13/12/2011

Henrique Simonetti 1955 “Música das Esferas” [Polydor LPN 2018]


“Música das Esferas” é o curioso nome que estampa a capa deste long-playing de 10 polegadas lançado no Brasil pela Polydor em 1955. Assinada simplesmente “K.” pelo artista, a capa mostra em uma pintura colorida um telescópio sob uma curiosa formação estelar, com as estrelas do céu noturno ele formou a frase  “Música das Esferas”.
“...Não perguntem, portanto, aos autores das belas páginas musicais contidas neste long-play, como a sua intuição trouxe aos ouvidos humanos a “Música das Esferas.”

Mas o que seria segundo o maestro
 Simonetti essa tal “Música das Esferas”? Na contracapa do disquinho temos uma curiosa seleção de temas famosos como “As Pastorinhas” [com o subtítulo de “Estrela D’Alva”] de Pixinguinha e João de Barro, “Stella by Starlight” de Victor Young,  “Luna Rossa” de Vian e Crescenzo, “Blue Moon” de Rodgers e Lorenz Hart e outras. O texto assinado pelo compositor Nazareno de Brito, também não ajuda. Encontramos resposta somente com a agulha deslizando no castigado vinil.

Trata-se de um dos primeiros LPs brasileiros a explorar um gênero de música orquestrada que nos Estados Unidos ganhava a denominação de
 “exotica”. Durante a década de 1950 e início da década seguinte, alguns artistas como Enoch Light, Esquivel, Les Baxter e Yma Sumac gravaram belos discos ambientando orquestra a experimentações sonoras diversas de caráter étnico ou futurista, sons eletrônicos e novas possibilidades técnicas de gravação. A intenção era criar uma música para devaneio, ou para os sonhos. Diferentemente da música “para dançar”, nos arranjos entravam instrumentos inusitados como teremin, celeste, vibrafone e harpas, criando um efeito “espacial”, “atmosférico” ou “ambient” exatamente como o gênero da música eletrônica hoje.


Olá, meu nome é Enrico Simonetti. Você com certeza já ouviu algo que eu fiz ou participei nos mais de quinze anos em que atuei no Brasil. Esta bela foto foi tirada pelo meu amigo Dirceu Côrte-Real, por culpa desta maledeta que me botaram a pecha de homem das meias vermelhas...

Alguém já ouviu “Blue Moon” com solo de sax e teremin? “Música das Esferas” provavelmente possui as primeiras gravações de um teremin no Brasil. O instrumento criado pelo russo Léon Theremin em 1919, é talvez o primeiro instrumento eletrônico do mundo e o único a ser tocado sem o contato físico com o instrumentista até hoje. É o avô dos sintetizadores. Para saber mais, alguns links interessantes: Teremin no Brasil, site da Família Theremin [em russo, alguns navegadores traduzem automaticamente] e na Wikipédia, onde há outros links sobre o assunto.

Henrique Simonetti foi um dos maestros mais importantes na história da música popular brasileira. Condutor, arranjador, compositor e pianista fazia o mesmo papel que os produtores/arranjadores atuais. Nasceu na Itália em 1924 e foi menino-prodígio, começou a estudar música aos quatro anos de idade. Chegou ao Brasil em 1949, chamando a atenção de quem o ouviu ao piano liderando o trio instrumental do Nick Bar. Sua primeira composição importante por aqui foi feita sob encomenda para a Companhia de Teatro Brasileiro de Comédia, na peça “Anjo de Pedra” em 1950. Seguiram muitos outros trabalhos em rádio, cinema, teatro e televisão. Vale destacar as belas trilhas que compôs para os filmes “Presença de Anita” de 1951, dirigido pelo também italiano Ruggero Jacobbi [Simonetti aparece tocando piano em uma cena] e “Floradas na Serra” de Luciano Salce, rodado em 1954, estrelado por Cacilda Becker e Jardel Filho, ambos da Vera Cruz. Segundo o site IMDB Simonetti participou de 39 filmes no Brasil, incluindo alguns como ator, em pequenas pontas. 


Esta era minha orquestra na época da RGE, quase trinta membros!

Inicialmente grava discos pela Polydor, depois se torna diretor artístico, maestro e principal arranjador da RGE, que tinha sede em São Paulo e se tornou uma das mais importantes gravadoras brasileiras até a metade dos anos 1960. Longe de ter uma visão “estrangeirada” da nossa música, Simonetti aprendeu e incorporou toda a bossa e a malícia do samba, com grande respeito e reverência. Sua maneira arranjar as cordas e valorizar percussão e sopros foi fundamental como referencia para a elaboração da sonoridade moderna da Bossa Nova. Enrico ou Henrique Simonetti [como assinava aqui], escreveu uma quantidade enorme de arranjos e participou de inúmeras gravações. Entre os principais trabalhos estão criações para os cantores Agostinho dos Santos,  MaysaLeny Eversong,  Elza Laranjeira,  Roberto Luna e outros, além das dezenas de discos instrumentais gravados por sua orquestra.  Em 1960 foi um dos maestros que se apresentaram nas celebrações da inauguração de Brasília. Volta à Itália coincidentemente na mesma época do estabelecimento da ditadura militar no país, por lá continua a produzir intensamente, os discos italianos gravados nos anos 70 são verdadeiras jóias que passeiam pelo jazz, soul, psicodelia e experimentalismo. Seu filho Cláudio Simonetti, herda o talento do pai, é o fundador do importante grupo de música experimental Goblin, imortalizado pelas trilhas dos filmes de Dario Argento.

“Regi até nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, em 1958.

Este certamente não é o melhor disco que o maestro gravou no Brasil, mas está aqui pelo ineditismo - não há muitos exemplos do gênero gravados no país. Simonetti voltaria a usar este tratamento “ambient” ou exótico em 1959, nos arranjos da série “Música à Luz da Oração” da gravadora RGE, comercializada com sucesso até hoje. Outro motivo de termos o disco aqui é a estranha e ousada versão do clássico “As Pastorinhas” de Pixinguinha e João de Barro, arranjo único [ou quase inédito] que provavelmente só se ouve neste disco. Coro, cordas, percussão e flautas no tema principal e no intermezzo uma viagem de dar nó na orelha.

O tema de abertura “Música das Esferas” composto pelo próprio maestro, soa denso e abstrato, quase espacial. Não se assustem ao ouvirem a voz de trovão do ator Walter Forster declamando uma parte do estranho texto do Nazareno de Brito que está na contracapa. Lembro que estamos em 1955 e não havia ainda nem sombra do homem na lua ou do filme 2001 Uma Odisseia no Espaço... Outro destaque é o belo arranjo para o clássico “Stella by Starlight” de Victor Young com o piano de Simonetti em primeiro plano, orquestra e solos de celeste e teremin, novamente ele...

Com minha mana Maysa fiz meus melhores discos, saudades...

“O artista não se utiliza dos engenhos complicados que combinam lentes, espelhos e instrumentos de laboratório para compreender a majestade do Universo. Ele parece estar sintonizado com o mundo que o cerca...”

Peço desculpas pela qualidade do som obtido na digitalização, infelizmente a cópia estava em péssimo estado. Ainda assim, a ambiência exótica que o maestro, arranjador e pianista Henrique Simonetti criou e a versão espetacular de “As Pastorinhas”, valem cada segundo da sua audição.


Henrique Simonetti 1955 “Música das Esferas [Polydor LPN2018]
~~
01 Música das Esferas [Simonetti, Nazareno de Brito] fantasia, voz Walter Forster 
02 Blue Moon [Rodgers, Hart] fox
03 Céu [Renato César] bolero
04 Luna Rossa [Avian, Verescenzo] beguine
05 As Pastorinhas [Noel Rosa, João de Barro] marcha-rancho
06 Estrelas Tropicais [M. Jari, B. Baiz] mambo
07 Stella By Starlight [V. Young] fox
08 La Luna [M. Panzeri, G. Calvi] valsa
Este disco é um presente do site Bossa Brasileira e não pode ser comercializado.

Já fui até garoto-propaganda...

Cena de   Presença de Anita”  de Ruggero Jacobbi 1951. Simonetti aparece tocando ao lado da cantora Carmen Déa, aos 1:23 minutos.

Abaixo a abertura do filme.

3 comentários:

tiago judas disse...

que LP!!! Muito grato... adoro esse tipo de presente!!! GRATO!!!

Valladão disse...

Nossa, que texto maravilhoso, como você escreve bem! É engraçado, quando eu leio um texto bem escrito sobre música me dá uma espécie de água na boca misturada com uma "fome" de escutar aquilo sobre o que foi lido - exatamente a sençação que tive agora.

É uma pena que talvez você não chegue a ver esse comentário visto o tempo desde sua última postagem, mas tomara que eu esteja errado.

De qualquer forma fiquei muito feliz por encontrar o link ainda funcionando, muito obrigado pela digitalização e pelo texto.

Gilberto Basilio disse...

O "Panorama Musical" foi um 10 polegadas muito especial dele, em minha opinião. Pela fase polidor não se tem muitas notícias.Alguém sabe o ano do "Páginas Brasileiras", 10 polegadas também?