiam ficar fora grandes interpretações que se tornaram também sucessos como “My Funny Valentine” [Rodgers, Hart], “Canção da Volta” [Ismael Netto, Antônio Maria], “A Noite do Meu Bem” [Dolores Duran], “Conversa de Botequim” [Noel Rosa e Vadico], “Viva Meu Samba” [de Billy Blanco] e “Por Causa de Você” [a parceria mais famosa de Dolores Duran e Antônio Carlos Jobim]. Ao lado destas, algumas canções menos conhecidas, porém não menos geniais, como “Estranho Amor” [do mestre Garoto com letra de David Nasser], “Quem Foi?” [de Nestor de Hollanda e Jorge Tavares], “Ave Maria Lola” [S. Siaba], “Bom É Querer Bem” [de Fernando Lobo], “Onde Estará Meu Amor?” [da compositora Lina Pesce] e a incrível “Minha Toada” [composição de Dolores Duran e do saudoso Edson França, outro gênio musical, mais conhecido pela bela voz a frente do Trio Irakitan].

Em todos estes gêneros e paisagens musicais Dolores Duran destila genialidade, doçura, humor e emoção. Modelando assim uma rara perfeição musical capaz de emocionar até mesmo as pedras do caminho. Não importa se ela nos deixou cedo, importa sim, o que ela nos deixou. Divido então, um pouco da “Minha” Dolores, com todos vocês.

“Minha Dolores por Thiago Mello”
2009 [Bossa-Brasileira & Parallel Realities Studio]

01 Bom É Querer Bem [Fernando Lobo]
02 My Funny Valentine [Rodgers, Hart]
03 Solidão [Dolores Duran]
04 A Noite do Meu Bem [Dolores Duran]
05 Estranho Amor [Garoto, David Nasser]
06 Ave Maria Lola [S. Siaba]
07 Minha Toada [Edson França, Dolores Duran]
08 Na Asa do Vento [Luiz Vieira, João do Vale]
09 Viva Meu Samba [Billy Blanco]
10 A Banca do Distinto [Billy Blanco]
11 Conversa de Botequim [Noel Rosa, Vadico]
12 Manias [Flávio Cavalcanti, Celso Cavalcanti]
13 Nigraj Manteloj [Coimbra em Esperanto] [Errao, Galhardo, Baena]
14 Sinceridad [G. Perez]
15 An Affair to Remember [Adamson, Mcarey, Chandler, Warren]
16 Onde Estará Meu Amor? [Lina Pesce]
17 Canção da Volta [Ismael Netto, Antônio Maria]
18 Quem Foi? [Nestor de Hollanda, Jorge Tavares]
19 Pra Que Falar de Mim? [Ismael Netto, Macedo Neto]
20 Por Causa de Você [Dolores Duran, Antônio Carlos Jobim]

Este disco é um presente dos blogs:
Parallel Realities Studio & Bossa-Brasileira
E não pode ser comercializado.

04/09/09

No Ar! Trailer do documentário "Com Carinho de Maysa"

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É com grande felicidade que trazemos aqui o trailer do primeiro longa-metragem da Bossa Filmes: “Com Carinho de Maysa”, atualmente em fase de produção e ainda sem previsão de lançamento. O primeiro trailer oficial ja está no ar: no youtube e no vimeo. Também está no ar o blog do filme. Nosso muito obrigado à todos os amigos, colaboradores, pesquisadores e envolvidos direta ou indiretamente no projeto!

Este filme é uma declaração de amor que fazemos à Maysa e uma declaração de amor que Maysa faz à seu público.

05/07/09

Dóris Monteiro 1957 “Dóris Monteiro” [Columbia LPCB 35045]

O Brasil possui cantoras magníficas, mas dentre todas elas, há uma que merece todo o nosso carinho e destaque. Trata-se da grande Dóris Monteiro, que ainda hoje canta, com 55 anos de atividade profissional, ela está cantando lindamente por sinal, com o mesmo brilho, o que mais uma vez nos enche de alegria e orgulho! Por este motivo trazemos este LP aqui - novamente uma colaboração do grande amigo Clóvis de Curitiba, nosso imenso obrigado!

Este é um LP pouco conhecido de Dóris Monteiro, no formato de 10 polegadas, lançado em 1957. No repertório está, entre outras preciosidades, a gravação original de “Mocinho Bonito”, um clássico de Billy Blanco, grande sucesso na época e considerada como uma das gravações inaugurais da bossa nova. A matriz deste disco, se existir, está escondida nas prateleiras empoeiradas do que restou do acervo da Columbia. Apenas mais um exemplo do descaso histórico com a nossa música. Excluindo “Mocinho Bonito” os outros fonogramas não foram até hoje relançados em nenhum formato. Portanto, trata-se de uma jóia rara.
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Em 1957 Dóris Monteiro já era uma grande estrela, e havia sido eleita Rainha do Rádio por dois anos consecutivos. Seu “fio de voz”, como diziam alguns colegas, era também a marca de uma cantora moderna e sofisticada, que sabia ser ao mesmo tempo simples e sofisticada, e muito popular, agradando a todos os ouvintes, técnicos, produtores e colegas músicos da nossa Era do Rádio. Além de cantar também atuou frente ao microfone como locutora e disc-jokey [!] e também fez sucesso nas telas de cinema como atriz, chegando a ganhar prêmios. Uma bela trajetória. Ainda nos anos 40, podia ser apenas uma menina com a mãe sempre ao lado “de guarda”, mas quando cantava, transmitia poesia pelas ondas do rádio. E é assim neste disco. Dos primeiros acordes de “Faça de Conta”, bonita composição de Fernando César, até o último segundo da enfumaçada “Meu Tema”, de Édson Borges, este disco é todo, uma grande beleza.

Aqui, ela registrou duas composições de Maysa, que recém havia surgido no cenário musical como um furacão de sucesso e expressão artística. São duas músicas do primeiro disco da Maysa, lançado um ano antes: “Marcada” e “Resposta”. Duas belas composições, que ao ganharem interpretação da já experiente colega, são prova do quanto reverenciada Maysa foi no meio musical, ao mesmo tempo em que fazia enorme sucesso popular. As interpretações de Dóris Monteiro para estas duas canções são belíssimas, muito particulares, com toda a sua personalidade musical. Vale lembrar que Maysa ainda não havia gravado nem o seu segundo LP quando Dóris Monteiro lançou este. Uma bela homenagem, que deixou Maysa muito feliz. Que compositor não gostaria de ter uma música sua interpretada por Dóris Monteiro? Elas chegaram a dividir o microfone nesta época em programas no rádio.

“Dóris Monteiro” é um LP belíssimo, é a música brasileira elegante dos anos 50. Durante muitos anos se criticou o samba-canção, ainda hoje é tido como um estilo menor, cafona, sem importância. Há quem diz que se aparenta do tango e do bolero, que o piano tem vibrato, que a orquestra desliza, que as letras são melosas, ou até mórbidas o que for... Nada disso importa! Quem não tem sentimentos que não sinta... há quem sente, isso sem dúvida! A voz, mesmo que por “um fio”, tem a toda a doce dimensão da poesia daqueles dias. Mesmo que nem todas as canções sejam espetaculares como “Mocinho Bonito”, “Resposta” ou “Faça de Conta”. A contracapa é outra atração, com texto assinado pelo compositor Fernando César, onde certa altura ele afirma - “...Dóris não é nada daquela ‘figura para Ibrahim ver’... ...humana, dá-se ao luxo de acumular as qualidades de mulher bonita e inteligente...” - impregnado pelo machismo da mentalidade da época.

Dóris Monteiro, o maestro Eleazar de Carvalho e o cantor Lúcio Alves - início da década de 50.

Os arranjos do disco são incríveis, vem com a assinatura da orquestra toda original de Renato de Oliveira. Há violinos, acordeons, sax, percussão em primeiro plano e piano, tudo arranjado no maior capricho, como convém ao maestro, abrilhantando as composições. Uma preciosidade - que mais dizer de um disco que reúne a orquestra de Renato de Oliveira, mais a voz de Dóris às composições de Fernando César, Maysa, Billy Blanco, Édson Borges, Eduardo Luiz e Amado Régis?

Na incrível “Minha Obsessão” [de Nando e J. Marques] a voz cheia de estilo, enche o ambiente atravessando o espaço - chega a arrepiar - Dóris canta uma letra que traduz perfeitamente a atmosfera geral: “...é obsessão / é atroz, é cruel, é fatal / é um doce veneno que embriaga, seduz e afinal / mata lentamente como a flor cheirosa de espinhos mortais... / ...é melhor que eu procure esquecer / o que só desenganos me traz / terminemos sim, e outro amor, nunca mais!”

Dóris Monteiro 1957 “Dóris Monteiro” [Columbia LPCB 35045]

01 Faça de Conta [Fernando César] bolero
02 Marcada [Maysa] samba-canção
03 Real Conclusão [Eduardo Luiz, Amado Régis] toada
04 Mocinho Bonito [Billy Blanco] samba
05 Resposta [Maysa] samba-canção
06 Minha Obsessão [Nando, J. Marques] bolero
07 Só Pode Ser Você [Fernando César] fox
08 Meu Tema [Édson Borges] beguine

Arranjos e orquestra sob regência do Maestro Renato de Oliveira

13/06/09

Rosa Pardini 1959 “Eu, O Luar & Você” [RCA Victor BBL 1143]

É com emoção que trago mais esta beleza da discografia brasileira, quase perdida no espaço-tempo. Um disco lindo, que deve ser degustado com calma e cuidado, como convém a toda grande obra de arte. Trata-se do terceiro LP da cantora Rosa Pardini, “Eu, o Luar e Você” [BBL 1143] primeiro na gravadora RCA Victor, lançado em 1959, com arranjos e regência do maestro Erlon Chaves, um de seus primeiros trabalhos à frente de uma grande orquestra.

Um mergulho no universo da música brasileira não seria completo se não fossem trazidos à tona artistas que - por puro descaso - caíram no esquecimento, mesmo dotados de características marcantes e trabalhos artisticamente irretocáveis. Para tanto, o trabalho de recuperação dessa memória é indispensável.

Rosa Pardini faz parte deste time. Cantora nascida em São Paulo em 1926. Teve a voz treinada nos ambientes da música clássica, mas era apaixonada pela música popular. Descoberta em 1943, pelo então diretor artístico da Rádio São Paulo, Oduvaldo Vianna, Rosa Pardini foi durante as décadas de 40 e 50, destaque em emissoras da capital paulista. Gravou diversos 78 rpms e um LP em 10 polegadas com o grande maestro Enrico Simonetti. Apareceu também no cinema e foi apelidada pelo locutor Alberto Nagib de “Pássaro de Ouro”, devido a sua voz cristalina.

Este é seu terceiro disco. São canções, choros e valsas, algumas clássicas do cancioneiro brasileiro, que nas mãos do maestro Erlon Chaves, ganham roupagem ousada e moderna, mesmo respeitando a tradição brasileira de valsas e serestas. O resultado é no mínimo fantástico. Há aqui gravações definitivas para grandes clássicos como “Tamba-Tajá” do cancioneiro amazônico de Waldemar Henrique e “Guacyra” de Hekel Tavares e Joraci Camargo.


Registrado em 1959, o disco fez sucesso popular e se destacou numa época em que as gravadoras apostaram em vozes femininas de talento para registrarem discos ousados artisticamente, e se equilibravam entre a música erudita e a popular. Cantoras menos populares como Maria Helena Raposo, Lia Salgado e Délora Bueno, conseguiram a proeza de lançar LPs clássicos. Lenita Bruno em 1958 havia registrado pelo selo Festa a obra-prima “Modinhas Fora de Moda”, do qual este disco de Rosa Pardini, é também parente próximo.

Rosa Pardini foi casada com Wanderley Taffo, maestro, clarinetista e arranjador genial, na época conhecido por Siles, líder de um conjunto bastante atuante nas décadas de 40 e 50 em rádios, TVs e discos. Desta união nasceu o guitarrista Wander Taffo. No início dos anos 60 diminui a freqüência rádios e TVs, mas ela continua a cantar, porém infelizmente não registra mais discos.

Apenas por ter nos deixado “Eu, o Luar e Você”, Rosa Pardini merece figurar entre as grandes artistas da voz no Brasil. É ouvir, e tirar as próprias conclusões. De minha parte, posso apenas comentar a beleza e a delicadeza dos arranjos e da dicção perfeita da cantora, como na faixa título, que abre o álbum, de autoria de Sivan Castelo Neto “Eu, o Luar e Você” tem a orquestra discreta emoldurada por harpas, num estilo que apenas na década de 50 seria possível registrar.

“Guacyra” [Hekel Tavares, Joraci Camargo] ganha arranjo de bossa, como se dizia na época, com a clarineta - provavelmente o próprio Siles - e um violão já anunciando novos tempos. O arranjo é ousado e brinca de modernidade. Já “O Que Eu Queria Dizer” de Hekel Tavares e Mendonça Jr, fez sucesso na época, cheia de ternura na letra e na melodia.

Em “Chorinho” o clima se alegra, beleza única e ritmo dolente, Pardini mostra que sua voz também era perfeita para o samba e o chorinho. “...e os três / vão por este mundão que se chama saudade / conduzindo três almas, demais brasileiras /serena tanto / enquanto alguém que ama / abre a janela e espia sobre o luar / que é mesmo um dia / embranquecendo a amplidão...” A poesia é maravilhosa, mas não pára por aqui...

O maestro Waldomiro Lemke, o cantor Agostinho dos Santos e o maestro Erlon Chaves, autor dos arranjos deste disco, foto 1959.

“Se Tu Soubesses” [George Moran, Christóvão de Alencar], traz a cantora de volta ao samba-canção, num arranjo cheio de sutilezas. O lado fecha com “Chuva e Vento” dos consagrados compositores Alberto Ribeiro e José Maria de Abreu. Melodia com não sei o que de moderno, os arranjos novamente na bossa do violão e do clarinete, mas com vibrafone e coro completando a maravilha, tudo soando terrivelmente estranho e moderno: “a chuva cai... / é o pranto amor / da dor universal...”

O lado B abre com “Modinha” de Jayme Ovalle, com letra do poeta Manuel Bandeira. Já havia sido gravada com grande beleza por Lenita Bruno, porém esta versão de Rosa Pardini também é belíssima, com destaque para o naipe de cordas. De autoria do maestro Marcelo Tupynambá, de quem Pardini foi crooner durante anos, está o belíssimo samba “Mal Estar”, com acompanhamento de regional de choro: “Eu não sei bem por que, sinto-me a envolver / um mal estar / sempre que você / sorrindo chega assim a dizer / você como vai?...” Simplesmente lindo!

Harpas e orquestra retornam em “Noite de Garoa” assinada por Amil. Que se não é uma música brilhante tem pelo menos uma linha na letra digna de se destacar como fantástica: “...por que soluças tanto ó coração? / não vês que está traçada a minha meta / deixa eu que sofra com resignação /do próprio mal de ter nascido poeta...” Não é incrível?

Há ainda “Tamba-Tajá” de Waldemar Henrique e “A Carícia de Tuas Mãos” valsa pouco conhecida do mestre Joubert de Carvalho. E para encerrar disco, uma canção brejeira - quase um lamento sertanejo - de beleza sublime, do não menos mestre Laurindo de Almeida [será que ele fez parte da gravação do disco?]: “Minha Saudade”. “...minha viola não mais geme que maldade / chora tristemente essa saudade... ...quero conviver com a natureza / quero frente a tal beleza / ser menor que não sei que...” Depois disso, não há mais o que dizer, apenas calar e ouvir... Uma boa viagem!

Rosa Pardini 1959 “Eu, O Luar & Você” [RCA Victor BBL 1143]

01 Eu o Luar e Você [Sivan Castelo Netto]
02 Guacyra [Hekel Tavares, Joraci Camargo]
03 O Que Eu Queria Dizer ao Seu Ouvido [Hekel Tavares, Mendonça Jr.]
04 Chorinho [Waldemar Henrique, Bruno de Menezes]
05 Se Tu Soubesses [George Moran, Christóvão de Alencar]
06 Chuva e Vento [José Maria de Abreu, Alberto Ribeiro]
07 Modinha [Jayme Ovalle, Manuel Bandeira]
08 Mal-Estar [Marcelo Tupynambá]
09 Noite de Garoa [Amil]
10 Tamba-Tajá [Waldemar Henrique]
11 A Carícia de Tuas Mãos [Joubert de Carvalho]
12 Minha Saudade [Laurindo de Almeida]

Arranjos e orquestra sob regência do Maestro Erlon Chaves.

Quero agradecer ao amigo e colecionador Clóvis Cordeiro, de Curitiba, quem gentilmente cedeu este e outros discos para digitalização.

Bossa-Brasileira 2009

Queridos amigos, leitores e acompanhantes do Bossa-Brasileira:

Quero informar à todos que não encerramos as atividades!
Porém, estamos totalmente absorvidos por um outro projeto - também sobre música brasileira, do qual falaremos aqui mais adiante - e que tem tomado todo nosso tempo e dedicação. É por uma boa causa, nos intervalos procurarei trazer aqui mais alguns discos, assim que for possível.

Quero deixar pública minha gratidão para com os amigos, colecionadores e pesquisadores Clóvis Cordeiro [de Curitiba] e ao Gabriel Gonzaga [de São Paulo] que gentilmente nos emprestaram alguns de seus raros itens de seus acervos pessoais, discos que assim que for possível, entrarão aqui. Meu muito obrigado à eles e um grande abraço!

E também meu muito obrigado à todos que nos visitam diariamente, mandam emails, comentam, nos enviam sugestões e discos... um abração à todos!

Thiago Mello

18/12/08

Trio Surdina 1956 "Ouvindo Trio Surdina Volume 2" [Musidisc DL 1009]



Quando Paulo Tapajós pensou em um conjunto instrumental para atuar em seu programa na Rádio Nacional “Música em Surdina”, convidou o amigo Garoto [Aníbal Augusto Sardinha, *1915 +1955] - um dos gênios das seis cordas que o Brasil teve a honra de ver nascer - para organizar o conjunto. Ele então indicou o seu próprio trio, que estava se apresentando com certa regularidade nos estúdios da Nacional. Garoto ao violão, Chiquinho do Acordeon [Romeu Seibel, *1928 +1993] e Fafá Lemos [Rafael Lemos Junior, *1921 +2004] exímio violinista e ex-músico da Orquestra Sinfônica Brasileira, eram a base melódica do conjunto. Uma formação diferente, ainda que acrescida de percussão [no primeiro disco a cargo de Bicalho] e contrabaixo [com Vidal], o foco era mesmo os solistas, e o resultando foi também uma sonoridade diferente. Garoto se empenhava há anos em formações musicais similares, ele parecia buscar um som específico, um dos embriões do Trio Surdina contava com Laurindo de Almeida no segundo violão, o violino de Mesquita e o contrabaixo de Faria: era o Garoto e Suas Cordas Quentes - foto promocional abaixo.

Garoto tanto conseguiu encontrar o som que procurava como também influenciou toda uma geração de músicos, como instrumentista e compositor. Segundo o pesquisador Jorge Mello - que escreve um livro sobre o músico - foi Paulo Gracindo na ocasião apresentador, quem batizou o conjunto de “Trio em Surdina” em 1952, na Rádio Nacional. Pouco tempo depois foram convidados por Nilo Sérgio, amigo, apresentador, cantor e dono do iniciante selo de discos Musidisc, para lançar uma série de LPs no formato ainda experimental de 10 polegadas, com oito faixas rodando em 33 rotações. Fafá Lemos contou que os discos não foram gravados em estúdio, mas sim editados a partir de acetatos gravados na Rádio Nacional, entregues a Nilo Sérgio por Paulo Tapajós.


Um dos embriões do Trio Surdina as “cordas quentes” de Laurindo de Almeida, Mesquita, Faria e Garoto.

Os disquinhos venderam bem, fizeram sucesso e rechearam o catálogo da Musidisc - que em poucos anos se tornaria vasto - com um padrão de extremo bom gosto e delicadeza, tanto no registro da música como também nas capas. Num esquema quase artesanal, infelizmente alguns discos eram prensados em material de baixa qualidade, no entanto Nilo Sérgio foi pioneiro na administração de uma gravadora nacional e esta ainda teve vida longa.

Em 1953 Fafá Lemos acompanha Carmen Miranda em mais uma turnê pelos Estados Unidos, gravando por lá o disco “Jantar no Rio” [1954 RCA Victor BKL 2] já em 12 polegadas - disponível aqui no bossa-brasileira. Em 1955 Garoto falece prematuramente vítima de problemas cardíacos. No mesmo ano o mundo musical brasileiro também cumpre luto por Carmen Miranda. Fafá retorna ao Brasil, mas não volta a gravar na Musidisc. Nilo Sérgio não desiste da “marca” Trio Surdina e remonta o conjunto com auxílio do excelente violonista Nestor Campos, para a gravação de mais LPs. Ao lado dos músicos Auro P. Thomaz, o “El Gaúcho” acordeonista e Joaquim Gonçalves Oliveira Filho, o Al Quincas músico originalmente saxofonista, mas no Trio Surdina encarando o violino com destreza.


O violonista Nestor Campos.

A intenção de Nilo Sérgio foi manter a aura musical criada por Garoto, e claro, impulsionar o sucesso fonográfico do seu selo. E foi bem sucedido. Mesmo sem a genialidade e ecletismo da formação original, o “novo” Trio Surdina, embora mais simples, também possuía brilho. Este disco é a prova. Lançado em 1956, possui uma sonoridade forte, com ênfase na percussão, e nos belos diálogos e fraseado dos solistas. A arrojada capa é assinada por Apolo, num resultado gráfico fora do padrão e absolutamente moderno para a época.

Como nas gravações do trio original, está aqui a mesma atmosfera de cabaré, evocando por vezes a música latina da Europa e suas tradições ciganas e através destas, a raiz árabe da música ibérica. Se a fórmula segue parecida, os músicos são outros - e claro, a visão muda. O destaque é mesmo o violão do Nestor Campos, gostoso de ouvir, preciso e com leveza. Há influencia do estilo todo particular de Garoto, mas Nestor se sai bem ao distanciar do estilo do mestre, buscando linguagem própria. Também o violino e o acordeon possuem momentos sublimes. “Linda Flor” de Henrique Vogeler por exemplo, é belíssima, com o solo de violino vibrante, valorizando a melodia pontuada com precisão pelo violão e o acordeon. “Jelousie”, clássico norte-americano, é revestida com elegância e desenhos sonoros de efeito sublime. O violino se destaca no choro “Comigo É Assim” de Luiz Bittencourt e José Menezes, com a intervenção perfeita do solo ligeiro de Nestor. Há também elegantes releituras para sucessos internacionais, como o fox “Charmaine”, a balada “Moonlight Serenade” e o bolero “Maria-lá-ô” de Ernesto Leucona, em arranjo belíssimo. Surpreendente também é “Iracema na Escócia” com bateria e violino em primeiro plano, soa como um casamento feliz e improvável entre a marcha escocesa e o samba brasileiro. Fechando o disco, um samba-choro assinado por Al Quincas “Você Não Gosta”, com destaque especial para o solo de acordeon do El Gaúcho. Um belíssimo presente aos amigos amantes da boa música!

Trio Surdina “Ouvindo Trio Surdina Volume 2”
1956 Musidisc DL 1009


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01 Jealousie [Jacob Gade]
02 Comigo É Assim [Luiz Bittencourt, José Menezes]
03 Charmaine [E. Rapee, L. Pollack]
04 Linda Flor [Henrique Vogeler]
05 Maria-lá-ô [Ernesto Lecuona]
06 Iracema na Escócia [Pernambuco]
07 Moonlight Serenade [M. Parish, G. Miller]
08 Você Não Gosta [Al Quincas]

Al Quincas: violino
Nestor Campos: violão
El Gaúcho: acordeon

para mais Trio Surdina visite as matérias de Jorge Mello:
Trio Surdina no site Musica Brasiliensis
Cancioneiro de Garoto no site Sovaco de Cobra
O Extraordinário Guitarrista Nestor Campos no Sovaco de Cobra parte 1
O Extraordinário Guitarrista Nestor Campos no Sovaco de Cobra parte 2
blog do Jorge Mello com diversas informações sobre a boa música brasileira
Trio Surdina no site Gafieiras - matéria de Ricardo Tacioli

02/12/08

Marília Batista 1952 “Poeta da Vila nº 1” [Rádio 0001]

É com grande felicidade que trazemos aos amigos esta jóia da discografia brasileira. Trata-se do disco número um da pioneira gravadora Rádio, editado em 1952, com a cantora Marília Batista interpretando sambas de Noel Rosa em arranjos luxuosos do mestre Aldo Taranto. “Poeta da Vila” é considerado o primeiro long-playing em 33 rpms gravado e produzido no Brasil, ainda no formato inicial em 10 polegadas. Registros apontam que as gravadoras Sinter e Musidisc já haviam se aventurado no formado em 1951. Segundo o pesquisador Egeu Laus, o Brasil foi o quarto país do mundo a colocar no mercado discos em formato long-playing rodando em 33 rotações, depois dos Estados Unidos, Inglaterra e França, em 1951, com uma coletânea de Carnaval no selo Sinter. Tendo sido lançado em 1952, “Poeta da Vila” é comprovadamente um dos primeiros.

A cantora Marília Batista [*13.04.1918 - +09.07.1990] incentivada pela mãe, pianista e pelo pai, médico, desde cedo desenvolveu sua aptidão para música. Empunhando violão [fato incomum para as meninas na época], aos oito anos já compunha e sonhava em ser solista. Aos doze fez seu primeiro recital, apresentando composições suas entre sambas e canções regionais. Aos quinze anos - em 1932 - gravou seu primeiro disco em 78 rpms com duas parcerias feitas com o irmão Henrique Batista. No ano seguinte, já está acompanhada por Noel Rosa, como destaque no famoso Programa do Casé, na Rádio Philips, o mais ouvido na época. A cada programa, novos sambas do também famoso poeta da vila eram apresentados.
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Foto histórica pertencente ao acervo do cantor Almirante, nos estúdios da rádio Mayrink Veiga: Mário Moraes, Cyro de Souza, Henrique Batista [irmão de Marília, também compositor], Marília Batista, Fernando Pereira, Renato Batista [irmão de Marília, também compositor] e Noel Rosa.

Marília Batista e Noel Rosa se conheceram em 1931, ela tinha quatorze anos, quando ele a viu se apresentar em uma festa, a sintonia foi imediata. Ao lado de Aracy de Almeida, Marília Batista foi a mais importante intérprete das composições de Noel Rosa. Boa moça, Marília tricotava nos intervalos da programação, enquanto Aracy acompanhava os rapazes em intermináveis noitadas pelos bares cariocas. Dona de voz e personalidade igualmente fortes, Marília também possuía humor refinado, como seu amigo Noel. No Programa do Casé ela criou o seu próprio prefixo: “Fala o Programa do Casé... / Veja se adivinha quem é... /Faço a pergunta por troça / Pois todo mundo já conhece / A garota da voz grossa...”. Além dos programas de rádio, Noel e Marília também dividiram os microfones em diversas gravações históricas, lançadas em 78 rpms pela Odeon, em algumas acompanhados pelo regional do Benedito Lacerda.

O “garota da voz grossa” não pegou, Marília Batista ficou conhecida mesmo pelo apelido delicado de: “Princesinha do Samba”. Com a inauguração da Rádio Nacional ela passa a integrar o cast como parte do conjunto vocal As Três Marias, que além de estrelas do elenco, também acompanhavam outros artistas. As Três Marias também gravam alguns discos e aparecem no filme “É Proibido Sonhar” de Moacir Fenelon, lançado em 1943.

No início de Maio de 1937, uma notícia nos jornais abala o Rio de Janeiro: Noel Rosa morre aos 27 anos de idade, vítima de sucessivas enfermidades, agravadas pelo estilo de vida boêmio. Marília Batista ainda mantém a carreira com sucesso por mais alguns anos, mas ao casar-se em 1945, se ausenta dos palcos e microfones.

Até 1952, quando é convidada pela gravadora Rádio para estrelar o primeiro LP produzido no Brasil. Uma homenagem a Noel Rosa, com arranjos do maestro Aldo Taranto. Oito sambas, sendo três, instrumentais. O resultado é uma obra-prima. Dos primeiros compassos de “Feitio de Oração” [parceria de Noel com o pianista Vadico], até a última frase de “Dama do Cabaré”, Marília Batista e Aldo Taranto registram versões perfeitas, senão definitivas, em arranjos que ao mesmo tempo evocam e transcendem as gravações originais feitas na década de trinta. As belas “Quando o Samba Acabar”, “Pra Esquecer” e “Dama do Cabaré” são os maiores exemplos. Não há como não destacar a partitura orquestral nas faixas. Nem mesmo o arranjo ousado do pequeno conjunto em “Pela Primeira Vez” [parceria com Cristovão de Alencar], onde Taranto coloca sopros dialogando com uma guitarra elétrica de maneira magistral. “Quem Ri Melhor” sobrepõe o conjunto e a orquestra, com grande beleza nos desenhos melódicos dos violinos - enquanto o samba come solto, com percussão marcada, pandeiros e a participação vocal das Três Marias. Já “Com Que Roupa?” comparece instrumental com solo de guitarra - músico infelizmente não creditado [seria o grande Laurindo Almeida?] - e um solo assombroso de piano do mestre Taranto em pessoa.

Marília Batista 1952 “Poeta da Vila nº 1” [Rádio 0001]

Foram lançadas diferentes edições deste disco, a que usamos para digitalizar possui o vinil perolado nos tons preto, vermelho e branco. Existe também uma edição com o vinil predominante branco, mas perolado em vermelho e preto, outra com o vinil acinzentado, além do vinil normal, inteiramente preto. Se alguém conhecer edições em outras cores deste disco, entre em contato!

Destacar a importância de Noel Rosa é chover no molhado. Faço questão porém, de mostrar aqui um bilhete encontrado na primeira página do álbum de recortes mantido pela mãe do compositor, apenas como ilustração de seu incrível senso de humor:

Imagem pertencente ao acervo de João Máximo e Carlos Didier, autores da caprichada e obrigatória “Noel Rosa, Uma Biografia” editado pela Linha Gráfica em 1990.

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01 Feitio de Oração [Noel Rosa, Vadico]
02 Até Amanhã [Noel Rosa] samba
03 Quando o Samba Acabou [Noel Rosa]
04 Pra Esquecer [Noel Rosa]
05 Com Que Roupa [Noel Rosa]
06 Quem Ri Melhor [Noel Rosa]
07 Pela Primeira Vez [Noel Rosa, Cristóvão de Alencar]
08 Dama do Cabaré [Noel Rosa]

arranjos do maestro Aldo Taranto

19/11/08

Paulo Tapajós 1956 “Melodias Imortais de Joubert de Carvalho” [Sinter SLP 1082]

É com grande felicidade que apresentamos este disco de 10 polegadas gravado por Paulo Tapajós e lançado pela gravadora Sinter em 1956. Raridade histórica, este LP traz interpretações únicas para canções do mestre Joubert de Carvalho. São valsinhas, canções seresteiras e toadas, arranjadas para orquestra, côro e pequeno conjunto pelo mestre das batutas Léo Peracchi - que segundo Paulo, no texto da contracapa, realizou a sobreposição de arranjos diferentes na mesma canção, em algumas das faixas. Somente pelas presenças de Paulo Tapajós e Léo Peracchi executando o repertório de Joubert de Carvalho, este disco já seria um clássico, mas consegue ir além. A beleza das faixas, a leveza dos arranjos, a voz econômica - sem a costumeira impostação exagerada da época - a delicadeza geral com que foi gravado, já mostra se tratar aqui, de mais um dos clássicos esquecidos da nossa discografia histórica.

Os músicos não são creditados, mas o instrumental é estupendo. Há um belo violão, diálogos entre vibrafones, clarinetas e flautas, e até mesmo solos de guitarra elétrica. A orquestra completam a massa sonora, com desenhos belíssimos, completando o efeito sublime das gravações.

“Olha-Me Bem Nos Olhos” abre lírica com a orquestra se desdobrando em coloridos inesperados, emoldurando a bela poesia de Aldemar Tavares: “...Mas quando eu repousar em cova rasa / E Deus, estrela ou flor, fizer de mim... / Estrela, eu fico sobre a tua casa / Flor humilde, abrirei no teu jardim...”

“Hula” é uma valsa hipnótica, com vibes, guitarra havaiana - a música foi certamente inspirada em melodias daquelas ilhas - além de côro feminino completando a beleza da composição com letra do poeta Olegário Mariano. Já “Nhá Maria” começa evocando música de câmara, com suas linhas de violinos e oboés, até se transformar em uma toada brejeira, misturando piano, solos de violinos e acordeons. Trabalho incrível de brasilidade única do mestre Léo Peracchi, que surpreende também na famosa “Maringá”, com arranjo composto apenas de vozes, com Paulo solando e o côro misto executando a melodia.

A deliciosa “De Papo Pro Á” foi gravada com pequeno conjunto, com percussão, baixos e sopros em primeiro plano, marcando a melodia famosa em arranjo belíssimo. Em “Taboada”, o clima volta a ser melancólico, novamente a orquestra completa é chamada em primeiro plano. Uma das mais lindas canções de Joubert de Carvalho é “Dor”, registrada aqui com grande delicadeza, em arranjo alternando entre o brejeiro e o barroco, com acordeons e os vibrafones passeando pelo ar e a melodia revelando o compositor também como grande poeta: “...diz alguém, que não tens morada / que andas aqui e acolá, qual paloma abandonada / onde moras, dor cruel pungente? / é na casa da saudade, onde vive tanta gente...”

“Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá...” “Cantigas da Minha Terra” fecha o disco com Paulo Tapajós cantando em meio a flautas, solos de harpa e vozes femininas. “Minha terra tem cantigas nas ruas em profusão / Que o vento passando leva diretas pro coração...” É de se orgulhar de ser Brasileiro!


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01 Olha-me Bem nos Olhos [Joubert de Carvalho, Aldemar Tavares] canção
02 Hula [Joubert de Carvalho, Olegário Mariano] valsa
03 Nhá Maria [Joubert de Carvalho] tanguinho
04 Maringá [Joubert de Carvalho] canção
05 De Papo Pro Á [Joubert de Carvalho, Olegário Mariano] cateretê
06 Taboada [Joubert de Carvalho, Adelmar Tavares] canção
07 Dor [Joubert de Carvalho] canção
08 Cantigas de Minha Terra [Joubert de Carvalho] canção

Orquestra, Côro e Pequeno Conjunto regidos pelo Maestro Léo Peracchi

18/11/08

Daisy Guastini 1959 Compacto-Duplo 45 rpm [Arpége AEP 1003]

Foi dito que a voz humana é o mais belo instrumento musical que existe. Humildemente confirmamos a afirmação. No entanto, é triste descobrir que o descaso histórico com nossa produção musical, tenha relegado vozes como a de Daisy Guastini a um incompreensível esquecimento. Um atentado à cultura... Ainda bem que há pessoas obstinadas nas tarefas de redescoberta e de tornar acessíveis tais tesouros musicais. Discos como este, esquecidos em coleções particulares, ou sebos empoeirados, ficariam para sempre como objetos inúteis se decompondo no tempo. Usando a tecnologia do presente para resgatar a música do passado, prestamos serviço incontestável para a preservação da nossa própria cultura musical.

Temos aqui mais um tesouro: a voz de Daisy Guastini. Cantora nascida no estado de Minas Gerais, que iniciou sua carreira nos anos 50, como locutora e radioatriz da Rádio Inconfidência, e apresentadora da TV Itacolomi, ambas emissoras de Belo Horizonte. Casou-se com o compositor e guitarrista Nazário Cordeiro, união que gerou a filha Daisy Cordeiro, também cantora. Atuou em emissoras do Rio de Janeiro e de São Paulo e gravou pelos selos Arpége e RGE. Daisy Guastini ainda se apresenta ao vivo, em 2005 organizou um tributo à grande Isaurinha Garcia.

Aqui, ela interpreta alguns sambas-canção sofridos com personalidade ao lado do conjunto do pianista Waldir Calmon, também dono do selo Arpége. Seu marido, o guitarrista Nazário Cordeiro comparece tocando guitarra elétrica e violão. Ao lado de um conjunto intimista, com repertório e arranjos apropriados, a voz da cantora cresce, num resultado de elegância e extremo bom gosto. Ouso dizer que está aqui a melhor versão já gravada para o clássico “O Que Tinha Que Ser”, de Antônio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes. Há ainda outra canção de Jobim “Esquecendo Você”, onde a cantora destila calma, a tristeza que irá “ter que aprender a viver sozinha na solidão... eu vou ter que passar minha vida esquecendo você...” e no meio do caminho o samba-canção arrastado vira um fox marcado pelo piano do Calmon, numa alegria inusitada.

De Fred Chateaubriand e Vinicius de Carvalho“Noite Triste Sem Ninguém” com belo arranjo para violão e piano - combinação difícil, que resulta em perfeição. A bossa de Daisy Guastini e a bela melodia completam a beleza: “...embora vendo-te presente, ao redor tudo desmente / o que os sonhos meus contém / é faz-de-conta somente / noite triste sem ninguém...” E o piano e o violão ainda solam, com um vibrafone discreto completando a maravilha.

Para não terminar o disquinho no completo baixo astral - apesar de belíssimo - há o samba-canção de José Braz de Andrade, o “Delé”, “Basta A Luz da Lua”, onde desta vez finalmente, o amor é correspondido, marcando a esperança de dias felizes. Vibrafone, violão e o piano na bossa perfeita de um conjunto de “cool samba-canção”, apenas como suporte luxuoso para a voz limpa e aveludada da Daisy Guastini: “...basta a luz da lua, pra iluminar a nossa estrada / tendo nos meus lábios, esta canção apaixonada / dentro do meu coração, as palavras que nascem com grande emoção / vem expressar com razão, toda grandeza de minha paixão... / e assim eu vou convencida / sonhando estar nesta vida / nos seus braços embalada / canção que me faz feliz / neste estribilho que diz / basta a luz da lua e não precisa de mais nada...” Sem palavras.

Daisy Guastini 1959 Compacto-Duplo 45 rpm [Arpége AEP 1003]

01 Porque Tinha de Ser [Antônio Carlos Jobim, Vinicius de Moraes] samba-canção
02 Noite Triste Sem Ninguém [Fred Chateaubriand, Vinicius de Carvalho] samba-canção
03 Esquecendo Você [Antônio Carlos Jobim] samba-canção
04 Basta a Luz da Lua [José Braz de Andrade "Delé"] samba-canção

Roberto Luna 1957 "Molambo" [Odeon BWB 1086]

Dono de um vozeirão Roberto Luna, nasceu em Serraria, Paraíba, em 01.12.1926, e era chamado de “uma voz para milhões”. Morando no Rio de Janeiro desde 1945, iniciou como cantor em teatro de revistas, logo se tornando crooner de diversas casas de shows na cidade. Em 1951 foi contratado pela Rádio Guanabara, depois também atuou nas rádios Globo, Mayrink Veiga e Nacional. Na mesma época gravou seus primeiros discos em 78 rpms. Versátil, se destacava tanto nos sambas carnavalescos, marchas e sincopados, como nos sambas-canção, boleros, tangos e canções românticas. Fez grande sucesso na década de 50, deixou fonogramas gravados na Star, Musidisc, Odeon, RGE e Philips.

Este disquinho saiu pela Odeon, quatro faixas em 45 rotações, e capinha especial com lettering do grande César G. Villela. Apenas uma das faixas já havia sido lançada anteriormente, “Molambo” de Jaime Florence e Augusto Mesquita, na mesma gravação, mas em versão estendida no disco de 10 polegadas “Uma Voz Para Milhões” [Odeon MODB 3063] lançado em 1956.

Nos arranjos, não creditado no disquinho, está o maestro Luiz Arruda Paes, conduzindo orquestra e côro com a destreza e o capricho que lhe era habitual. O repertório curiosamente passeia por canções que se imortalizaram em vozes femininas. “Molambo”, “Caminha” [de Rolando Candiano e Evaldo Ruy, sucesso na voz de Elizeth Cardoso], a famosa “Conselho” de Oswaldo Gulherme e Denis Brean, e a belíssima “Alucinação” samba-canção de Newton Teixeira e Macieira Nascimento. Um registro muito caprichado, dos melhores gravados por Roberto Luna.
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01 Molambo [Jayme Florence, Augusto Mesquita] samba-canção
02 Caminha [Rolando Candiano, Evaldo Ruy] samba-canção
03 Conselho [Denis Brean, Oswaldo Guilherme] samba-canção
04 Alucinação [Newton Teixeira, Macieira Nascimento] samba-canção

Orquestra e Côro regidos pelo Maestro Luiz Arruda Paes

17/11/08

Carnaval em Bossa [BRLP 002]

Começamos com a reedição da coletânea “Carnaval em Bossa”, depois de muito tempo fora do ar, ela volta com nova capa e ajustes no som. Agradeço a paciência dos amigos que nunca deixaram de pedir pela reedição.

“Através da música, o Carnaval do passado pode ser revisto. Algumas das marchas e sambas carnavalescos que se tornaram célebres - na verdade a sua grande maioria - não atravessaram o tempo. É uma produção que ainda está a ser descoberta. O blog Bossa-Brasileira produziu uma coletânea, com exemplos deste rico painel musical, também uma indicação de pesquisa. Aqui, apenas um singelo exemplo, um pequeno painel do que de melhor foi gravado em música de Carnaval no Brasil. São em sua maioria marchinhas, alegres ou melancólicas e alguns sambas. Todos representantes legítimos do som que se fazia e se ouvia no Carnaval Brasileiro de outras épocas.”

“Uma das preferidas da casa Aurora Miranda comparece em quatro faixas, irresistível como sempre. Sua irmã Carmen Miranda, em três - incluindo a impagável “Good-bye” [de Assis Valente]. Há outra Carmen - a Barbosa - que bela voz ela revela e que sincopado! As Irmãs Pagãs também destilam sua beleza. E que dizer da voz de Lolita França em “Tahí” [Joubert de Carvalho]... Era a bossa de 1939... Há também os cantores, os obrigatórios Francisco Alves, Mário Reis, Almirante e Orlando Silva. Carlos Galhardo também é um dos preferidos da casa, ouçam “Mariposa” [de João da Baiana, Wilson Batista] e tirem suas próprias conclusões. A malandragem também não poderia ficar de fora, neste quesito temos Vassourinha, Noel Rosa ao lado de Marília Batista e a inacreditável Dora Lopes. Para não falarem que o samba é somente carioca temos também a graça de Isaurinha Garcia. Alguns dos melhores intérpretes e muitos dos melhores compositores: Assis Valente, Herivelto Martins, Benedito Lacerda, Ismael Silva, Noel Rosa, Lamartine Babo, Wilson Batista, Haroldo Barbosa, Custódio Mesquita, Antônio Almeida e outros, a lista é longa. Este é “Carnaval em Bossa”, um belo presente!”

“Carnaval em Bossa” [BRLP 002]

01 Lolita França “Pra Você Gostar de Mim [Tahi]” [Joubert de Carvalho] 1939
02 Aurora Miranda “Que Horas São Estas” [A. Almeida, O. Santiago] 1939
03 Almirante “História do Brasil” [Lamartine Babo] 1933
04 Dora Lopes “Velho Borocochô” [Dora Lopes, J. Batista, N. Viana] 1954
05 Almirante “Menina Oxigenê” [Hervê Cordovil, Lamartine Babo] 1933
06 Carmen Miranda “Good-Bye” [Assis Valente] 1932
07 Irmãs Pagãs “Água Mole em Pedra Dura” [M. Moreira, S. de Mello] 1939
08 Carmen Barbosa “Loteria do Amor” [Aldo Cabral, Benedito Lacerda] 1940
09 Orlando Silva “A Primeira Vez” [Marçal, Armando, Bide] 1940
10 Aurora Miranda “Quando a Lua Vem Saindo” [Alberto Ribeiro] 1938
11 Carlos Galhardo “Mariposa” [João da Baiana, Wilson Batista] 1940
12 Aurora Miranda “Não Vejo Jeito” [Ismael Silva] 1939
13 Carmen Miranda “E o Mundo Não Se Acabou” [Assis Valente] 1938
14 Dalva de Oliveira & Francisco Alves “Andorinha” [H Barbosa, H Martins] 1945
15 Aurora Miranda “Se a Lua Contasse” [Custódio Mesquita] 1933
16 Vassourinha “Chik Chik Bum” [Antônio Almeida] 1941
17 Carmen Miranda “Ao Voltar do Samba” [Sinval Silva] 1934
18 Carmen BarbosaNo Picadeiro da Vida” [B. Lacerda, H. Martins] 1937
19 Quatro Ases e Um CoringaMarcha do Caracol” [A. Teixeira, Peterpan] 1950
20 Mário ReisMais Uma Estrela” [B. de Oliveira, H. Martins] 1934
21 Francisco AlvesVai Meu Samba” [Custódio Mesquita] 1936
22 Isaurinha Garcia “O Sorriso do Paulinho” [Gastão Viana, Mário Rossi] 1942
23 Aurora Miranda “Mania de Malandro” [Herivelto Martins] 1938
24 Noel Rosa & Marília Batista “De Babado” [João Mina, Noel Rosa] 1936

16/11/08

3 anos de Bossa-Brasileira!

Neste Novembro de 2008 o blog Bossa-Brasileira completa 3 anos. Vimos nascer e crescer um universo de blogs e sites enfocando a música brasileira de outros tempos, outros fecharam as portas e deixaram saudades. De nossa parte, concluímos que mesmo impossibilitados de uma grande freqüência de posts, possuímos admiradores fiéis, o que nos incentiva a continuar sempre, apesar de todas as dificuldades. O blog passou por mudanças, reformas, todos os links estão no ar e novos posts entrarão nos próximos dias. Um grande abraço a todos, e feliz aniversário!

19/08/08

Lana Bittencourt 1955 "Lana Bittencourt" [Columbia LPCB 35017]

Este é o primeiro disco em formato long-playing, ainda em 10 polegadas, lançado por Lana Bittencourt, em 1955 via Columbia, com fonogramas lançados anteriormente em discos de 78 rotações de grande sucesso. A aceitação do formato LP era ainda modesta e algumas gravadoras preferiam reunir faixas já consagradas em um único produto melhor acabado, do que lançar novas gravações. Muitos artistas tiveram coletâneas de sucessos extraídos dos discos em 78 rpms, como seus primeiros LPs. O resultado era que o novo formato ia criando belas coleções, discos que atravessaram o tempo, preservando a estranha beleza que a música brasileira possuía na época.

Em 1955 a gravadora Columbia possuía um dos melhores estúdios de gravação do país, já familiarizado com o sistema em alta-fidelidade, em uso nos Estados Unidos desde o início da década. A qualidade do registro pode ser percebida em pequenos detalhes como o brilho na voz e nos demais instrumentos, a percussão em destaque e os arranjos orquestrais em profusão impressionante. O que os engenheiros de som conseguiam com os recursos e o sistema da época é de causar espanto.

Lana Bittencourt [nome artístico de Irlan Figueiredo Passos] foi cantora de grandes sucessos, conhecida pela voz perfeita em timbre forte, derramada em sambas e canções internacionais. Estrela das rádios Tupi e da Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro, chegou a ter um programa exclusivo na TV Paulista, em São Paulo. Em discos estreou em 1954 pela gravadora Todamérica, passando para a Columbia no ano seguinte, onde permaneceu por muitos anos. Atua até hoje em discos e shows.

Temos aqui os primeiros grandes sucessos de Lana Bittencourt, em uma coleção elegante, a começar pela belíssima capa. Dos primeiros acordes da orquestra em “Malagueña”, fantasia espanhola de Ernesto Leucona, versão em português de Julio Nagib, até o último suspiro do samba-choro “Porque É” de Milton Legey e Paulo Menezes, temos o privilégio de acompanhar a essa bela voz brasileira passeando por oito paisagens musicais. Destaque para a versão em português, também de Julio Nagib, para “Johnny Guitar”, grande sucesso internacional de Victor Young, trilha-sonora do filme homônimo, com arranjos incríveis do maestro Renato de Oliveira, com direito a solo de clarinete. Mas há também o belo samba-canção de Ricardo Galeno “Quem Se Humilha”; outra fantasia de Ernesto Leucona em versão de Julio Nagib, “Andalúcia” em belíssimo arranjo, destaque para a cascata de melodia promovida pela orquestra; e o samba-sincopado [seria uma pré-bossa nova em 1955?] “Pobre Menino Rico”, de Vargas Jr. e Oscar Bellandi, com letra mais que atual: “Pobre menino rico, da zona sul da cidade / embora tenhas de tudo, não tens a felicidade / não jogas bola de gude não sabes rodar pião / não podes pisar descalço a terra seca do chão...” Coisa finíssima!

Lana Bittencourt 1955 “Lana Bittencourt” [Columbia LPCB 35017]

01 Malagueña [Ernesto Lecuona, versão Julio Nagib] fantasia espanhola
02 Johnny Guitar [V. Young, versão Julio Nagib] bolero
03 Quem Se Humilha [Ricardo Galeno] samba-canção
04 Andalúcia [Ernesto Lecuona, versão Julio Nagib] rumba
05 Vai [Go] [R. Evans, A. Aristone, versão Nazareno de Brito] fox
06 Pobre Menino Rico [Vargas Jr., Oscar Bellandi] samba
07 Juca [Haroldo Barbosa] fox
08 Porque É [Milton Legey, Paulo Menezes] samba-choro

Para mais Lana Bittencourt, visite o Bossa-Filmes onde há imagens raras da cantora em 1960, aqui.

10/08/08

Roberto Inglez 1954 "Um Programa com Roberto Inglez" [Odeon LDS 20.007]

Simplesmente fantástico, este LP foi lançado no Brasil em 1954 pela Odeon no formato de 10 polegadas. À primeira vista pode parecer mais um disco no estilo dos de orquestras de danças, que fizeram muito sucesso e hoje ressurgem nos sites que disponibilizam LPs antigos, mas pelo contrário, “Um Programa com Roberto Inglez” é uma preciosidade musical e de colorido inédito.

Roberto Inglez - na verdade Robert Inglis - nasceu na Escócia em 1913 e aprendeu piano aos 5 anos de idade, aos 15 já possuía o seu próprio conjunto. De origem simples, estudou e chegou a trabalhar como dentista durante o dia e como maestro à noite. Mas o talento musical falou mais alto. Em 1937, estudando regência na Royal Academy of Music em Londres, conhece o maestro Edmundo Ros, membro na época da Don Marino Barreto’s Cuban Orchestra, especializada em música latina. Quando Edmundo Ros deixou Don Marino para formar sua própria orquestra, recrutou Robert, sugerindo o nome artístico Roberto Inglez - já que ele seria o único britânico na formação. Sua estadia ali durou pouco e logo partiu para formar sua orquestra. Com a Segunda Guerra Mundial, a produção artística na Europa é praticamente interrompida e as primeiras gravações profissionais só surgem no final de 1945. No ano seguinte, Roberto Inglez é contratado pelo Hotel Savoy, casa do famoso pianista Carrol Gibbons, e um dos mais sofisticados hotéis de Londres.

Seus discos foram lançados pela Parlophon britânica, pela Coral americana e pelas associadas Odeon na Espanha e no Brasil, e venderam grandes quantidades de 78 rpms e long-playings. Todas as suas gravações trazem a paixão pelos rítmos latinos, especialmente os brasileiros. Em 1952, veio ao Brasil pela primeira vez e liderou uma orquestra de músicos brasileiros com 30 integrantes, em apresentações no Rio de Janeiro [quatro semanas no Hotel Casablanca] e em São Paulo [duas semanas no Hotel Lord]. Diz a lenda que nesta ocasião acompanhou as primeiras apresentações da iniciante Ângela Maria. De volta à Londres, Dalva de Oliveira foi estrela de seu set por duas semanas no Hotel Savoy, encontro que fez nascer 17 registros antológicos lançados no Brasil em LPs da Odeon. Em 1954, casou-se e foi morar no Chile, formando lá a Roberto Inglez y su Orchestra Romanza. Voltou ao Brasil em outras temporadas e para mais gravações na Odeon, se retirando dos meios musicais no início dos anos 60. Faleceu em 1978 na capital Chilena, Santiago.

Este é provavelmente o seu quinto LP no formato 10 polegadas, os outros neste formato, foram lançados nos Estados Unidos pelo selo Coral a partir de 1951. Aqui, o repertório de primeira, é executado com brilho e vigor, em gravação excelente para os padrões técnicos da época. O piano econômico, pinçando notas no silêncio, contribui para a beleza geral e faz pensar: teria Roberto Inglez ajudado a criar o estilo largamente difundido no Brasil com Waldir Calmon, Britinho, José Luciano, indo até João Donato e claro, chegando a Antônio Carlos Jobim?
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O LP abre com uma versão arrasadora do baião “Delicado” de Waldir Azevedo, com direito a chuva de sopros e cordas, numa aula de arranjo. “Mano Generosa” [Texldor] coloca cha-cha-cha na mistura e um solo de trompete com surdina - coisa incrível. O samba-canção “Distância” de Marino Pinto e Mário Rossi, acalma o ambiente e por segundos pensamos que o disco voltará ao padrão musical que estamos acostumados - até a melodia ser levada ao espaço por detalhes fantásticos, beleza indescritível. O tempo fecha de novo, e bongôs anunciam “Marroco” [Fields, Shaw], melodia árabe em roupagem latina, encontro inusitado com metais e sopros em primeiro plano. Em “Calla, Calla” [Samuels] aparecem cavaquinhos e a melodia, dessa vez judaica, vira um sambão de orquestra, com palmas e solos de metais. É de espantar como ficou bonito. “Raminay” [Lawrence, Fain] traz o piano pontuando belos desenhos da melodia, que é desconstruída pela orquestra num crescendo até a explosão final. Em seguida, o baião “Kalú” de Humberto Teixeira, também ganha belo arranjo. O rítmo acelera com “Sururu” [do maestro Lôro], piano em primeiro plano em meio às cascatas melódicas promovidas pela orquestra, percussão pesada e novamente cavaquinho. “Heart and Soul” [Carmicael] beguine muito famoso na época, é suave, melodia deslizando pelo espaço sendo moldada com delicadeza, sem repetir uma única frase. O set encerra com “Brasileirinho” de Waldir Azevedo, acelerada e com estranho colorido. O silêncio final é ainda mais vazio, o que parecia ser uma salada sonora deixa saudade... só resta ouvir tudo novamente... e pensar: Bravo Maestro!
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01 Delicado [Waldir Azevedo] baião
02 Mano Generosa [Texldor] canção
03 Distância [Marino Pinto, Mário Rossi] bolero
04 Marocco [Fields, Shaw] rumba
05 Calla, Calla [Samuels] samba
06 Raminay [Lawrence, Fain] canção
07 Kalú [Humberto Teixeira] baião
08 Sururú [Lôro] samba
09 Heart and Soul [Carmichael] beguine
10 Brasileirinho [Waldir Azevedo] chôro

09/08/08

Chiadofone!

Espantamos a poeira para anunciar mais um blog de conteúdo na rede, é o Chiadofone, produzido em São Paulo por um time de apaixonados pela música brasileira de outros tempos. “O selo discográfico português Chiadofone, encontrado por acaso num site russo nos idos de 2005, circulou no início do século XX e é o mote deste blog sobre música popular brasileira registrada nos chiados dos discos de 76 e 78 rpm.” é o texto que os apresenta. No interior muita informação e boa música, bons textos, e raridades como as primeiras gravações de Silvinha Telles, gravações raras de Denise Duran, irmã de Dolores Duran... Um blog de primeira, vida longa!

12/06/08

O Fino do Bossa-Filmes

Alguns amigos perguntaram por que as postagens de vídeos haviam sumido do site, quero avisar que as postagens continuam no ar, só que agora no bossa-filmes, com todos aqueles vídeos já postados por aqui e muito mais.

Como foram surgindo muitos vídeos interessantes pela internet, além dos que já produzimos, resolvemos compilar todos em um único local, com visual apropriado, fácil de buscar e sempre com alguma novidade. Assim deixamos o bossa-brasileira mais livre para postagens dos discos que continuarão.

Quero agradecer a todos os amigos que nos visitam e todos aqueles que pacientes postam estes vídeos, muitas vezes raros, para visitação pública.

Destacamos o curta Casinha Pequenina de Humberto Mauro, produção dos anos 40; um video amador com a linda voz de Stellinha Egg [nossa recordista de downloads] interpretando Catullo da Paixão Cearense; uma singela homenagem ao flautista Pattápio Silva com a música "O Sonho";

A música de Nestor Amaral na trilha do filme surrealista "Rose Robbart" de 1936; o maestro Radamés Gnattali tocando ao piano Ernesto Nazareth, como nos tempos do cinema mudo; um belo samba com Dora Lopes, além de muitos outros momentos raros e especiais... É a Bossa do Brasil em imagens. Espero que gostem e um grande abraço a todos!

23/03/08

Luiz Americano 1958 "Chora Saxofone" [RCA Victor BBL 1005]

É uma grande honra postarmos aqui um disco do clarinetista Luiz Americano, tanto pela raridade como pela qualidade e importância. A história musical de Luiz Americano se confunde com o desenvolvimento da música popular no Brasil. Filho de mestre de banda, Luiz Americano Rêgo nasceu em Aracaju no ano de 1900. Com o pai iniciou os estudos no clarinete aos 13 anos de idade. Ingressou no exército como músico instrumentista e viajou para o Rio de Janeiro, deixando a farda aos 22 anos para iniciar a longa carreira de músico profissional na então capital federal. A partir da década de 20 grava e se apresenta com as mais importantes orquestras do período, como as de Justo Nieto, Romeu Silva, Simon Boutmann, Raul Lipoff e outras, além de atuar em inúmeros conjuntos regionais. Depois de uma temporada trabalhando na Argentina, Luiz volta ao Rio e funda um dos primeiros conjuntos de jazz a surgirem no Brasil. Por não gostar de viajar deixou de acompanhar Carmen Miranda nos Estados Unidos, no entanto mesmo sem ter ido à terra do jazz, ganhou elogio do mestre do clarinete Benny Goodman.

Luiz Americano era veterano quando gravou este LP para a RCA Victor em 1958, ao lado de um conjunto regional para registrar um apanhado sublime de choros e valsas. Na maioria composições próprias anteriormente gravadas, ao lado de números de Joubert de Carvalho, Eduardo Patané e outros. Coisa muito séria. O que ouvimos aqui é o sax e a clarineta rirem e chorarem alternadamente, brincando com os sentidos do ouvinte com leveza e ironia impressionantes, nos transportando a uma outra dimensão onde a música é coisa divina, saída direto do coração e tocada por anjos.

Luiz Americano 1958 “Chora Saxofone” [RCA Victor BBL 1005]

01 Lágrimas de Virgem [Luiz Americano]
02 Numa Seresta [Luiz Americano]
03 Suely [Eduardo Patané]
04 Léa [Luiz Americano]
05 Assim Mesmo [Luiz Americano]
06 É do Que Há [Luiz Americano]
07 Lêda [Luiz Americano]
08 Tempero da Chiquinha [Luis de Souza, M. H. Santos]
09 Negrinha [Joubert de Carvalho]
10 Valina [Luiz Americano, Daniel Lustosa]
11 Choro de Caetetu [M. H. Santos, Salin Salomão]
12 Garrincha [Luiz Americano]

Norberto Baldauf e Seu Conjunto 1960 "Encontro Dançante" [Odeon MOFB 3137]


Este disco com o Conjunto do Norberto Baldauf é um pequeno tesouro perdido. Foi gravado pela Odeon em 1960, quando o conjunto gaúcho já era bastante conhecido e tinha vários discos lançados. “Encontro Dançante” a primeira vista parece um disco comum, no padrão da época. O repertório é incrível, com músicas que então faziam sucesso e até números da bossa nova, como “Este Seu Olhar”, “Brigas Nunca Mais” e uma belíssima versão de “Eu Sei Que Vou Te Amar” todas de Antônio Carlos Jobim, sendo que as duas últimas com letras de Vinicius de Moraes. Vale destacar ainda as latinas “La Barca”, “El Bodeguero” e também a italiana e divertida “Scapricciatiello”.

“Encontro Dançante” impressiona pela técnica, variedade e criatividade do conjunto e também pela sonoridade do registro em estúdio. Há som de órgão com Solovox, guitarra elétrica, piano vigoroso, acordeon, baixo marcante, ritmo sincopado e um eventual coro. São elementos simples que tomam dimensões inesperadas. Pode-se ouvir a satisfação dos músicos ao interpretar com tanto brilho e força canções mesmo singelas, que se tornam quase brincadeira irresistível de dança. Aliás, é um disco “Para Dançar” conforme se dizia na época, de primeiríssima qualidade...



01 Bom Que Dói [Luis Bonfá]
02 La Barca [Roberto Cantoral]
03 A Certain Smile [Paul Francis Webster, S. Fain]
04 Este Seu Olhar [Antônio Carlos Jobim]
05 Tu Me Acostumbraste [F. Dominguez]
06 To The Ends Of The Earth [J. Sherman, N. Sherman]
07 Scapricciatiello [F. Albano, P. Vento]
08 Da Cor do Pecado [Bororó]
09 El Bodeguero [E. R. Egues]
10 Brigas Nunca Mais [Antônio Carlos Jobim, Vinicius de Moraes]
11 Non Dimenticar [P. G. Redi, M. Galdieri]
12 Eu Sei Que Vou Te Amar [Antônio Carlos Jobim, Vinicius de Moraes]

28/02/08

Lenita Bruno 1968 Lenita Bruno em Hollywood [Fermata FB 235]

Entre os muitos discos de bossa nova gravados nos Estados Unidos depois de 1965 há aqueles que realmente impressionam. Abraçada comercialmente por nossos vizinhos, a bossa nova impulsionou a indústria fonográfica norte americana ao lado do rock, firmando os dois estilos como principais produtos do comércio de discos na época. As gerações acostumadas à música mais sofisticada, como o jazz, tiveram na bossa uma injeção de ar puro e renovação. Muita música boa de verdade foi produzida e gravada, assim como muita coisa descartável. Nossa bossa foi trilha para ajudar a vender diversos produtos, de refrigerantes a passagens aéreas, de balas e chocolates a toalhas de banho, não havia limite para a imaginação dos nossos vizinhos. Tudo era bossa nova. Alguns artistas brasileiros embarcaram na onda e tivemos uma grande evasão de talentos atrás de melhores condições de trabalho. Muitos destes se entregaram ao sistema comercial, mas outros insistiram na arte. Luiz Henrique, Walter Wanderley e Lenita Bruno fizeram parte deste segundo grupo.

Lenita Bruno, treinada no canto lírico e intérprete de canções do universo musical norte americano durante as décadas de 40 e 50, abraçou a bossa nova com muita beleza e sofisticação em seus discos gravados nos Estados Unidos. Depois de deixar dois LPs clássicos como “Por Toda a Minha Vida” e “Modinhas Fora de Moda” [do selo Festa], Lenita partiu em 1964 e gravou com nomes como Laurindo de Almeida, Bud Shank, Claire Fisher e outros.

Este LP foi gravado em Hollywood, a edição nacional lançada em 1968 pelo selo Fermata [FB 235] omitiu como de costume, os nomes dos músicos e arranjadores. Mas é bastante possível que estejam presentes o órgão de Walter Wanderley [o toque inconfundível] e a bateria do mestre Paulinho. Com letras traduzidas para o inglês Lenita canta clássicos de Jobim [“Este Seu Olhar”, “Desafinado” e “Chega de Saudade”], Dorival Caymmi [“Acalanto”], Chico Buarque de Hollanda [“A Banda”, “Carolina” e “Tem Mais Samba”], Dolores Duran [“A Noite do Meu Bem”], Djalma Ferreira e Luis Antônio [“Cheiro de Saudade” e “Murmúrio”] e outros. Tudo emoldurado por belos arranjos com destaque para os metais, percussão, piano e órgão hammond marcantes. Um clássico. Agradecimentos ao Sr. Clóvis de Curitiba por ceder sua cópia para a nossa masterização digital.

Lenita Bruno 1968 Lenita Bruno em Hollywood [Fermata FB 235]


01 All I Need Is All I Want [Tem Mais Samba] [C. Buarque, vrs. M. Bergman, vrs. A. Bergman]
02 Off Key [Desafinado] [Jobim, Mendonça, Vrs. G. Lees]
03 That Look You Wear [Este Seu Olhar] [Antônio Carlos Jobim, vrs. G. Lees]
04 Summer Flower [Carolina] [Chico Buarque de Hollanda, vrs. C. M. Jones, vrs. N. Green]
05 Stay My Love [Dá-me] [Adilson Godoy, vrs. F. Jay]
06 Velvet [A Noite do Meu Bem] [Dolores Duran, vrs. F. Landesman]
07 No More Blues [Chega de Saudade] [Jobim, de Moraes, vrs. J. Hendricks, vrs. J. Cavanaugh]
08 Sleep My Dear One [Acalanto] [Dorival Caymmi, vrs. L. Hayton]
09 Taste Of Sadness [Cheiro de Saudade] [Djalma Ferreira, Luis Antônio, vrs. N. Miller]
10 One Heartache Ago [Murmúrio] [Djalma Ferreira, Luis Antônio, vrs. B. Raleigh]
11 Marching Along With The Band [A Banda] [C. Buarque, vrs. R. Cowen, vrs. L. Kerr]

07/02/08

Luiz Cláudio 1959 Luiz Cláudio [RCA Victor BBL 1065]

LP espetacular, registra a maturidade artística de Luiz Cláudio, importante compositor e cantor que atuou da década de 50 até o início dos anos 80. Nascido em Minas Gerais, Luiz Cláudio ainda menino formou seu primeiro trio vocal. “Descoberto” por um produtor de rádio, passa a cantar na capital Belo Horizonte. A transição aos discos foi rápida e já com suas próprias composições. Acompanhando-se com um violão discreto e cantando de maneira mansa e voz aveludada, Luiz Cláudio teve influência de Lúcio Alves, Dick Farney e Tito Madi, além dos cantores de fox norte-americanos escutados através do rádio. Sua música chamou a atenção rapidamente da juventude e se tornou grande sucesso. Atuou em um programa próprio de TV e despontou como cantor romântico de bom gosto e compositor privilegiado, gravando sambas, sambas-canção, bossa nova, toadas, fox, jazz, música regional e até mesmo rock. Este disco registra a encruzilhada em que estava a música brasileira no momento que surgia a bossa nova. João Gilberto já havia gravado, e há algum tempo apareciam aqui e ali, os sambas sincopados com a nova batida. Luiz Cláudio embarcou na onda antes mesmo dela se formar e gravou neste LP, no ritmo novo a faixa “Menina Feia” de Oscar Castro Neves e Luvercy Fiorinni, autores da clássica “Chora Tua Tristeza”. O arranjo foi feito de improviso, “sem partes escritas” como diz o encarte - ninguém sabia direito o que era que estes rapazes estavam gravando. O resultado é fantástico.

Panorama variado, o LP possui arranjos orquestrais exuberantes, especialmente em “Amor Sem Adeus” de Luiz Bonfá e Antônio Carlos Jobim - onde uma dimensão inesperada parece tomar conta do som, arranjo de Mozart Brandão. Efeito semelhante há em “Noite de Ficar Sozinho” de autoria do próprio Luiz Cláudio com arranjo do maestro Nelsinho. Há ainda a balada “Meu Anjo Azul”, versão de Fred Jorge para “My Blue Angel” sucesso de Glen Stuart. A parceria entre Luiz Cláudio e o grande Fernando César, rendeu “História”, com arranjo latino do maestro Carioca - destaque no piano. “Carinho e Amor” sucesso de Tito Madi, também ganha arranjo sincopado. O fox intimista “Eu, Você e o Luar” de Hilário Alves e Celso Garcia, foi gravado apenas com violão, voz e um trombone - arranjo radical do Nelsinho, de clima enfumaçado de cabaré. O lado B do disco abre com a ótima guarânia - ritmo regional com raízes no Paraguai - “Oração de Amor” de autoria de Arsênio de Carvalho e Lourival Faissal. Melodia linda emoldurada por arranjo perfeito ao clima da canção. O disco volta ao samba-canção com “Só Deus”, sucesso de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, com uma combinação do registro grave da voz do Luiz Cláudio com arranjo perfeito pontuado por oboés e flautas. Sucesso também na voz de Maysa. Seguem ainda a bossa “Vou Fazer um Samba” novamente de Evaldo Gouveia. O fox em clima de big-band de Getúlio Macedo, “A Canção do Inverno”. O bolero de Floriano Faissal e Bruno Marnet, “Desencanto” traz belo naipe de metais, e finalmente o LP encerra com o grande destaque já citado: “Amor Sem Adeus”.

Luiz Cláudio lançado em 1959, pela RCA Victor [catálogo BBL 1065] é um dos muitos discos antológicos que foram lançados naquele último ano da década, como que abrindo espaço para as novas sonoridades que seriam absorvidas pela música popular brasileira a partir daí.

Luiz Cláudio 1959 Luiz Cláudio [RCA Victor BBL 1065]

01 Noite de Ficar Sozinho [Luiz Cláudio]
02 Menina Feia [Oscar Castro Neves, Luvercy Fiorinni]
03 Meu Anjo Azul [My Blue Angel] [Glenn Stuart, versão Fred Jorge]
04 História [Luiz Cláudio, Fernando César]
05 Carinho e Amor [Tito Madi]
06 Eu, Você e o Luar [Hilário Alves, Celso Garcia]
07 Oração de Amor [Arcenio de Carvalho, Lourival Faissal]
08 Só Deus [Evaldo Gouveia, Jair Amorim]
09 Vou Fazer Um Samba [Evaldo Gouveia, Almeida Rêgo]
10 Canção do Inverno [Getúlio Macedo]
11 Desencanto [Floriano Faissal, Bruno Marnet]
12 Amor Sem Adeus [Luiz Bonfá, Antônio Carlos Jobim]

Orquestra regida pelo Maestro Zaccarias
sob Arranjos de Nelsinho, Carioca, e de Luiz Cláudio

22/01/08

Cantos de Aves do Brasil 1961 [Sabiá SCLP 10502]

Atravessando os movimentos da natureza, a primeira música a ser produzida no Brasil ressoava nos harmônicos impressionantes do canto dos nossos pássaros. A maior diversidade de espécies vegetais e animais sobre o planeta, produz sonoridades que assombram e nos levam a refletir sobre a grandiosidade da força maior que move este mundo, da qual nós seres conscientes temos nada mais do que dever de assegurar a sua continuidade.

No final dos anos 50, o engenheiro brasileiro Johan Dalgas Frisch, filho do ornitólogo e desenhista de aves Svend Frisch, partiu para regiões selvagens do interior do Brasil para se tornar um dos pioneiros em gravações desse gênero em todo o mundo. Registrando com equipamentos modestos os sons produzidos pelos animais da floresta, especialmente os pássaros, a sua grande paixão.

No início dos anos 60, a gravadora Copacabana criou o selo Sabiá especialmente para lançar estas gravações, que despertaram grande interesse, mesmo fora do país. Sendo que este é o primeiro volume de um total de quase 20 discos. “Cantos de Aves do Brasil”, teve grande sucesso comercial e se tornou um dos clássicos da discografia brasileira.

Conforme o padrão usado na época para gravações “educativas”, a narração feita por Oswaldo Calfat, pode soar datada, mas registra de maneira competente toda a intenção do autor, com roteiro de Martin Bueno de Mesquita, em nos levar a uma viagem sonora através das matas brasileiras. Há cantos impressionantes como os emitidos pelos Tucanos, hipnóticos como os do pequeno Saci, ou em escala cromática como os da Tovaca. Há também sons igualmente impressionantes de insetos, Rãs e Cigarras.

“Cantos de Aves do Brasil” nos alerta hoje do quanto estamos afastados da nossa própria natureza. A maior parte dos sons registrados aqui, não são mais ouvidos pela maioria das pessoas nas grandes cidades. Como disse no alto de sua sabedoria um pescador de mais de 80 anos nativo da Barra da Lagoa, aqui em Florianópolis: “que tristezas estarão reservadas ao homem no dia em que ele não mais escutar o canto dos passarinhos...”

Cantos de Aves do Brasil 1961 [Sabiá SCLP 10502]

Vozes da Amazônia 1964 [Sabiá SBLP 40375]

Vozes da Amazônia 1964 [Sabiá SBLP 40375]

“Vozes da Amazônia” faz parte da série lançada pela gravadora Copacabana, com o selo Sabiá, iniciada após o sucesso de “Cantos de Aves do Brasil”. Desta vez Johan Dalgas Frisch recria a expedição do explorador espanhol Don Francisco de Orellana, que em 1542 seguiu o curso do rio Maranhão até seu encontro com o mar. A narração ao romancear os fatos acompanhando a expedição, prejudica um pouco a audição, o foco deveria ter permanecido na fauna como no primeiro disco. Mas estão aqui os sons de diversos animais, não apenas de aves. Com destaque para o impressionante canto hipnótico do Uirapurú, gravado aqui pela primeira vez. Segundo uma lenda amazônica o canto do Uirapurú, que segundo dizem ocorre apenas uma vez por ano, tem a propriedade de trazer felicidade a quem quer que o escute. Fica aqui nosso desejo de felicidade a todos os amigos neste ano de 2008 que inicia!

22/12/07

Natal no Brasil Volume 2 [BRLP 102]

Com o segundo volume da coletânea “Natal no Brasil”, o Bossa-Brasileira se despede das atividades neste ano de 2007. Desejamos a todos os amigos um Feliz Natal e um ano novo com muita paz, muito amor e muita música para todos nós.

O lado mais nostálgico e contemplativo do Natal Brasileiro aparece neste segundo volume. A favela, a solidão das cidades, o sertão, a infância... São faixas que resgatam a memória afetiva do Natal no Brasil, é o momento em que a festa cede espaço para a reflexão, reforçando o significado religioso da celebração universal que tomou moldes únicos na cultura brasileira. Estão presentes as vozes de Ângela Maria, Francisco Alves, Carlos Galhardo, Orlando Silva, Dalva de Andrade, Paraguassú, Ivon Curi, João Dias, Gastão Formenti, Inezita Barroso; além das vozes de duos como Tonico e Tinoco, Alvarenga e Ranchinho, Laranjinha e Zequinha, Flauzinho e Florêncio, Duo Brasil Moreno, Irmãs Maria, mais os conjuntos do guitarrista Poly, do Maestro Radamés Gnattali e outros. Entre os compositores estão nomes como os de David Nasser, Francisco Alves, Lamartine Babo, Mário Albanese, Paraguassú entre muitos outros. É um convite a relembrarmos de uma época em que o Natal significava muito mais do que infelizmente significa hoje.

“Natal no Brasil” Volume 2 [BRLP 102]

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01 Ângela Maria “Outros Natais” [Cláudio Luiz] 1956
02 Francisco Alves “Cantiga de Natal do Brasil” [Násser, Martins, Francisco Alves] 1951
03 Paraguassú “Natal dos Caboclos” [Ariovaldo Pires, Paraguassú] 1938
04 Carlos Galhardo “Sonho de Natal” [Sanches de Andrade] 1941
05 Alvarenga & Ranchinho “Meu Presente” [Alvarenga e Ranchinho]
06 Flauzinho & Florêncio “Sinos de Natal” [Flauzinho, Florêncio] 1939
07 João Dias “Jingle Bells” [Pierpont versão Evaldo Rui] 1951
08 Orlando Silva “A Valsa do Natal” [Hilton Gomes, Sivan] 1953
09 Laranjinha & Zequinha “Natal no Sertão” [Reinaldo Santos, Vicente Lia] 1953
10 Irmãs Maria “Nosso Natal” [Irmãs Maria]
11 João Dias “Fim de Ano” [Francisco Alves, David Nasser] 1951
12 Dalva de Andrade “Alegre Natal” [Nina Sercil] 1959
13 Tonico & Tinoco “Papai Noel” [Tonico e Tinoco] 1956
14 Inezita Barroso “Entrai Pastorinhas” [loa pastoril do sec XVIII] 1959
15 Poly & Côro “Estrela do Menino Pobre” [Mário Albanese, Gioia Jr] 1961
16 Gastão Formenti “Sonhos de Natal” [Henrique Vogeler, J. Menra, Lamartine Babo] 1929
17 Ângela Maria “Não Chore Linda Criança” [Guido Medina, Harry Marques] 1954
18 Ivon Curi “Quando Chega o Natal” [Sereno] 1957
19 Poly & Côro “Natal dos Caboclos” [Ariovaldo Pires, Paraguassú] 1961
20 Duo Brasil MorenoNoite Feliz” [Franz Gruber, versão Mário Zan] 1956
21 Trio Madrigal, Trio Melodia & Conjunto Radamés Gnattali “Cantigas de Natal parte 1”

Feliz Natal!

21/12/07

Natal no Brasil Volume 1 [BRLP 101]

O Bossa-Brasileira tem a felicidade de apresentar “Natal no Brasil”, uma coletânea em dois volumes apresentando a música brasileira do passado criada especialmente para a celebração do Natal. São 20 faixas neste primeiro volume com músicas registradas entre 1933 e 1956 por diversas casas gravadoras. O Brasil, nosso gigante tropical, não poderia apenas reeditar as canções natalinas em voga há muitos anos mundo afora. Criamos canções próprias, muitas vezes tão ou mais belas, e tão fortemente gravadas em nosso imaginário, quanto as “estrangeiras”. São as músicas do Natal Brasileiro que esta coletânea resgata. O Natal que era [e ainda é] celebrado nas casas simples dos recantos pacatos dos sertões, nas cidades sopradas pelo vento salgado que vem do nosso mar, nas vilas e moradias cravadas nas serras e no manto escuro das mata fechadas. O “Natal no Brasil” é cantado em verso e melodia por nossas maiores vozes do passado: as vozes de Francisco Alves, Aurora Miranda, Carlos Galhardo, Orlando Silva, Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, Leny Eversong, Ângela Maria e João Dias, Carmen Miranda, Dick Farney, Alvarenga e Ranchinho, Blackout, Neide Fraga e Zelinha do Amaral. Os cantores tem acompanhamento especial de maestros e conjuntos como os de Radamés Gnattali, Maestro Fon-Fon, Maestro Severino Filho, os conjuntos Diabos do Céu, Trio Madrigal, Trio Melodia, Aloysio e seu Conjunto e outros infelizmente não creditados. Entre os compositores estão nomes como Ary Barroso, Herivelto Martins, Hervé Cordovil, Lina Pesce e David Nasser.

“Natal no Brasil” - Volume 1 [BRLP 101]

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01 Conjunto Radamés Gnattali “Introdução: Cantigas de Natal parte 2” [introdução]
02 Carlos Galhardo & Diabos do Céu “Boas Festas” [Assis Valente] 1933
03 Aurora Miranda “Natal Divino” [Milton Amaral] 1935
04 Leny Eversong “Prece de Natal” [Saccomani, Tedesco, Melo] 1956
05 Neide Fraga “Quando Chega o Natal” [Sereno]
06 Zelinha do Amaral “Presente de Natal” [Alvarenga, Ranchinho] 1936
07 Francisco Alves “Meu Natal” [Ary Barroso, Francisco Alves] 1934
08 Aurora Miranda “Sinos de Natal” [André Filho] 1934
09 Carmen Miranda “Dia de Natal” [Hervé Cordovil] 1935
10 Francisco Alves & Côro “Natal” [Herivelton Martins, Rogério Nascimento] 1945
11 Elizeth Cardoso “Cantiga de Natal” [Lina Pesce] 1956
12 Dick Farney “Feliz Natal” [Armando Cavalcanti, Klécius Caldas] 1949
13 Ângela Maria & João Dias “Papai Noel Esqueceu” [David Nasser, Herivelto Martins] 1956
14 Francisco Alves “Sinos de Natal” [Victor Simon, Wilson Roberto] 1951
15 Blackout “Natal das Crianças” [Blackout] 1956
16 Alvarenga & Ranchinho “Noite de Natal” [Alvarenga, Newton Teixeira] 1941
17 Orlando Silva “Noite de Natal” [Maugéri Neto, Maugéri Sobrinho] 1952
18 Carlos Galhardo “Feliz Natal” [Ghiaroni, Peterpan] 1950
19 Dalva de Oliveira & Roberto Inglez “Noite de Natal” [Franz Gruber, versão Mário Rossi]
20 Trio Madrigal, Trio Melodia & Conjunto Radamés Gnattali “Cantigas de Natal parte 2”

Feliz Natal!

18/12/07

Radamés Gnattali 1955 "Samba em 3 Andamentos" [Sinter SLP 1037]



“Há que falar também de um compositor novo, mal conhecido dos paulistas, o gaúcho Radamés Gnattali. Tem uma habilidade extraordinária para manejar o conjunto orquestral, que faz soar com riqueza e estranho brilho. É certo que “jazzifica” um pouco demais para o meu gosto defensivamente nacional, mas apesar de sua mocidade, já domina a orquestra como raros entre nós. É a nossa maior promessa do momento.” Este texto foi publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo, em 12 de fevereiro de 1939. Seu autor foi o escritor, poeta, compositor e musicólogo Mário de Andrade. Mais que profético, Mário foi incisivo: “é a nossa maior promessa.” E foi. Tanto que passados quase 70 anos a afirmação resiste: em toda a longa trajetória de músico brasileiro, Radamés Gnattali justamente teve habilidades extraordinárias, dominou sua arte como poucos, sim “jazzificou” também, mas criou música brasileira de grande riqueza e estranho brilho.

Este disco em 10 polegadas foi lançado pela gravadora Sinter em 1955, traz o seu piano e uma partitura ousada: na bela capa assinada por Bréves há uma inscrição que diz: “a história musical do samba”. O disco foi lançado quando Radamés já era grande nome no cenário artístico brasileiro. Na contracapa Paulo Santos escreve: “O Samba em Três Andamentos consta de três peças sem ligação entre si ... porém podem ser usadas sem interrupção, como uma suíte de caráter popular, ou isoladamente pois cada andamento é em si uma peça autônoma. Não houve preocupação de fazer algo diferente ou erudito. Apenas apresentou o piano tal como se executa hoje em dia...” Como se executará amanhã, seria mais apropriado.

Radamés reservou para esta gravação o direito de apenas tocar o piano, a partitura orquestral escrita por ele ficou a cargo de Lyrio Panicalli e foi curiosamente composta sem a adição de instrumentos de sopro, apenas cordas, piano e percussão - a cargo do mestre Luciano Perrone. Em “Samba em Três Andamentos” Radamés Gnattali sintetiza talvez pela primeira vez, a possibilidade de se sofisticar o samba sem alterar a sua essência. O resultado é o samba moderno, o mesmo que desafiou Vinicius de Moraes, seduziu Antônio Carlos Jobim e pasmou Egberto Gismonti. O dedilhado inusitado e preciso antecipa em anos luz, a música brasileira posterior e a atual.

Este disco é também um dos raros registros do Maestro Radamés Gnattali tocando solo ao piano em todo o lado B - o lado A é ocupado pela suíte-título. Nas cinco peças para piano solo, Radamés está à vontade em choros, valsas e um samba-canção. Ainda que despidas do acompanhamento orquestral do “Samba em Três Movimentos” estas são também peças de música mágica que espelham o retrato preciso do que o Maestro batizou de história musical do samba. E que bela lição!

o Maestro em fotografia de 1934

Radamés Gnattali 1955 "Samba em 3 Andamentos" [Sinter SLP 1037]

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01 Samba em 3 Andamentos 1º Movimento Samba de Morro [Gnattali]
02 Samba em 3 Andamentos 2º Movimento Samba-canção [Gnattali]
03 Samba em 3 Andamentos 3º Movimento Samba Batucada [Gnattali]

Radamés Gnattali: piano
Luciano Perrone: bateria e ritmo
Orquestra de Cordas dirigida pelo maestro Lyrio Panicalli


04 Canhoto [Gnattali] choro
05 Vaidosa [Gnattali] valsa
06 Noturno [Gnattali] samba-canção
07 Perfumosa [Gnattali] valsa
08 Porque [Gnattali] choro

Radamés Gnattali: piano

Outras informações sobre Radamés Gnattali podem ser encontradas no excelente website:

http://www.radamesgnattali.com.br/

Radamés Gnattali em fotografia de 1940.

07/11/07

"Os Duetos de Francisco Alves e Mário Reis" 1930 - 1932 Odeon [MODB 3075]


Já foi dito que o Brasil é um país de cantores. Olhando para trás, no caleidoscópio histórico dos grandes ídolos da voz, temos a confirmação. A introdução do rádio e sua grande influência na vida das pessoas tornaram possível o surgimento de fenômenos de popularidade em massa - alguns deles com a aura de “vozes de ouro” do rádio. Eram tempos em que a produção podia ser permeada pela qualidade artística do que se ouvida nos aparelhos. Nenhuma destas vozes porém teve o mesmo efeito no coração brasileiro como a voz , digamos, fenomenal de Francisco Alves. Ele foi o primeiro grande ídolo do rádio e do disco, esteve presente na formação do teatro e do cinema por aqui. Sem intenção, criou uma escola de influência direta em todo o desenvolvimento da música brasileira. Foi um artista de ouvido apurado, afinação e timbres perfeitos e de bom gosto impecável. Compositor importante, ao lado das boas histórias de que “inventava” parcerias, ou mesmo as comprava, há também provas que ele realmente chegou a alterar tempos, compassos e corrigir as composições de seu agrado sem pedir participação na edição. Há também histórias envolvendo sua relação por vezes autoritária com seus “colaboradores”, como os amigos e companheiros de boemia Noel Rosa e Ismael Silva. Menino pobre, Francisco Alves foi engraxate, cresceu trabalhando em uma fábrica de chapéus, convivendo com boêmios e sambistas. Não assinava contratos, preferindo empenhar a palavra, era admirado por todos os seus colegas de profissão e ganhou o apelido de “Chico Viola, o Rei da Voz”.

Mesmo tendo iniciado a trajetória artística um tanto depois, foi Mário Reis quem primeiro colocou a cadência necessária ao samba, mais tarde absorvida por Chico. No texto de contra capa deste disco, Lúcio Rangel afirma: “apesar de mais novo em idade e em arte, foi Mário Reis quem exerceu influencia sobre a maneira de cantar de seu companheiro mais velho, como aliás, sobre todos os cantores da época, que moderaram os seus impulsos para o bel canto e passaram a pronunciar as palavras, interpretando dentro do ritmo exigido.” Levado pelo compositor Sinhô aos estúdios, Mário Reis teve também grande sucesso e deixou gravações históricas.

A gravadora Odeon valendo-se da amizade entre seus maiores cantores, lançou uma série de discos em 78 rotações com eles cantando em dueto. Era o início dos anos 30 e o resultado foi pouco mais de 11 discos antológicos. Além das duas vozes distintas que interagem entre si criando efeitos inesperados, a música que as acompanha não é menos sublime. Segundo Lúcio Rangel, os conjuntos “eram todos eles constituídos pelos mesmos músicos, alguns dos melhores da época: o pistonista Djalma, o trombonista Ismerino Cardoso, o pianista Romualdo Peixoto [Nonô], o baterista Walfrido Silva, o violonista Arthur Nascimento [Tute] e Luperce Miranda, mestre do cavaquinho e do bandolin. Outros instrumentistas estão presentes mas os que enumeramos eram constantes em todos os conjuntos que acompanhavam a dupla. O discófilo de ouvido apurado poderá reconhecer no côro, em diversos números, as vozes de Noel Rosa, Ismael Silva e Nilton Bastos.” Incrível... Logo após as primeiras gravações da dupla, um conjunto chamado “Ases do Samba” foi criado pelos dois cantores mais Lamartine Babo. Com este grupo, sem Lamartine, porém com Nonô, Noel Rosa e o bandolinista Peri Cunha, partiram em Março de 32 para uma excursão ao sul do país, se apresentando com grande êxito em Curitiba, Porto Alegre, e até mesmo em Florianópolis.

Este disco de 10 polegadas, lançado em 1955, reúne algumas destas gravações. Sambas e marchas eternos como “Formosa” de Nássara e J. Ruy, “Se Você Jurar” de Francisco Alves, Ismael Silva e Nilton Bastos e “Fita Amarela” de Noel Rosa. Sambas que foram famosos na época, como “Estamos Esperando” de Noel Rosa, “Mas Como... Outra Vez?” de Noel em parceria com Francisco Alves, num belo arranjo que começa como marcha e termina como um fox irado; e minha favorita “Tudo Que Você Diz” uma bela e moderna melodia de Noel Rosa, ainda mais realçada pelas vozes de Mário Reis e Francisco Alves. Há ainda “Marchinha do Amor” de Lamartine Babo e mais dois sambas do trio Francisco Alves, Ismael Silva e Nilton Bastos: “Não Há” e “Arrependido”. É uma grande alegria disponibilizarmos este disco, como escreveu Lúcio Rangel: Francisco Alves e Mário Reis, a maior dupla de cantores da nossa música popular, anos depois de gravarem seus históricos discos, continuam a despertar a mesma emoção, a mesma alegria, tal encanto de suas interpretações, tal beleza que sabiam imprimir aos números que, em boa hora, registraram para a posteridade.”

Os Duetos de Francisco Alves e Mário Reis
1955 Odeon [MODB 3075]

01 Marchinha do Amor [Lamartine Babo] marcha 1931
02 Fita Amarela [Noel Rosa] samba 1932
03 Formosa [Nássara, J. Ruy] marcha 1932
04 Se Você Jurar [Francisco Alves, Ismael Silva, Nilton Bastos] samba 1930
05 Mas Como... Outra Vez? [Francisco Alves, Noel Rosa] marcha 1932
06 Arrependido [Francisco Alves, Ismael Silva, Nilton Bastos] samba 1931
07 Estamos Esperando [Noel Rosa] samba 1932
08 Tudo Que Você Diz [Noel Rosa] samba 1932
09 Não Há [Francisco Alves, Ismael Silva, Nilton Bastos] samba 1930

31/10/07

Araci de Almeida 1951 "Noel Rosa" [Continental Volume 2]

Com este álbum bastante especial, marcamos a volta das atividades em nosso site, agora em novo visual. O motivo é simples: este é um dos primeiro álbuns produzidos no Brasil. Trata-se do segundo volume de um álbum que trazia três discos de 78 rpms [os dois volumes totalizam seis discos] encadernados com capas duras como num álbum de fotografias, daí a origem do uso desta palavra para descrevê-los.

“Noel Rosa” foi lançado no início de 1951, seguindo uma tendência do mercado norte-americano, que vinha organizando os discos de 78 rpms em coleções encadernadas já há alguns anos. No Brasil, as pioneiras a lançarem estes álbuns foram a representante nacional da gravadora Capitol e a Continental. Entre 1950 e 1951 a Continental lançou três destes álbuns, os dois volumes de “Noel Rosa” na voz de Araci de Almeida e um outro com músicas do compositor Sinhô na voz do cantor Mário Reis. Estes foram os primeiros lançamentos fonográficos no Brasil a ganharem capas coloridas e textos informativos, elementos que mais tarde caracterizariam os long-playings. Os dois volumes de “Noel Rosa” trazem na capa uma belíssima gravura colorida feita por Di Cavalcanti especialmente para este lançamento, um assombro de criatividade que se fazia presente naqueles anos, como valorização da cultura nacional.

Além da bela embalagem, o segundo volume de “Noel Rosa” na voz de Araci de Almeida, coloca novamente a cantora ao lado da orquestra de Radamés Gnattali para mais seis regravações de sambas consagrados de Noel Rosa. Há um longo texto sobre o sambista da Vila Isabel de autoria de Lúcio Rangel, além de sua auto caricatura. Sobre Araci o texto ficou à cargo de Fernando Lobo, com caricatura de Augusto Rodrigues datada de 1947. E claro, há a música, os clássicos como “Feitio de Oração”, “Silêncio de Um Minuto”, “Pra Que Mentir”, “Três Apitos”, “Com que Roupa” e “O Orvalho Vem Caindo”, estas últimas em arranjos animados com participação vocal e instrumental dos trios Madrigal e Melodia. Contrastando com os sambas-canção doloridos que ganham dimensão na interpretação consagrada da “Dama do Encantado”. Os arranjos oscilam entre a tímidamente entre as orquestrações originais e a inovação. Não há música ou passagem que se destaque em um disco perfeito, mas ouso opinar que aqui está a mais bela gravação de “Feitio de Oração”. Segundo Noel Rosa, Uma Biografia de João Máximo e Carlos Didier [Editora da UNB, 1990], “Três Apitos” ainda era inédita em discos e “Silêncio de Um Minuto”, seria gravada pela primeira vez com a letra completa - a gravação anterior foi feita em 1940 pela grande cantora Marília Batista, tão importante para a obra de Noel quanto Araci, e que estará sendo revisitada em futuros posts por aqui.

Para ir além, o primeiro volume deste álbum histórico foi postado alguns meses atrás pelo site loronix, e pode ser baixado aqui. Nele estão as faixas “Palpite Infeliz”, “Conversa de Botequim”, “Feitiço da Vila”, “Último Desejo”, “Não Tem Tradução” e “O X do Problema” Fica a indicação e o nosso agradecimento.


Araci de Almeida ao lado do avião produzido em homenagem a Noel em foto de José Medeiros, 1949; abaixo auto caricatura do sambista.


Araci de Almeida “Noel Rosa” Volume 2
1951 Continental

caricatura de Aracy feita por Augusto Rodrigues em 1947.


01 Pra Que Mentir [Noel Rosa, Vadico] samba-canção 78 rpm 16391 A
02 Silêncio de Um Minuto [Noel Rosa] samba-canção 78 rpm 16391 B
03 Feitio de Oração [Noel Rosa, Vadico] samba 78 rpm 16392 A
04 Três Apitos [Noel Rosa] samba-canção 78 rpm 16392 B
05 Com Que Roupa [Noel Rosa] samba 78 rpm 16393 A
06 O Orvalho Vem Caindo [Noel Rosa, Kid Pepe] samba 78 rpm 16393 B

abaixo Aracy é beijada por Ary Barroso nos estúdios da Rádio Tupi, ao fundo Carlos Galhardo.

Margarida Lopes de Almeida 1955 "Recital" [Festa LPI 1004]


Na década de 1950 era comum o lançamento de discos com recitais de poesia no Brasil. Alguns destes LPs se tornaram grandes sucessos de vendas, como o “Bilac em Hi-Fi” da gravadora Musidisc, lançado em 1957, com o rádio-ator Floriano Faissal declamando Olavo Bilac, que chegou a estar no topo das paradas, segundo revistas da época. À exemplo da Musidisc, a Odeon e a RGE também colocaram na praça discos explorando este mercado. No entanto, nenhum outro selo foi tão radical quanto o pequeno Festa, fundado pelo jornalista, sonhador e boêmio, Irineu Garcia.

O selo Festa formou um catálogo tão impressionante quanto numeroso, com registros históricos das vozes e da obra de autores como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Vinicius de Moraes, Cecília Meirelles, Guilherme de Almeida, Olegário Mariano, Menotti Del Picchia, Jorge Amado, Pablo Neruda... A lista é longa. Além dos próprios autores declamando seus poemas, os discos da gravadora Festa também destacavam atores conhecidos como Margarida Lopes de Almeida, Paulo Autran e outros. Um LP lançado por João Villaret, ator muito famoso na época, se destacou entre as vendagens do selo e fez enorme sucesso. O que talvez tenha incentivado Irineu a expandir sua gravadora e se aproximar da música. Seguindo o alto padrão de qualidade que buscava para seus discos, editou obras eruditas brasileiras e aos poucos foi se enamorando da música popular.

Conta o amigo Dorival Caymmi que: “o Irineu [Garcia] fazia aquilo por paixão, procurando artistas novos pela noite...” Apaixonado e convivendo com o meio desde os anos 40, Irineu não tardou a perceber que a produção musical no Brasil de sua época era algo de genial. “O interesse dele voltou-se para Elizete Cardoso, mas aí João Gilberto nem era conhecido ainda...” - continua Dorival. No entanto, através de Vinicius de Moraes, Irineu Garcia colocou pela primeira vez em um mesmo estúdio Antônio Carlos Jobim, João Gilberto e Elizeth Cardoso para registrarem “Canção do Amor Demais” [1958 Festa LDV 6002], disco considerado divisor de águas na história da nossa música.

O selo Festa ainda editou dois LPs fantásticos da cantora Lenita Bruno, ao lado da orquestra de seu marido, o grande maestro e pianista Leo Peracchi, e entre outros, colocou na praça discos de artistas fundamentais como Radamés Gnattali, Vadico e Nicolino Cópia.

Aqui temos Margarida Lopes de Almeida, atriz e declamadora, filha do casal de escritores Júlia Lopes de Almeida e Filinto de Almeida - estão entre os fundadores da Academia Brasileira de Letras -, interpretando poemas brasileiros com as inflexões vocais típicas da época, em dois “estilos” diferentes. No lado A: poesia digamos mais “tradicional”, representada por nomes do passado como Martins Fontes - na lúgubre e fantástica descrição da cidade de São Paulo em “Serenata”, e Olavo Bilac - com o famoso “Via Láctea”: “...amai para entendê-las, pois só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e entender estrelas.” No mesmo “espírito” estão Raul Machado, Afonso Lopes de Almeida [irmão de Margarida] e Artur de Sales - em “A Música dos Bilros” foram incluídos ruídos típicos destes pequenos instrumentos de madeira usados pelas rendeiras, em uma tradição secular que perdura do Brasil colônia e ainda pode ser encontrada em comunidades mais ou menos isoladas, distribuídas pelo nordeste e especialmente na Ilha de Santa Catarina, na cidade de Florianópolis.

Já o lado B é preenchido por uma poesia um bocado mais “moderna”: com Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, Guilherme de Almeida e Manuel Bandeira. “Há nos versos qualquer coisa que vai diretamente à emoção do ouvinte; este não tem tempo de ligar idéias, perceber intenções, as quais só na leitura pode com vagar apreender. A poesia ouvida tem de ser sentida imediatamente; é necessário que o poema impressione, seja pelo efeito da voz, seja pela possibilidade de efeitos plásticos que o intérprete ponha em jogo na representação”. Escreveu a artista Margarida Lopes de Almeida na contra capa deste pequeno LP em 10 polegadas lançado pelo extraordinário selo Festa em 1955, selo criado pelo sonhador Irineu Garcia que se preocupava até mesmo em creditar os artistas que faziam suas capas, nomes como Lígia Clark, Di Cavalcanti..., aqui: Athos Bulcão, com fotografia de Hess.


Recital de Margarida Lopes de Almeida
1955 Festa [LPI 1004]


01 Via Láctea [Olavo Bilac]
02 Serenata [Martins Fontes]
03 Póstuma [Raul Machado]
04 Ciranda [Afonso Lopes de Almeida]
05 A Música dos Bilros [Artur de Sales]
06 Romance de Nossa Senhora da Ajuda [Cecília Meireles]
07 Passagem da Noite [Carlos Drummond de Andrade]
08 Canção Balet [Mário Quintana]
09 Velocidade [Guilherme de Almeida]
10 Os Sinos [Manuel Bandeira]

06/08/07

Stellinha Egg 1956 "Músicas do Nosso Brasil" [RCA Victor BLP 3022]

Ao lado de Inezita Barroso e Délora Bueno, Stellinha Egg se dedicou ao universo da música folclórica e chegou a ser reconhecida como principal intérprete do estilo. Nasceu em Curitiba e se destacou no rádio em São Paulo. Em 1945 casou-se com o genial maestro Lindolfo Gaya, que passou a arranjar seus discos, numa união também musical. Ao voltar de uma temporada no exterior, Stellinha ganhou um programa de TV dedicado à música folclórica do Brasil e do mundo. Gravou discos em produção luxuosa, um deles para crianças e lançou diversos clássicos do mestre Dorival Caymmi – alguns presentes aqui. Dorival, na época, declarou ser Stellinha a intérprete preferida de suas músicas.

“Músicas do Nosso Brasil” foi editado pela RCA Victor em 1956 em disco de 10 polegadas. As faixas haviam sido lançadas em diversos 78 rotações entre 1951 e 1954. São gravações antológicas de valor histórico e artístico incontestável. Canções, baiões, toadas e os chamados “batuques” - tudo em coesão impressionante, não parecendo tratar-se de uma coletânea. Ao vestir com tal exuberância algumas destas canções, Gaya não imaginou a dimensão histórica que o trabalho representaria. O disco é uma fusão entre música popular e elementos musicais das religiões afro-brasileiras. Algumas das músicas são adaptações de cantos e batuques apresentados de forma magnífica com orquestra e coral. O resultado chega a ser lisérgico como em “Recado à Yemanjá”, “O Vento” ou “A Lenda do Abaeté”.

Stellinha Egg tinha uma voz incomum, de brasilidade deliciosa. Em “Lamento Negro” [afro-samba muitos anos antes de Baden & Vinicius? Com certeza!] ela faz scats em yorubá, exalta “Xangô” e a certa altura parece estar “tomada”, isso enquanto a orquestra vira e revira do avesso as linhas de sopros e violinos escritos por Gaya em uma explosão de energia impressionante. Já “A Lenda do Abaeté” é lírica, orquestra e cantora em sintonia perfeita: “O luar prateia tudo, coqueiral, areia e mar... Credo-cruz que esconjuro, quem falou no Abaeté?”. Que voz! Caymmi não se rendeu à toa... Do mesmo modo, as versões de “O Mar” e “O Vento” são talvez as mais belas já gravadas.

“Músicas do Nosso Brasil” de Stellinha Egg, arranjos de Gaya é uma obra-prima. Belo, divertido, intrigante e misterioso. E também histórico e fundamental. Como bônus, incluímos duas faixas presentes nos 78 rpms que originaram o LP, mas não entraram na edição final: “Noite de Temporal” e “Nunca Mais” ambas de autoria de Dorival Caymmi. Ganhamos este presente do amigo Simon Boutman que editava o blog microgrooves que infelizmente não existe mais, uma verdadeira esta jóia! Nosso imenso obrigado.

acima: Stellinha no estúdio da TV Rio, em seu programa semanal.

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Stellinha Egg 1956 “Músicas do Nosso Brasil”
RCA Victor [BPL 3022]

01 Luar do Sertão [Catulo da P. Cearense, J. Pernambuco] canção 1952
02 Prenda Minha [Tradicional, adpt. Stellinha Egg] baião 1951
03 Recado à Yemanjá [Roskilde, Stellinha Egg] toada-baião 1954
04 O Vento [Dorival Caymmi] canção praieira 1953
05 Baião de Diamantina [H. de Almeida, R. Paes] baião 1953
06 Lamento Negro [Constantino Silva, H. Porto] macumba 1954
07 Lenda do Abaeté [Dorival Caymmi] batuque 1954
08 O Mar [Dorival Caymmi] canção 1953

09 Nunca Mais [Dorival Caymmi] samba-canção 1954
10 Noite de Temporal [Dorival Caymmi] batuque 1954

Arranjos para orquestra e coro do maestro Gaya.

05/08/07

Onilda Figueiredo 1957 "A Voz de Onilda Figueiredo" [Mocambo LP 10026]

Este LP de 10 polegadas da gravadora Mocambo é uma das jóias da discografia brasileira nos anos 50. Onilda Figueiredo era quase uma menina quando gravou o bolero “Nunca! Jamais!” em um disco de 78 rpm de 1956. Foi um estrondoso sucesso no país inteiro. A versão feita pelo maestro Nelson Ferreira para o bolero original em castelhano de Lalo Guerrero, foi incluída no repertório de Ângela Maria, Ivon Cury, Neusa Maria, Rosa Pardini, Zezé Gonzaga e outros. Entre 1956 e 1958 a faixa “Nunca! Jamais!” foi uma das músicas mais ouvidas no Brasil. Nenhuma destas gravações no entanto, teve o mesmo êxito que a original lançada por Onilda, fato que levou a Mocambo a editar um long-play completo com sua então estrela, Onilda Figueiredo.

Fundada em Recife por Adolfo Rozenblit e seu irmão, a Mocambo produziu um catálogo bastante expressivo. Nunca ameaçou a hegemonia das “grandes” fábricas, mas no auge de sua atuação [entre 56 e 59] a Mocambo teve filiais em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, lançou inúmeros discos nacionais, licenciou outras diversas gravações estrangeiras, e ainda pôde contar com a direção artística de ninguém menos que Ary Barroso.

Foi neste cenário que a Mocambo colocou nas lojas do país “A Voz de Onilda Figueiredo” em 1957: registro único desta cantora de voz doce, “rouquinha”, interpretação meiga e um sotaque incrível que só adicionou charme às suas gravações. Vale destacar o trabalho do maestro Nelson Ferreira, que resultou num colorido todo especial às faixas. Piano, naipe de cordas, trompete, sax, flautas e percussão marcada. O repertório é basicamente de boleros, mas é uma delícia e de uma elegância surpreendente. Há uma bela canção de Fernando César, “O Luar e Você” [em orquestração primorosa!] e um divertido “calypso” “Mamãe Quero Dançar” em versão de E. Rodrigo. Além de “Nunca! Jamais!” e do bolero “Se Deus Assim o Quis”, outro belo momento é “À Beira Mar”, versão em português para um grande sucesso de Bienevido Granda, com direito a introdução especial do maestro Nelson Ferreira.

“A Voz de Onilda Figueiredo” é um disco que soa muito bonito passados 50 anos de seu lançamento. É o retrato sonoro de uma época, o registro muito especial de uma grande cantora e merece seu espaço na discografia da boa música brasileira.

No escritório da Mocambo: Adolfo Rozenblit o dono, os jornalistas Ari Vasconcelos, Brício de Abreu e Ary Barroso o diretor.

Onilda Figueiredo 1956 “A Voz de Onilda Figueiredo”
Mocambo [LP 10026]

01 Nunca! Jamais! [L. Guerrero, vrs. Nelson Ferreira]
02 Se Deus Assim o Quis [L. Quintero, vrs. Nelson Ferreira]
03 Loucura [Nelson Ferreira]
04 O Luar e Você [Fernando César]
05 Mamãe Quero Dançar [Manning, Hoffman, vrs. Eduardo Rodrigo]
06 A Beira Mar [José Barros, vrs. Nelson Ferreira]
07 Loucura Passional [Nelson Navarro, vrs. Nelson Ferreira]
08 Tu Em Meus Braços [Margarida Menezes Figueiredo]

Arranjos para orquestra do maestro Nelson Ferreira.

24/04/07

Melodias Imortais com Pattápio Silva [BRLP 003]

Há exatos cem anos, falecia em Florianópolis, capital de Santa Catarina, um dos maiores músicos que o Brasil já teve. Pattápio Silva era seu nome. Viveu pouco, apenas 27 anos. A maior parte deles, dedicados à música.

Em seu tempo Pattápio, ou Patápio [os dois t's foram abolidos com os anos], foi considerado um fenômeno musical espantoso, e se tornou mestre de seus mestres. Mais do que virtuose em seu instrumento, a flauta, Pattápio provaria ser um artista extremamente sensível e inspirado, e também um compositor completo. Sua música possuía uma beleza misteriosa, a imprensa de seu tempo atestou: “gênio igual, não mais apareceria neste século”.

Por ocasião do centenário da morte do flautista, o jornal Diário Catarinense, em seu caderno de cultura, publicou uma bela reportagem escrita pelo jornalista Maurício Oliveira, detalhando a passagem de Pattápio Silva pela cidade. A matéria na íntegra pode ser lida aqui. Foram incluídas também, imagens raras pertencentes ao acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina.

O músico, em fotografia de Valério Vieira.

Pattápio Silva nasceu na vila de Itaocara, no Rio de Janeiro em 22 de Outubro de 1880. Sua família era simples, o pai barbeiro. O menino que aos 12 anos já trabalhava ao lado do pai, ganhava respeito e admiração dos colegas da pequena vila, tirando som de canudos de madeira ou bambus, com apenas 5 furos. Tocava no intervalo do trabalho e logo a barbearia se via lotada: “Aquêle pobre instrumento serviu para grande reclame, não só dos negociantes do tal artigo, que passou a ser vendido em grande escala a todos os meninos, como também, para demonstrar a grande vocação de Pattápio.” - escreveu seu irmão Cícero Menezes em curta biografia publicada em 1953.

“Com apenas 26 anos Patápio era um célebre concertista, condição que alcançara ao se destacar como aluno do curso de flauta do Instituto Nacional de Música, do Rio de Janeiro, a mais importante escola do gênero no país à época.” – escreve Maurício Oliveira. O jornalista descreve as circunstâncias de sua morte repentina, incluindo fatos pouco esclarecidos até hoje. Mas omite a informação de que os bens do músico [incluindo roupas, flautas e partituras] foram leiloados na capital Catarinense, para pagar uma dívida abusiva cobrada pelo dono do Hotel do Comércio – o prédio está em pé até hoje [foto abaixo] - relacionada a despesas com hospedagem e tratamento médico. Seu enterro na Capital Catarinense no entanto, teve honras de Estado e foi acompanhado por uma multidão comovida. A notícia abalou a pequena cidade que não chegou a ver o famoso músico se apresentar, e também chocou o país. Mais tarde seu padrasto conseguiu recuperar parte destes bens, pagar definitivamente a dívida e fazer o translado do despojos para o Rio de Janeiro.

Fachada do antigo Hotel do Comércio, centro de Florianópolis - hoje.

O gênio de Pattápio Silva ainda teve tempo de fazer as primeiras gravações de um instrumentista solo do país, para a Casa Edison, no selo Odeon. Deixou pouco mais que 15 músicas lançadas em discos de 78 rpms, gravadas a partir de 1904 até o ano de sua morte, 1907. Registro único da dimensão do que foi a sua arte. Pattápio sofreu por conseqüência de sua posição como músico excepcional. No ano de sua morte, estava magoado e sentia-se desiludido com a sociedade musical a que pertencia. Muito jovem ainda, mulato e de origem humilde, ele não era levado a sério pelos maestros e professores, até estes o ouvirem tocar. Foi ovacionado nos salões e banquetes elegantes, mas teve problemas financeiros por toda a vida. Dominou o seu instrumento, mas o julgava imperfeito, a flauta não lhe oferecia todos os recursos e queria mudá-la para que pudesse executar plenamente sua música. Pretendia visitar fábricas na Europa e assim, tentar aperfeiçoar o instrumento. Para bancar a viagem, iniciou uma turnê de excepcional sucesso por diversas cidades entre o Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, e finalmente Santa Catarina. Era o auge e o fim de sua curta, mas espantosa trajetória.

Selo do disco com a música "Só Para Moer" na Odeon.

O Bossa-Brasileira reuniu 12 gravações históricas de Pattápio Silva nesta coleção, todas realizadas para a Casa Edison. Composições para flauta e piano, algumas eruditas, outras populares, numa fusão estética que só um artista genial como Pattápio Silva poderia executar.

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Melodias Imortais com Pattápio Silva

01 Variações de Flauta [Pattápio Silva]
02 Serenata Oriental [Ernesto Kohln]
03 Noturno [Pattápio Silva]
04 Só Para Moer [Viriato Figueira da Silva]
05 Serenata d'Amore [Pattápio Silva]
06 Alvorada das Rosas [Júlio Reis]
07 Serenata [Gaetano Braga]
08 Primeiro Amor [Pattápio Silva]
09 Dueto Para Flauta e Violino [Pattápio Silva] com Serpa ao violino
10 O Sonho [Pattápio Silva]
11 Serenata de Schubert [Franz Schubert]
12 Margarida [Pattápio Silva]

Bossa-Brasileira BRLP 003, gravações realizadas entre 1904 e 1907

Compilado e masterizado por Thiago Mello por ocasião do centenário da morte de Pattápio Silva - Florianópolis em 24 de Abril de 2007. Esta compilação não pode ser comercializada, é um presente do site Bossa-Brasileira.

Foto rara de Pattápio, encontrada no Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina.

15/02/07

Carnaval em Bossa

A coletânea Carnaval em Bossa [BRLP 002], parte da coleção Bossa-Brasileira, foi reeditada em Novembro de 2008 e pode ser baixada aqui. Abaixo, texto da postagem original:

“Através da música, o Carnaval do passado pode ser revisto. Algumas das marchas e sambas carnavalescos que se tornaram célebres - na verdade a sua grande maioria - não atravessaram o tempo. É uma produção que ainda está a ser descoberta. O blog Bossa-Brasileira produziu uma coletânea, com exemplos deste rico painel musical, também uma indicação de pesquisa. Aqui, apenas um singelo exemplo, um pequeno painel do que de melhor foi gravado em música de Carnaval no Brasil. São em sua maioria marchinhas, alegres ou melancólicas e alguns sambas. Todos representantes legítimos do som que se fazia e se ouvia no Carnaval Brasileiro de outras épocas...”

17/01/07

Maysa no "Arquivo N" da Globo News

É com felicidade que anunciamos o especial Arquivo N da TV Globo News que focalizou nossa querida Maysa. A raridade das imagens nem se comenta, o segmento dela cantando em 1960 no Japão [primeira artista de nosso país a se apresentar por lá] é antológico, próximo do que fazia em seus programas de TV semanais no final dos anos 50. É possível através de 22 minutos fazer uma grande viagem e mergulhar na arte de nossa maior estrela. Embarquem nessa onda com Maysa.

* 14.11.07 update - infelizmente a Globo News retirou o especial do ar, esperamos que ele seja disponibilizado novamente via youtube.com. Enquanto não é, nossa filial, Bossa-Filmes possui diversos vídeos da Maysa para o seu deleite AQUI.

16/01/07

Publicidade Brasileira das Décadas de 30 & 40 - I

Olá pessoal, o Bossa-Brasileira deseja um feliz 2007 à todos! Entramos no ano novo trazendo um pouco da publicidade de épocas passadas feita no Brasil. Na verdade, queremos anunciar que nossa modesta assinatura mudou, e como reflexo desta nova era que entramos, o espaço aqui também está diferente. Nosso trabalho cresceu e atingiu novos campos, muito obrigado à todos...

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Neurobiol, o Tônico do Cerebro já anunciava em 1936 na contra-capa da revista Eu Sei Tudo que o século XX trouxera além dos avanços materiais, novos problemas para a humanidade. Assim, novos remédios para os tais males surgiam, muitas vezes por meio de velhas fórmulas já há muito tempo conhecidas. “No turbilhão da vida moderna, a victoria cabe aos cerebros fortes!” Com exclamação e tudo. A imagem produzida à mão e em cores, assinada por F. Tarquino, possui todos os elementos que caracterizaram a revolução industrial daquele século.

Publicidade assinada por Annibal para a Cia. de Cigarros Souza Cruz, publicada na revista Eu Sei Tudo, edição de Abril de 1942. O artista obteve um belo - e por que não dizer - moderno efeito com a imagem chapada do fumante surgindo da sombra do maço de cigarros.

Na mesma edição da revista Eu Sei Tudo de 1942, havia também este belo exemplo de publicidade genuínamente brasileira. O “xarope para senhoras” Ovariuteran ganhou anúncio de página inteira com imagem “fotográfica”, lettering e reprodução da embalagem, tudo feito a mão e assinado por Sacha, Rio de Janeiro.

Na edição de Agosto de 1936 da revista Eu Sei Tudo, este anúncio de sabonetes já usava uma composição totalmente moderna, estilo usado na publicidade até os dias de hoje. Fotografia, desenho e lettering, com adição de textos informativos em diferentes “tipos”. “...Para a mulher moderna a beleza não termina nos ombros! Ela conserva a pele de todo o seu corpo suave e juvenil com Palmolive, diz a Sta. Madeleine Rosay, primeira bailarina do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.” A empresa responsável pelo anúncio [talvez a própria revista] e a bailarina Madeleine Rosay sem saber, protagonizaram uma das primeiras associações que se fez entre o mundo das artes e o da publicidade em nosso país. O “recurso”, importado de modelos estrangeiros, se torna bastante popular um pouco mais tarde, especialmente no final dos anos 40 e é matéria comum hoje em dia.

22/12/06

Natal no Brasil

Foto da capa disco Natal no Brasil coletânea do selo Copacabana lançada em 1956, que serviu de base e inspiração a coletânea de Natal do Bossa-Brasileira... - post original da coletânea “Natal no Brasil” que pode ser baixada em dois volmes aqui [vol. 1] e aqui [vol. 2].

19/11/06

Aniversário

Em Novembro o Bossa-Brasileira completa um ano. Primeiro blog brasileiro a trazer música Brasileira, o Bossa-Brasileira não tem pretensões de atingir grandes públicos, não quer fama, e muito menos colocamos ferramentas que possam nos trazer qualquer vantagem monetária. Acreditamos na Arte da mesma forma como acreditavam os artistas [há 50 anos atrás] que aqui são focalizados. Por isso mesmo assinamos com nosso nome verdadeiro e não com pseudônimos. E continuaremos assim. Um grande abraço à todos. Muito obrigado pela participação e apoio de todos vocês, este trabalho é dedicado aos fiéis amigos e à nossa equipe. Vocês sabem quem são...

14/10/06

Horacina Corrêa & Orquestra de Léo Peracchi 1954 Noel Rosa [Musidisc MV 005]

É com grande felicidade que apresentamos este raro LP de 10 polegadas, gravado em 1954 e lançado pela Musidisc, com sambas de Noel Rosa na interpretação da cantora Horacina Corrêa, e acompanhamento luxuoso da orquestra do maestro Léo Peracchi. Mulata gaúcha, Horacina iniciou a carreira de cantora inspirando-se em Carmen Miranda, atuando da década de 30 até o final dos anos 50. Participou de muitos filmes, incluindo sucessos como “O Cortiço” e “É Com Esse Que Eu Vou”. Se apresentou pela América Latina, sendo muito querida na Argentina. Este é possívelmente seu único long-playing, que aliás não consta nos registros disponíveis sobre a discografia de Léo Peracchi, nem na da cantora, até agora.

Noel Rosa teve a obra marcada pela estética absolutamente moderna para a música popular de sua época. Ainda hoje suas melodias e letras soam atuais e relevantes, sem contar o imenso valor musical. Sem pudores, Noel incluia gírias nas letras de seus sambas, expressões que ele próprio criava e era dono de uma profunda autocrítica. Conta a lenda que a palavra bossa associada à música, é criação dele.

Algumas de suas mais belas criações estão aqui: “Útimo Desejo”, “Feitio de Oração”, “Feitiço da Vila”, “Pra Que Mentir”, “O Orvalho Vem Caindo”, “De Babado”, “Até Amanhã” e “Silêncio de Um Minuto”. O som está próximo daquele que se extraía dos 78 rotações, mas o brilhantismo de Peracchi e de Horacina fazem deste, um dos melhores albuns gravados com a obra de Noel nos anos 50. Dos arranjos sofisticados, destacam-se o solo de oboé que acompanha a melodia em “Feitiço da Vila”, os sopros na introdução de “Silêncio de Um Minuto”, os metais em “De Babado”, o diálogo inusitado entre metais e cordas em “Feitio de Oração” ou a trama orquestral de “Último Desejo”, tudo com assinatura de Léo Peracchi. Brilhante, obra-prima... qualquer adjetivo aqui é pouco.
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1954 Musidisc [MV 005]



01 Até Amanhã [Noel Rosa]
02 Feitiço da Vila [Vadico, Noel Rosa]
03 Silêncio de Um Minuto [Noel Rosa]
04 Pra que Mentir [Noel Rosa, Vadico]
05 De Babado [Noel Rosa, João Mina]
06 Último Desejo [Noel Rosa]
07 Feitio de Oração [Noel Rosa]
08 O Orvalho Vem Caindo [Noel Rosa, Kid Pepe]

Arranjos e Regência do Maestro Léo Peracchi.

Poly, sua Guitarra Havaiana e Conjunto 1960 compacto-duplo [Chantecler C336056]

O maestro Poly [Angelo Apolonio] foi mestre na guitarra-havaiana, hoje também chamada de slide-guitar. O colorido inusitado que seu instrumento dá aos sambas e sambas-canção que executa, atinge seu auge entre 1956 e 1960. Época em que atua com seu Conjunto em incontáveis apresentações ao vivo, no rádio e em discos. Sua guitarra-havaiana ponteia diversas gravações clássicas da nossa canção acompanhando os mais os mais importantes artistas.
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Apresentamos aqui a sonoridade exótica do Poly e Seu Conjunto, neste compacto-duplo da gravadora Chantecler, gravado entre 1959 e 1960. As faixas saíram originalmente no disco “Ouvindo-Te” [1960 Chantecler CMG 2088] e são: “O Ébrio” grande sucesso de Vicente Celestino; “Favela” samba-canção dos compositores Roberto Martins e Waldemar Silva; “Perdão Emília” curiosamente creditada como de autoria de N. N.; e “Longe dos Olhos” de autoria de Christóvão de Alencar e Djalma Ferreira. Como bonus incluímos a belíssima seresta de Paraguassú, “Nunca Mais”, igualmente extraída do disco “Ouvindo-Te”. Tudo em perfeita alta-fidelidade sonora.
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[Chantecler C336056]
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01 O Ébrio [Vicente Celestino]
02 Favela [Roberto Martins, Waldemar Silva]
03 Perdão Emília [N. N.]
04 Longe dos Olhos [Christóvão de Alencar, Djalma Ferreira]
05 Nunca Mais [Paraguassú] [bonus]

10/10/06

Nora Ney 1953 [78 RPM Continental 16726]

A música “De Cigarro Em Cigarro” fez grande sucesso na voz quente de Nora Ney, cantora das mais importantes do período entre os anos 40 e 60. Composição de um Luiz Bonfá quase em início de carreira, a canção teve grande repercussão, talvez por conta de sua letra que retrata a desilusão amorosa de forma um tanto quanto “moderna" para a ocasião: “... outra noite esperei / outra noite sem fim / aumentou meu sofrer / de cigarro em cigarro / olhando a fumaça no ar se perder...” Para o registro, a gravadora Continental contou com a regência do maestro Nicolino Cópia, grande instrumentista de sopros, que gravou com todos os nomes importantes da música brasileira dos anos 30, chegando até os 60 onde abraçou a bossa nova.

Nora Ney [Iracema de Souza Ferreira, 1922 - 2003] cantou com sua voz marcante toda a angústia de seu tempo. Fez sucesso com sambas-canções, boleros e sambas sincopados. Foi uma das primeiras cantoras a gravar músicas de Antônio Carlos Jobim, antes mesmo deste ter conhecido Vinicius de Moraes. Atuou em filmes, gravou muitos 78 rpms e alguns LPs. Casou-se com o cantor Jorge Goulart, com quem viveu por quase 40 anos. Na época da ditadura militar, exilou-se do país por conta de sua ligação com o Partido Comunista Brasileiro. Seu canto forte em meio a uma voz “pequena” influenciou uma geração de cantoras posteriores como Maysa e Sylvia Telles, por exemplo. Sua interpretação única é registrada neste 78 rpm histórico: “De Cigarro em Cigarro” de Luiz Bonfá, seguida por “Onde Anda Você?” de Reinaldo Dias Leme e Antônio Maria, com arranjos e orquestra de Nicolino Cópia, gravado e lançado em 1953 pela gravadora Continental.
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01 De Cigarro em Cigarro [Luiz Bonfá] samba-canção
02 Onde Anda Você? [Antônio Maria, Reinaldo Dias Leme] samba-canção

08/10/06

Dalva de Andrade 1959 [78 RPM Polydor 305]



Neste 78 rotações da gravadora Polydor, Dalva de Andrade mostra seu registro para duas pérolas de nossa música, uma bastante conhecida, outra pouco: “Brigas Nunca Mais” de Antônio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes e “História” de Luiz Cláudio e Fernando César [que aparece também no disco do Luiz Cláudio postado aqui]. Os arranjos e direção de orquestra ficaram a cargo do maestro Peruzzi. É o nascimento da Bossa Nova, exatamente 1959. Cantora de muita classe, Dalva de Andrade já era veterana quando gravou estas faixas, porém ela só vai ganhar mais destaque quando passa a gravar na Odeon, no ano seguinte, 1960.

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01 Brigas Nunca Mais [Antônio Carlos Jobim, Vinicius de Moraes] samba
02 História [Luiz Cláudio, Fernando César] rumba-calypso

Helena de Lima 1956 "Dentro da Noite" [Continental LPP 38]

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Uma Deusa da Noite, assim era chamada a cantora de voz profunda e emocionada Helena de Lima. Iniciou profissionalmente nos anos 40, frequentando os habituais programas no rádio. Foi também crooner, atuando no famoso Copacabana Palace, ainda nesta mesma década. Alternou temporadas entre o Rio de Janeiro e São Paulo, sempre com muito sucesso. Em discos, acompanhou o conjunto de Djalma Ferreira, gravou diversos 78 rpms, e muitos LPs com orquestrações luxuosas na RGE. Admirada por Ary Barroso, foi também compositora, o samba-canção “Ausência” presente neste disco é de sua autoria em parceria com Maria Eugênia. Neste 10 polegadas [Continental LLP 38, de 1956], Helena de Lima teve a honra de registrar sua bela voz ao lado do pianista e compositor Ribamar, em uma sessão de estúdio intimista, no intuito de reproduzir suas apresentações ao vivo, numa atmosfera que remete ao cool-jazz. Ribamar foi um pianista lendário, acompanhou as maiores divas de nossa música, e se eternizou também como compositor, com suas parcerias com Dolores Duran. Além do piano, Helena é acompanhada por um baixo acústico e uma discreta percussão - músicos não creditados. Oito composições de nomes como Marino Pinto [assina quatro faixas e também o texto da contracapa], Vadico [parceiro de Noel Rosa], Mário Rossi, Paulo Soledade, o próprio Ribamar e finalmente - no grande destaque do disco, e que o dá uma importância histórica - a primeira gravação do clássico “Foi A Noite”, de Antônio Carlos Jobim e Newton Mendonça. Helena de Lima foi uma de nossas maiores cantoras, e este seu “Dentro da Noite” ao lado do grande Ribamar, é um dos melhores de seus LPs e também um álbum fantástico.
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Continental LPP 38
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01 Antigamente [Jarbas Melo, Vadico]
02 Abandonado [W. Barros, Esdras P. da Silva, Ribamar]
03 Renúncia [Marino Pinto]
04 Não Há de Que [Marino Pinto, M. Rossi, Helena de Lima]
05 Foi a Noite [Antônio C. Jobim, Newton Mendonça]
06 ... E Nada Mais [César Siqueira, Maria Rita]
07 Foi você [Marino Pinto, Paulo Soledade]
08 Revolta [Marino Pinto, Vadico]

03/09/06

Maysa Relançada

A Som Livre está colocando no mercado um CD que reedita os dois primeiros discos gravados por Maysa. São dois LPs em formato de 10 polegadas num único CD, o “Convite Para Ouvir Maysa” [RLP 013] de 1956 e “Maysa” [RLP 015] de 1957 lançados originalmente pela gravadora RGE. O primeiro LP contém apenas composições de Maysa, clássicos como “Tarde Triste”, “Adeus” e “Resposta”. O segundo LP trazia “Ouça”, grande sucesso também de sua autoria, além de clássicas como “Se Todos Fossem Iguais a Você” de Antônio Carlos Jobim & Vinicius de Moraes, “Franqueza” de Denis Brean & Oswaldo Guilherme, “To the Ends of the Earth” de J. Sherman e N. Sherman, “Un Jour Tu Verras” de Van Parys e Mouloudji, “O Que”, da própria Maysa mesmo e outras. São ao todo 16 faixas neste CD, um presentes aos fãs de Maysa, e da boa música.

27/08/06

Edith Veiga 1960 "Faz-Me Rir" [Chantecler C 33602]

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Este compacto-duplo traz a interpretação e a voz única de Edith Veiga, uma das muitas cantoras brasileiras que são hoje pouco lembradas. Nascida no interior de São Paulo, a tímida Edith Veiga fez muito barulho com esta canção “Faz-Me Rir”. Versão em português de Teixeira Filho para o bolero “Me Dá Risa” de F. Yoni e E. Arias, grande sucesso internacional que se repetiu no Brasil com esta versão de Edith. A música foi destaque e título de seu primeiro LP, lançado pela gravadora Chantecler em 1960, disco que contou com orquestrações e arranjos de nomes incríveis como Guerra-Peixe, Poly e Élcio Alvarez. Maestros estes, que também podem estar presentes neste raro compacto-duplo.
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Além de “Faz-Me Rir” há mais três canções que não fazem parte do primeiro disco de Edith Veiga, o bolero “Sòzinha” - composição de nuances primorosas assinada por Rago e Teixeira Filho; “Acho Graça”, um bolero de Arquimedes Messina e Jucata, e finalmente “Maldito” - grande destaque do disquinho, com um arranjo orquestral no mímino exótico e a voz de Edith deslizando na canção com propriedade - os compositores são os mestres do samba-canção Jair Amorim e Evaldo Gouveia.
Como bônus, incluímos mais uma canção gravada no mesmo ano por Edith Veiga, o sucesso “Conselho”, de Dênis Brean e Oswaldo Guilherme, gravado anteriomente por cantoras como Maysa, Morgana, Nora Ney e outras.
Edith Veiga apresenta “Faz-Me Rir”, presente exclusivo do Bossa-Brasileira aos amantes da boa música.




01 Faz-Me Rir [F. Yoni, E. Arias]
02 Sòzinha [Rago, Teixeira Filho]
03 Acho Graça [Arquimedes Messina, Jucata]
04 Maldito [Jair Amorim, Evaldo Gouveia]
05 Conselho [Denis Brean, Oswaldo Guilherme] [bônus]

20/08/06

O Bossa-Brasileira quer agradecer a visita de todos os amigos que desde o início, em Dezembro de 2005 estão acompanhando nossas postagens. Este blog é todo artesanal, o material encontrado aqui é exclusivo. Por tratarmos e digitalizarmos todo o material pessoalmente, não há postagens com frequência diária ou semanal, mesmo porque também possuímos outras ocupações. Também não apenas indicamos material já existente na internet, procuramos trazer informação e Cultura Brasileira à todos. Sempre para sermos o Bossa-Brasileira que os amigos conhecem e apreciam, uma filosofia de vida presente em tudo o que pode ser encontrado aqui.

15/07/06

Baden Powell & Vinicius de Moraes 1966 compacto-duplo [Forma FS 100.001]

Contra quaisquer más vibrações, nada mais eficaz que a velha sabedoria da nossa querida África. Vinicius de Moraes sabia disso e Baden Powell também. As meninas-cantoras do Quarteto em Cy, aprenderam com eles... Já o maestro Guerra-Peixe, não. Esse já sabia de tudo, desde o início.
Este raro compacto-duplo lançado pelo selo Forma em 1966, trazia quatro canções que haviam sido lançadas originalmente no lendário disco “Os Afro-Sambas” [Forma FM 16, 1966]. “Canto de Ossanha” é o clássico mais conhecido, sucesso absoluto nas melhores vozes da nossa canção, aqui está em seu estupendo arranjo original. “Tristeza e Solidão” é a pura melodia de Baden, talvez sua mais bela. Canto de Yemanjá” e Lamento de Exú” arrepiam a alma com sua força metafísica, para colocar tudo em seu devido lugar. Um pouco de lucidez, e dos originais dos “Afro-Sambas”, um dos discos mais importantes já gravados em nosso belo país.
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01 Canto de Ossanha [Baden Powell, Vinicius de Moraes]
02 Tristeza e Solidão [Baden Powell, Vinicius de Moraes]
03 Canto de Yemanjá [Baden Powell, Vinicius de Moraes]
04 Lamento de Exú [Baden Powell, Vinicius de Moraes]

13/07/06

Fafá Lemos & Sua Orquestra 1954 "Jantar No Rio" [RCA Victor BLK2]

Fafá Lemos [Rafael Lemos Júnior, *1921 - +2004] foi um dos grandes mestres da nossa música. Como compositor e solista de violino, foi responsável por popularizar o uso do instrumento como elemento solo na música popular. Se aventurou como cantor de voz bem colocada, baixinha e também é um dos grandes precursores da Bossa Nova. Fafá acompanhou Carmen Miranda em discos e turnês pelo mundo e também em diversos filmes, gravou com os violonistas Laurindo de Almeida e Luiz Bonfá, com a cantora Linda Batista e formou o lendário Trio Surdina, ao lado de Chiquinho [acordeon] e Garoto [violão], músicos também presentes no disco que apresentamos aqui.
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“Jantar No Rio” é um verdadeiro clássico, foi gravado nos Estados Unidos em 1954, entre Março e Abril, nos estúdios da RCA Victor em Hollywood. O LP passeia com leveza por sambas-canções, marchinhas, sincopados, toadas e até um baião. Aqui está uma das mais belas versões instrumentais já registradas de “Ninguém Me Ama” clássico de Antônio Maria e Fernando Lobo, onde o violino de Fafá ganha contornos orientais, como na música indiana e o violão de Garoto se aproxima da sonoridade do alaúde árabe. Outro grande destaque é “Na Baixa do Sapateiro”, do grande Ary Barroso, com assovios e um solo de violino simplesmente fantástico. “Madalena” de Ary Macedo e Ayrton Amorim é um convite à dança, com direito a um lindo diálogo entre o violino e um oboé. E “Risque”, das mais lindas entre as melodias de Ary Barroso, aqui ganha um arranjo fantástico. Há também “Copacabana”, de João de Barro e Alberto Ribeiro, obra-prima do cancioneiro nacional, onde novamente o oboé brinca com o violino de Fafá Lemos em fraseados incríveis. Esperamos que este álbum traga tanta felicidade à vocês, quanto trouxe a nós, na primeira vez que o ouvimos.
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RCA Victor BLK2

01 Aquarela do Brasil [Ary Barroso]
02 Nem eu [Dorival Caymmi]
03 Peguei um Itá no Norte [Dorival Caymmi]
04 Mamãe eu quero [Jararaca, Vicente Paiva]
05 Risque [Ary Barroso]
06 Madalena [Ary Macedo, Ayrton Amorim]
01 Na Baixa do Sapateiro [Ary Barroso]
02 Nós três [Fafá Lemos, Garoto, Chiquinho do Acordeon]
03 Gracioso [Fafá Lemos]
04 Ninguém Me Ama [Antônio Maria, Fernando Lobo]
05 Copacabana [João de Barro, Alberto Ribeiro]
06 Paraíba [Humberto Teixeira]

10/07/06

Maysa 1963 "Les Inconscients" [Barclay France Compact 70526]

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Maysa teve intensa carreira internacional e durante uma de suas temporadas na Europa, em 1963, ela registrou este compacto duplo com auxílio dos compositores Michel Magne e Eddy Marnay. No disco, é acompanhada por F. Aussman e orquestra, em quatro faixas inéditas no Brasil e nunca relançadas em nenhum formato. Um verdadeiro tesouro.
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Três das faixas são cantadas em francês: as belas “Fin Du Jour” e100.000 Chansons” ou “Cent Mille Chansons” [música que foi tema do filme “Le Repos du Guerrier”, no Brasil O Repouso do Guerreiro” de Roger Vadim, 1962] e a bossa “Les Inconscients”, com lindo trabalho de violão - músico não creditado. A única em português é “Chega de Saudade”, clássico da Bossa Nova de Antônio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, que Maysa nunca mais registraria, e aqui está em uma versão de arrepiar.
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Barclay France Compact 70526
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01 Les Inconscients [G Magenta, E Marnay]
02 Fin Du Jour [M Magne, E Marnay]
03 Cent Mille Chansons [M Magne, E Marnay]
04 Chega de Saudade [Vinicius de Moraes, Antônio Carlos Jobim]

06/06/06

Viva Maysa!!

Maysa estaria completando 70 anos de idade hoje, dia 06 de Junho de 2006, se estivesse viva. A personalidade marcante da cantora carioca, determinou sua produção musical arrojada e elegante. Mulher à frente de seu tempo, Maysa nos deixou uma obra de incontestável qualidade. Artista completa, muito mais que a cantora de fossa que se eternizou no imaginário popular, ela foi a compositora privilegiada. Como intérprete deu forma a mais uma infinidade de clássicos de nossa música popular. Como seus poetas e compositores prediletos, Maysa foi cronista de seu tempo, sua voz rouquinha de registro forte podia ser doce e delicada e mesmo profundamente emocional. Sua interpretação é única. A moldura musical para seu canto foi também exuberante, seja em ritmo de bossa nova, velha, samba-canção, jazz... Um dia confessou em uma entrevista “Não tenho medo da morte. Tenho a impressão de que jamais morrerei...” E assim é. Viva Maysa!

15/05/06

Nilo Sérgio & Sua Orquestra 1959 "Dançando Suavemente" [Musidisc XLP3]

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Em 1959 Nilo Sérgio lançou em sua gravadora, a Musidisc um LP diferente: clássicos modernos em um set sofisticado, porém os arranjos teriam que ficar a cargo do Maestro Carioca, seu primeiro mestre e incentivador musical. O resultado é “Dançando Suavemente” uma seleção primorosa de faixas entre o fox e o jazz, com a magia do teclado de Nilo, emoldurada pela orquestração multi-colorida do Maestro Carioca. “Blue Star”, “You do Something to Me”, “Speak Low”, “Fascination”, “Love Letters”, “Blue Moon” e outras fazem deste LP um clássico. A capa é do mestre Aldemir Martins, um grande artista visual brasileiro, falecido em 2005; fica aqui nossa homenagem. Meu muito obrigado também ao Simon Boutman por mandar 4 das faixas, que na minha cópia estavam em mal estado.
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Musidisc Hi-Fi XLP3
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01 Prefixo “Blue Star [the Medic Theme]” [Victor Young, Eduard Hayman]
02 You do Something for Me [Cole Porter]
03 Speak Low [Kurt Weil, O. Nash]
04 Linger Awhile [Vincent Rose, Harry Owens]
05 Blue Star [the Medic Theme] [Victor Young, Eduard Hayman]
06 Fascination [F. D. Marchetti]
07 Devaneio [Djalma Ferreira, Luiz Antônio]
08 Love Letters [Victor Young, Eduard Hayman]
09 Over the Rainbow [Harold Arlen, E. Y. Harburg]
10 Bongô Para Dois [Nilo Sérgio]
11 Blue Moon [Hart, Rodgers]
12 Sufixo “Blue Star [the Medic Theme]” [Victor Young, Eduard Hayman]

Sidney com Orquestra e Côro Sob Direção de Astor 1959 "Isto é Dança II" [Columbia 56078]

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Sidney foi um pianista que na virada das décadas de 50 e 60 atuou no cenário musical brasileiro com bastante sucesso. Já Astor foi importante maestro e sua orquestra ficou famosa pela força dos metais. Este é o segundo volume de uma série de compactos duplos que a Columbia lançou como uma prévia de seus LPs “Isto é Dança” volumes 1, 2 e 3. No lado A sucessos nacionais: “Nossos Momentos” [Haroldo Barbosa, Luiz Reis] e “Sou Eu” [Waldir Machado, Rubens Machado]; no B êxitos internacionais como “Romântico” [Chopin adaptado por S. Manes] e o clássico “Tea For Two” [Caesar, Youmans]. Espero que gostem!
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01 Nossos Momentos [Haroldo Barbosa, Luiz Reis]
02 Sou Eu [Waldir Machado, Rubens Machado]
03 Romântico [tema da Balada n.1] [Chopin, S. Manes]
04 Tea for Two [Ceasar, Youmans]

Luiz Humberto, Órgão & Rítmos 1962 "Temas Para Dançar" [Paladium 20003]

Lançado em 1962 pela gravadora Paladium, que a exemplo da Elenco, foi uma entre as intrigantes gravadoras “independentes” que surgiram no Brasil dos anos 60, este disco traz Luiz Humberto no órgão hammond e no piano e ainda conta com um excelente set de músicos [infelizmente não creditados] que inclui violão, sax e bateria. No repertório, hits nacionais da época e alguns standards internacionais, variando entre bossa, jazz e temperos de música latina. “Temas Para Dançar” é um disco divertido, feito para você dançar, um belo exemplo da arte musical brasileira no início da década de 1960.

Luiz Humberto 1962 “Temas Para Dançar [Palladium 20003]”

01 Poema do Adeus [Luiz Antônio]
02 Look for a Star [M. Anthony]
03 Fiz o Bobão [Haroldo Barbosa, Luiz Reis]
04 Cariñito [Humberto Garin]
05 Falsa Baiana [Geraldo Pereira]
06 Harlen Nocturne [Hagen]
07 Chora Tua Tristeza [Oscar Castro Neves, Luverci Fiorini]
08 Palhaçada [Haroldo Barbosa, Luiz Reis]
09 Quem Manda na Minha Vida [Herivelto Martins, Raul Sampaio]
10 Se Meu Apartamento falasse [Charles Willians]

16/01/06

LIMITE

Em 1931 o cineasta brasileiro Mário Peixoto dirigiu o revolucionário longa-metragem Limite. Rodado em Mangaratiba e belamente fotografado por Edgar Brazil, Limite transpôs ao nosso cinema e conseqüentemente à nossa realidade, a estética do cinema de vanguarda europeu, principalmente o soviético que na época já era muito sofisticado. O fato porém não passa de detalhe, pois em Limite, Mário Peixoto ousa: brinca com planos, câmeras, narrativa em flashback, negativos, movimentação de imagem e muita estranhesa. O filme cria uma onda de tensão que atinge seu ápice em um final espetacular. Com atuações de Olga Breno, Taciana Reis, Raul Schnoor e de D. G. Pereira; e músicas que incluem obras de Erick Satie, Borodin, Debussy entre outros, Limite é uma aula de cinema. Sem dúvida alguma um dos mais belos filmes já rodados no Brasil e no mundo.

No final de 2005 meu parceiro musical e eu estávamos produzindo uma faixa meio intrigante. Por acidente enquanto escutava a faixa no computador, as imagens de Limite passaram ao mesmo tempo em que a música, o que criou um efeito ainda mais intrigante.

Depois de muito trabalho, aqui está nossa homenagem ao filme Limite, à seu diretor Mário Peixoto e ao fotógrafo Edgar Brazil. A música foi composta por DJ Caique e condimentada por Thiago Mello. O vídeo foi editado por Thiago Mello e condimentado por DJ Caique. Está disponível para download via Rapidshare em boa qualidade de imagem e som. Espero que gostem. Dúvidas pode ser enviadas via email e comentários são muito bem vindos!

Em texto na revista online de cinema, o site Contracampo: http://www.contracampo.com.br/62/limite.htm Paulo Ricardo de Almeida sintetiza: "Em Limite o homem é responsável por suas próprias algemas, visto que, a fim de suportar o fardo de que o mundo existe independente dele, cria o Tempo, que se revela através das memórias dos personagens à deriva na imensidão inescapável, tanto do mar quanto do horizonte."

this link will be reposted soon

In 1931 Mário Peixoto a young brasilian cineast, has directed one outstanding and revolutionary full-lenght movie called Limite. It was shot in Mangaratiba coast, and photographed by Edgar Brazil. The film brought to the local screen scene the "new" aestetics of the European cinema, especially the Russian one, fully sophisticated at that time. But all that is mere detail, because on Limite, Mário Peixoto goes far beyond. Playing with frames, cameras, flashbacks, negatives, movings and much of some strange imagery. All to bring a tense wave that grows in a crescendo that leads to one extraordinary ending. The actors were Olga Breno, Taciana Reis, Raul Schnoor and D. G. Pereira. The music includes pieces from Satie, Borodin, Debussy among others. Limite is a masterpiece, one of the most beautiful films ever made.

At the ending of 2005, me and my musical partner was about to produce one intriguing track. While listening to the track, my pc started to play the film Limite by accident, creating one even more intriguing effect. After some work, here we offer our tribute to Limite and it's director Mário Peixoto and it's photographer Edgar Brazil. Music was composed by DJ Caique and tempered by Thiago Mello. Video was edited by Thiago Mello and tempered by DJ Caique. Download via Rapidshare in a good quality video archive. Doubts and sugestions, just email me. Enjoy!

At the Contracampo cinema web zine Paulo Ricardo de Almeida concludes: "Limite shows mankind as responsible for its own prisons. In order to support the fate that the world exists independent of mankind, they create the Time, the same that is then revealed trought the memories of the characters diving on a great opressive fairground of immense ocean and horizon."

09/12/05

Onilda Figueiredo 1956 [Mocambo LP 10026]

Primeiro LP, gravado em 1956, da então adolescente Onilda Figueiredo, representante da canção tradicional brasileira, na fase áurea do samba canção abolerado. A faixa “Nunca, Jamais!” fez muito sucesso, e levou a cantora a ser grande destaque no rádio. Depois de mais de 400 downloads o link expirou, devido ao novo formato do servidor... Mas logo voltará a ser editado.