30/03/2010

"A Bossa Brasileira de Heitor Villa-Lobos" [BRLP 004]

É com grande felicidade que trago aqui o álbum “A Bossa Brasileira de Heitor Villa-Lobos”, uma coleção de melodias selecionadas dentro da face, digamos, popular na vasta e pouco conhecida obra de nosso maestro-compositor mais genial. Longe de qualquer pretensão didática, produzimos uma coleção com algumas das nossas melodias favoritas do mestre, na intenção de captarmos um pouco a bossa da sua música. Como colcha de retalhos, há gravações de diferentes artistas registradas em diferentes épocas, selecionadas entre intérpretes que tiveram a trajetória musical de alguma forma ligada à música de Villa-Lobos.

Sob a pauta erudita estão canções populares brasileiras: valsas, canções folclóricas, choros, serestas, modinhas, cirandas, estudos, prelúdios e até uma adaptação de canção indígena. “A Bossa Brasileira de Heitor Villa-Lobos” traz um pouco do mundo genial de melodia, construção e forma que há na música do compositor. Uma música que ao mesmo tempo em que sinaliza ao futuro, com estruturas cíclicas, repetições e dissonâncias, parte de um sólido conhecimento de toda música do passado. Elementos que moldam uma música atemporal.

A coleção está dividida em duas partes, porém propomos uma audição integral dos volumes, a ordem das faixas percorre diversos caminhos indicados pelo mestre em cada composição, como viagem ao mundo dos sonhos. Onde sopranos do quilate de Lia Salgado, Bidú Sayão, Maria Lúcia Godoy e Cristina Maristany, se juntam a vozes populares como as de Inezita Barroso, Maria Bethânia, Cida Moreira, Monica Salmaso e Gisa Nogueira. E os pianos geniais de Alceu Bocchino, Arnaldo Estrela, José Echaniz, Miguel Proença, Homero de Magalhães, Murillo Santos, Antônio Guedes Barbosa e Sonia Maria Strutt, se juntam a perfeição dos violões de Turíbio Santos, Laurindo Almeida, Waltel Branco, Sebastião Tapajós, Antônio Carlos Barbosa Lima e Sérgio Assad.

Todas as faixas merecem audição atenta, mas vale destacar algumas melodias. Como a belíssima “Valsa da Dor”, interpretada por Arnaldo Estrela, de modulação ao mesmo tempo sofisticada e singela. Ou a adaptação da ciranda infantil “Que Lindos Olhos”, interpretada pelo pianista Homero de Magalhães, na qual Villa-Lobos imprime beleza na melodia em diversos fragmentos interligados.

Ary Barroso & Villa-Lobos em 1958.

A belíssima “Evocação” surge grande na voz de Lia Salgado, uma das mais completas intérpretes do Lied Brasileiro. Com ela há ainda uma fantástica adaptação da ciranda “Nesta Rua”, a divertida “Vida Formosa”, a densa “Inhapopê” e numa gravação rara, a minimalista “Canção do Marinheiro” com poema de Gil Vicente.

Nossa querida Lenita Bruno comparece perfeita no “Lundú da Marquesa de Santos” com orquestra sob direção do genial maestro Léo Peracchi. Já Maria Lúcia Godoy, uma das mais belas vozes que a música de Villa-Lobos já conheceu, canta a enigmática “Saudades da Minha Vida”, a bonita “Modinha” com poesia de Manuel Bandeira, “Realejo” e a “Canção da Folha Morta” com letra do poeta Olegário Mariano.

Bidú Sayão, considerada uma das mais completas cantoras líricas de todos os tempos, aparece em gravações onde a orquestra é regida pelo próprio maestro-compositor, a famosa “Ária” da “Bachiana Brasileira no. 5”, com letra de Ruth Valadares Correia, e a belíssima “Melodia Sentimental”, com poesia de Dora Vasconcelos - talvez a mais bela canção brasileira, que também aparece em outra belíssima gravação na voz e na interpretação de Maria Bethânia.


Bidú Sayão e Villa-Lobos em 1959.

A pianista Sonia Maria Strutt, sobrinha de Villa-Lobos, participa com muita competência em gravações datadas do final dos anos 50, como “Artimanhas” e a incrível “Nenê Vai Dormir” ambas da “Suíte Infantil no. 1” composta em 1912. E em “Manquinha” e “Acordei de Madrugada”, ambas do “Guia Prático” de 1932. Tanto nas adaptações quanto nas composições próprias, o ouvido atento perceberá traços de melodias de ninar tradicionais na musica, numa linguagem que se aproxima claramente da usada hoje nos samplers. Já o “Prelúdio no. 1” é interpretado com surpreendente sentimento pelo Antônio Carlos Barbosa e Lima, em gravação de 1959 quando o violonista tinha apenas 13 anos de idade.

“Viola Quebrada” composta sob poema de Mário de Andrade, aparece na voz de Cristina Maristany e no piano de Alceu Bocchino, responsáveis também pela interpretação da canção indígena “Hozani-na” e pelo belo “ponto de macumba” “Estrela É Lua Nova”. Já “Cantilena”, melodia tradicional “de pretos do recôncavo baiano” [como anotado no selo do disco original de 1955] adaptada por Villa-Lobos, é cantada com propriedade por Inezita Barroso.

A canção de ninar “Terezinha de Jesus” desconstruída por Villa, com o auxilio do piano de Homero de Magalhães, abre a segunda parte do álbum e é uma dos momentos mais incríveis da coleção. Outra peça belíssima para violão é o “Prelúdio no. 2” interpretado pelo grande Waltel Branco em uma gravação registrada em 1974. Seguida pelo registro de 1957 do violão de Laurindo Almeida com “Gavotta Choro”.
O famoso ”Trenzinho do Caipira” é totalmente recriado por Egberto Gismonti, em uma gravação radical, onde aparecem sons do sertão brasileiro modulados por sintetizadores.

O grande violonista Turíbio Santos comparece em “Prelúdio no. 5 em Ré Maior”, no “Estudo no. 1 em Mi Menor” e em uma gravação rara de 1960 ao lado de Oscar Caceres “A Lenda do Caboclo”. Há ainda os violões de Sérgio Assad e do mestre Sebastião Tapajós. Além da personalidade de Cida Moreira na recriação da densa “Canção do Amor” e a doçura de Monica Salmaso para “Cai a Tarde”, ambas sob poemas de Dora Vasconcelos.

Encerrando a coleção, Gisa Nogueira canta o samba “Quando Uma Estrela Sorri”, assinado por Villa-Lobos, pelo jornalista e compositor David Nasser e pelo grande sambista Donga. Samba criado nas ocasiões em que Villa ao lado dos bambas subia o morro para beber mais um pouquinho da fonte pura da bossa. Mas esta, já é outra história...

Feche os olhos e ouça.





“A Bossa Brasileira de Heitor Villa-Lobos” - primeira parte BRLP 004/A

“A Bossa Brasileira de Heitor Villa-Lobos” - segunda parte BRLP 004/B

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Primeira Parte

01 Arnaldo Estrela “Valsa da Dor” [Heitor Villa-Lobos] 1958
02 Sonia Maria Strutt “Artimanhas” [Heitor Villa-Lobos] 1959
03 Lia Salgado & Alceu Bocchino “Evocação” [Villa-Lobos, S. Salema] 1957
04 Lenita Bruno “Lundú da Marquesa de Santos” [Villa-Lobos, Viriato Correia] 1959
05 Turíbio Santos “Prelúdio no. 5 em Ré Maior” [Heitor Villa-Lobos] 1971
06 José Echaniz “Boneca de Pano” [Heitor Villa-Lobos] 1955
07 Sonia Maria Strutt “Nenê Vai Dormir” [Heitor Villa-Lobos] 1959
08 Maria Lúcia Godoy & Miguel Proença “Saudades da Minha Vida” [Villa-Lobos, Milano] 1983
09 Bidú Sayão, orquestra reg. Villa-Lobos “Melodia Sentimental” [Villa-Lobos, Dora Vasconcelos] 1959
10 Turíbio Santos “Estudo no. 1 em Mi Menor” [Heitor Villa-Lobos] 1963
11 Inezita Barroso “Cantilena” [adaptação Villa-Lobos, recolhido por Sodré Viana] 1955
12 Antônio Carlos Barbosa Lima “Prelúdio no. 1” [Heitor Villa-Lobos] 1959
13 Maria Lúcia Godoy “Modinha” [Villa-Lobos, Manuel Bandeira] 1977
14 Sebastião Tapajós “Cadência” [Heitor Villa-Lobos] 1968
15 Cristina Maristany & Alceu Bocchino “Viola Quebrada” [Villa-Lobos, Mário de Andrade] 1960
16 Lia Salgado & Murillo Santos “Nesta Rua” [adaptação Villa-Lobos] 1959
17 Maria Lúcia Godoy & Miguel Proença “Realejo” [Villa-Lobos, A. Moreira] 1983
18 Cida Moreira “Canção do Amor” [Villa-Lobos, Dora Vasconcelos] 2007
19 Homero de Magalhães “Que Lindos Olhos” [adaptação Villa-Lobos] 1960



Segunda Parte

01 Homero de Magalhães “Terezinha de Jesus” [adaptação Villa-Lobos] 1960
02 Lia Salgado & Alceu Bocchino “Vida Formosa” [ambientação Villa-Lobos] 1957
03 Maria Lúcia Godoy & Miguel Proença “Canção da Folha Morta” [Villa-Lobos, Olegário Mariano] 1983
04 Sonia Maria Strutt “Manquinha” [Heitor Villa-Lobos] 1959
05 Waltel Branco “Prelúdio no. 2” [Heitor Villa-Lobos] 1974
06 Laurindo Almeida “Gavotta Choro” [Heitor Villa-Lobos] 1957
07 Sérgio Assad “Mazurka Choro” [Heitor Villa-Lobos] 1978
08 Lia Salgado & Murillo Santos “Nhapopê” [adaptação Villa-Lobos] 1959
09 Cristina Maristany & Alceu Bocchino “Hozani-na” [adaptação Villa-Lobos] 1960
10 Egberto Gismonti “O Trenzinho do Caipira” [Heitor Villa-Lobos] 1987
11 Turíbio Santos & Oscar Caceres “Lenda do Caboclo” [Heitor Villa-Lobos] 1960
12 Sérgio Assad “Chorinho” [Heitor Villa-Lobos] 1978
13 Cristina Maristany & Alceu Bocchino “Estrela É Lua Nova” [adaptação Villa-Lobos] 1960
14 Homero de Magalhães “A Condessa” [adaptação Villa-Lobos] 1960
15 Sonia Maria Strutt “Acordei de Madrugada” [Heitor Villa-Lobos] 1959
16 Lia Salgado & Murillo Santos “Canção do Marinheiro” [Villa-Lobos, Gil Vicente] 1959
17 Antônio Guedes Barbosa “Prelúdio, Bachianas no. 4” [Heitor Villa-Lobos] 1986
18 Bidú Sayão, orquestra reg. Villa-Lobos “Ária, Bachianas no. 05” [Heitor Villa-Lobos, Correia] 1959
19 Maria Bethânia “Melodia Sentimental” [Villa-Lobos, Dora Vasconcelos] 2003
20 Monica Salmaso “Cai a Tarde” [Villa-Lobos, Dora Vasconcelos] 1999
21 Gisa Nogueira “Quando Uma Estrela Sorri” [Villa-Lobos, Donga, David Nasser] 1974


Este disco é um presente exclusivo
do site
bossa-brasileira.blogspot.com
e não pode ser comercializado.

25/12/2009

Feliz Natal!

O Bossa-Brasileira deseja aos amigos e visitantes um Feliz Natal!
Nosso muito obrigado a todos que visitam o site, deixam comentários

e nos seguem com interesse e carinho!

Um Feliz Natal brasileiro com muita música, paz e amor a todos!

27/10/2009

"Minha" Dolores Duran

Dolores Duran foi uma das maiores compositoras e intérpretes da Música Brasileira, ouso mesmo dizer que da música mundial. Foi com felicidade que recebi o convite do Milan para elaborar esta coleção de canções para seu site Parallel Realities Studio, que sempre enfoca belas vozes femininas do Brasil.

Dolores Duran é um caso único na história da nossa música. Surgiu como menina-prodígio capaz de impressionar o exigente Ary Barroso na sua primeira aparição frente aos microfones de uma emissora de rádio. Tornou-se, no auge de sua trajetória, uma bela mulher, dona de uma personalidade magnética, mulata de musicalidade absoluta e um par de bochechas que teimavam em sustentar o constante e largo sorriso.
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Sua voz rouquinha de emissão não muito potente cantou a tristeza de maneira impressionante, porém, ao mesmo tempo era capaz de levantar o astral de todos à sua volta com intermináveis anedotas e imitações das manias e trejeitos dos seus colegas da boemia carioca. Era o centro das atenções em todas as mesas que freqüentava, aliando graça, inteligência e sagacidade. Seus versos rebuscados e confessionais em “A Noite do Meu Bem”, são até hoje muitas vezes interpretados em tom de tristeza, sendo a música na verdade, uma ode à alegria de se encontrar o ser amado. Dolores tinha facilidade em aprender línguas e absorveu de maneira genial a música e a cultura de outros países, cantando perfeitamente em inglês, francês, espanhol e italiano. A consciência política a levou a se apaixonar pelo socialismo, e ela chegou a se apresentar na antiga União Soviética ao lado de Nora Ney, Jorge Goulart do Conjunto Farroupilha entre outros artistas. Num mundo profissional totalmente machista e bastante racista, onde a criatividade duelava marcadamente com a competição musical, ela conseguiu impor respeito, dando um passo além de muitos de seus colegas e contemporâneos. Sua arte é atemporal. Dolores Duran é um patrimônio artístico deste país.

Nesta coleção procurei selecionar de seu repertório, as canções baseando a escolha num tom pessoal. O resultado me surpreendeu, pois acabou mostrando o quanto moderna era a sua interpretação, e o quanto modernos eram também os compositores, os arranjos e o repertório escolhido a dedo pela grande sensibilidade da cantora. Para o efeito ser completo, o ideal é ouvir a coleção como um disco, na seqüência, do início ao fim. São sambas, sambas-canção, boleros, jazz e até mesmo baião, em uma viagem por todo o mundo musical particular de Dolores. Os fonogramas também receberam um leve tratamento digital para dar unidade ao som. Entre as canções em outras línguas há até mesmo uma em esperanto - “Nigraj Manteloj”, versão para a famosa “Coimbra” [de Errao, Galhardo, na versão de Baena].
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Não poderiam ficar fora grandes interpretações que se tornaram também sucessos como “My Funny Valentine” [Rodgers, Hart], “Canção da Volta” [Ismael Netto, Antônio Maria], “A Noite do Meu Bem” [Dolores Duran], “Conversa de Botequim” [Noel Rosa e Vadico], “Viva Meu Samba” [de Billy Blanco] e “Por Causa de Você” [a parceria mais famosa de Dolores Duran e Antônio Carlos Jobim]. Ao lado destas, algumas canções menos conhecidas, porém não menos geniais, como “Estranho Amor” [do mestre Garoto com letra de David Nasser], “Quem Foi?” [de Nestor de Hollanda e Jorge Tavares], “Ave Maria Lola” [S. Siaba], “Bom É Querer Bem” [de Fernando Lobo], “Onde Estará Meu Amor?” [da compositora Lina Pesce] e a incrível “Minha Toada” [composição de Dolores Duran e do saudoso Edson França, outro gênio musical, mais conhecido pela bela voz a frente do Trio Irakitan].

Em todos os gêneros e paisagens musicais por onde Dolores Duran passeou, há genialidade, doçura, humor e muita emoção. Modelando assim uma rara perfeição musical capaz de emocionar até mesmo as pedras do caminho. Afinal, passada a tristeza da perda, não importa se ela nos deixou cedo, importa sim, o que ela nos deixou. Divido então, um pouco da “Minha” Dolores, com todos vocês.

“Minha Dolores por Thiago Mello”
2009 [Bossa-Brasileira & Parallel Realities Studio]

01 Bom É Querer Bem [Fernando Lobo]
02 My Funny Valentine [Rodgers, Hart]
03 Solidão [Dolores Duran]
04 A Noite do Meu Bem [Dolores Duran]
05 Estranho Amor [Garoto, David Nasser]
06 Ave Maria Lola [S. Siaba]
07 Minha Toada [Edson França, Dolores Duran]
08 Na Asa do Vento [Luiz Vieira, João do Vale]
09 Viva Meu Samba [Billy Blanco]
10 A Banca do Distinto [Billy Blanco]
11 Conversa de Botequim [Noel Rosa, Vadico]
12 Manias [Flávio Cavalcanti, Celso Cavalcanti]
13 Nigraj Manteloj [Coimbra em Esperanto] [Errao, Galhardo, Baena]
14 Sinceridad [G. Perez]
15 An Affair to Remember [Adamson, Mcarey, Chandler, Warren]
16 Onde Estará Meu Amor? [Lina Pesce]
17 Canção da Volta [Ismael Netto, Antônio Maria]
18 Quem Foi? [Nestor de Hollanda, Jorge Tavares]
19 Pra Que Falar de Mim? [Ismael Netto, Macedo Neto]
20 Por Causa de Você [Dolores Duran, Antônio Carlos Jobim]

Este disco é um presente dos blogs:
Parallel Realities Studio & Bossa-Brasileira
E não pode ser comercializado.

04/09/2009

No Ar! Trailer do documentário "Com Carinho de Maysa"

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É com grande felicidade que trazemos aqui o trailer do primeiro longa-metragem da Bossa Filmes: “Com Carinho de Maysa”, atualmente em fase de produção e ainda sem previsão de lançamento. O primeiro trailer oficial ja está no ar: no youtube e no vimeo. Também está no ar o blog do filme. Nosso muito obrigado à todos os amigos, colaboradores, pesquisadores e envolvidos direta ou indiretamente no projeto!

Este filme é uma declaração de amor que fazemos à Maysa e uma declaração de amor que Maysa faz à seu público.

05/07/2009

Dóris Monteiro 1957 “Dóris Monteiro” [Columbia LPCB 35045]

O Brasil possui cantoras magníficas, mas dentre todas elas, há uma que merece todo o nosso carinho e destaque. Trata-se da grande Dóris Monteiro, que ainda hoje canta, com 55 anos de atividade profissional, ela está cantando lindamente por sinal, com o mesmo brilho, o que mais uma vez nos enche de alegria e orgulho! Por este motivo trazemos este LP aqui - novamente uma colaboração do grande amigo Clóvis de Curitiba, nosso imenso obrigado!

Este é um LP pouco conhecido de Dóris Monteiro, no formato de 10 polegadas, lançado em 1957. No repertório está, entre outras preciosidades, a gravação original de “Mocinho Bonito”, um clássico de Billy Blanco, grande sucesso na época e considerada como uma das gravações inaugurais da bossa nova. A matriz deste disco, se existir, está escondida nas prateleiras empoeiradas do que restou do acervo da Columbia. Apenas mais um exemplo do descaso histórico com a nossa música. Excluindo “Mocinho Bonito” os outros fonogramas não foram até hoje relançados em nenhum formato. Portanto, trata-se de uma jóia rara.
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Em 1957 Dóris Monteiro já era uma grande estrela, e havia sido eleita Rainha do Rádio por dois anos consecutivos. Seu “fio de voz”, como diziam alguns colegas, era também a marca de uma cantora moderna e sofisticada, que sabia ser ao mesmo tempo simples e sofisticada, e muito popular, agradando a todos os ouvintes, técnicos, produtores e colegas músicos da nossa Era do Rádio. Além de cantar também atuou frente ao microfone como locutora e disc-jokey [!] e também fez sucesso nas telas de cinema como atriz, chegando a ganhar prêmios. Uma bela trajetória. Ainda nos anos 40, podia ser apenas uma menina com a mãe sempre ao lado “de guarda”, mas quando cantava, transmitia poesia pelas ondas do rádio. E é assim neste disco. Dos primeiros acordes de “Faça de Conta”, bonita composição de Fernando César, até o último segundo da enfumaçada “Meu Tema”, de Édson Borges, este disco é todo, uma grande beleza.

Aqui, ela registrou duas composições de Maysa, que recém havia surgido no cenário musical como um furacão de sucesso e expressão artística. São duas músicas do primeiro disco da Maysa, lançado um ano antes: “Marcada” e “Resposta”. Duas belas composições, que ao ganharem interpretação da já experiente colega, são prova do quanto reverenciada Maysa foi no meio musical, ao mesmo tempo em que fazia enorme sucesso popular. As interpretações de Dóris Monteiro para estas duas canções são belíssimas, muito particulares, com toda a sua personalidade musical. Vale lembrar que Maysa ainda não havia gravado nem o seu segundo LP quando Dóris Monteiro lançou este. Uma bela homenagem, que deixou Maysa muito feliz. Que compositor não gostaria de ter uma música sua interpretada por Dóris Monteiro? Elas chegaram a dividir o microfone nesta época em programas no rádio.

“Dóris Monteiro” é um LP belíssimo, é a música brasileira elegante dos anos 50. Durante muitos anos se criticou o samba-canção, ainda hoje é tido como um estilo menor, cafona, sem importância. Há quem diz que se aparenta do tango e do bolero, que o piano tem vibrato, que a orquestra desliza, que as letras são melosas, ou até mórbidas o que for... Nada disso importa! Quem não tem sentimentos que não sinta... há quem sente, isso sem dúvida! A voz, mesmo que por “um fio”, tem a toda a doce dimensão da poesia daqueles dias. Mesmo que nem todas as canções sejam espetaculares como “Mocinho Bonito”, “Resposta” ou “Faça de Conta”. A contracapa é outra atração, com texto assinado pelo compositor Fernando César, onde certa altura ele afirma - “...Dóris não é nada daquela ‘figura para Ibrahim ver’... ...humana, dá-se ao luxo de acumular as qualidades de mulher bonita e inteligente...” - impregnado pelo machismo da mentalidade da época.

Dóris Monteiro, o maestro Eleazar de Carvalho e o cantor Lúcio Alves - início da década de 50.

Os arranjos do disco são incríveis, vem com a assinatura da orquestra toda original de Renato de Oliveira. Há violinos, acordeons, sax, percussão em primeiro plano e piano, tudo arranjado no maior capricho, como convém ao maestro, abrilhantando as composições. Uma preciosidade - que mais dizer de um disco que reúne a orquestra de Renato de Oliveira, mais a voz de Dóris às composições de Fernando César, Maysa, Billy Blanco, Édson Borges, Eduardo Luiz e Amado Régis?

Na incrível “Minha Obsessão” [de Nando e J. Marques] a voz cheia de estilo, enche o ambiente atravessando o espaço - chega a arrepiar - Dóris canta uma letra que traduz perfeitamente a atmosfera geral: “...é obsessão / é atroz, é cruel, é fatal / é um doce veneno que embriaga, seduz e afinal / mata lentamente como a flor cheirosa de espinhos mortais... / ...é melhor que eu procure esquecer / o que só desenganos me traz / terminemos sim, e outro amor, nunca mais!”

Dóris Monteiro 1957 “Dóris Monteiro” [Columbia LPCB 35045]

01 Faça de Conta [Fernando César] bolero
02 Marcada [Maysa] samba-canção
03 Real Conclusão [Eduardo Luiz, Amado Régis] toada
04 Mocinho Bonito [Billy Blanco] samba
05 Resposta [Maysa] samba-canção
06 Minha Obsessão [Nando, J. Marques] bolero
07 Só Pode Ser Você [Fernando César] fox
08 Meu Tema [Édson Borges] beguine

Arranjos e orquestra sob regência do Maestro Renato de Oliveira

13/06/2009

Rosa Pardini 1959 “Eu, O Luar & Você” [RCA Victor BBL 1143]

É com emoção que trago mais esta beleza da discografia brasileira, quase perdida no espaço-tempo. Um disco lindo, que deve ser degustado com calma e cuidado, como convém a toda grande obra de arte. Trata-se do terceiro LP da cantora Rosa Pardini, “Eu, o Luar e Você” [BBL 1143] primeiro na gravadora RCA Victor, lançado em 1959, com arranjos e regência do maestro Erlon Chaves, um de seus primeiros trabalhos à frente de uma grande orquestra.

Um mergulho no universo da música brasileira não seria completo se não fossem trazidos à tona artistas que - por puro descaso - caíram no esquecimento, mesmo dotados de características marcantes e trabalhos artisticamente irretocáveis. Para tanto, o trabalho de recuperação dessa memória é indispensável.

Rosa Pardini faz parte deste time de artistas. Cantora nascida em São Paulo em 1926. Teve a voz treinada nos ambientes da música clássica, mas era apaixonada pela música popular. Descoberta em 1943, pelo então diretor artístico da Rádio São Paulo, Oduvaldo Vianna, Rosa Pardini foi durante as décadas de 40 e 50, destaque em emissoras da capital paulista. Gravou diversos 78 rpms e um LP em 10 polegadas com o grande maestro Enrico Simonetti. Apareceu também no cinema e foi apelidada pelo locutor Alberto Nagib de “Pássaro de Ouro”, devido a sua voz cristalina.

Este é seu terceiro disco. São canções, choros e valsas, algumas clássicas do cancioneiro brasileiro, que nas mãos do maestro Erlon Chaves, ganham roupagem ousada e moderna, mesmo respeitando a tradição brasileira das modinhas, valsas e serestas. O resultado é no mínimo fantástico. Há aqui gravações definitivas para grandes clássicos como “Tamba-Tajá” do cancioneiro amazônico de Waldemar Henrique e “Guacyra” de Hekel Tavares e Joraci Camargo.


Registrado em 1959, o disco fez sucesso popular e se destacou numa época em que as gravadoras apostaram em vozes femininas de talento para registrarem discos ousados artisticamente, e se equilibravam entre a música erudita e a popular. Cantoras menos populares como Maria Helena Raposo, Lia Salgado, Leda Coelho e Délora Bueno, conseguiram a proeza de lançar LPs clássicos nestes moldes. Lenita Bruno em 1958 havia registrado pelo selo Festa a obra-prima “Modinhas Fora de Moda”, do qual este disco de Rosa Pardini, é também parente próximo.

Rosa Pardini foi casada com Wanderley Taffo, maestro, clarinetista e arranjador genial, na época conhecido por Siles, líder de um conjunto bastante atuante nas décadas de 40 e 50 em rádios, TVs e discos. Desta união nasceu o guitarrista Wander Taffo. No início dos anos 60 ela diminui a freqüência nas rádios e TVs, mas continua a cantar, infelizmente porém não registra mais discos.

Apenas por ter nos deixado “Eu, o Luar e Você”, Rosa Pardini merece figurar entre as grandes artistas da voz no Brasil. É ouvir, e tirar as próprias conclusões. De minha parte, posso apenas comentar a beleza e a delicadeza dos arranjos e da dicção perfeita da cantora, como na faixa título, que abre o álbum, de autoria de Sivan Castelo Neto - “Eu, o Luar e Você” tem a orquestra discreta emoldurada por harpas, num estilo que apenas na década de 50 seria possível registrar.

“Guacyra” clássico de Hekel Tavares e Joraci Camargo ganha arranjo de bossa, como se dizia na época, com a clarineta - provavelmente o próprio Siles - e um violão já anunciando novos tempos. O arranjo é ousado e brinca de modernidade. Já em “O Que Eu Queria Dizer”, também do mestre Hekel Tavares em parceria com Mendonça Jr, Rosa Pardini surge cheia de ternura transpirando a exata emoção que os autores impregaram tanto na letra quanto na melodia.

Em “Chorinho” o clima se alegra com uma beleza única e o ritmo dolente, Pardini mostra que sua voz também era perfeita para o samba e o chorinho. “...e os três / vão por este mundão que se chama saudade / conduzindo três almas, demais brasileiras /serena tanto / enquanto alguém que ama / abre a janela e espia sobre o luar / que é mesmo um dia / embranquecendo a amplidão...” A poesia é maravilhosa, mas não pára por aqui...

O maestro Waldomiro Lemke, o cantor Agostinho dos Santos e o maestro Erlon Chaves, autor dos arranjos deste disco, foto 1959.

“Se Tu Soubesses” [George Moran, Christóvão de Alencar], traz a cantora de volta ao samba-canção, num arranjo cheio de sutilezas. O lado fecha com “Chuva e Vento” dos consagrados compositores Alberto Ribeiro e José Maria de Abreu. Melodia com não sei o que de moderno, os arranjos novamente na bossa do violão e do clarinete, mas com vibrafone e coro completando a maravilha, tudo soando terrivelmente estranho e moderno: “a chuva cai... / é o pranto amor / da dor universal...”

O lado B abre com “Modinha” de Jayme Ovalle, com letra do poeta Manuel Bandeira, canção que jáhavia sido gravada com grande beleza por Lenita Bruno, e a versão de Rosa Pardini também é belíssima, com destaque para o naipe de cordas. De autoria do maestro Marcelo Tupynambá, de quem Pardini foi crooner em sua orquestra durante anos, está o belíssimo samba “Mal Estar”, com acompanhamento de regional de choro: “Eu não sei bem por que, sinto-me a envolver / um mal estar / sempre que você / sorrindo chega assim a dizer / você como vai?...” Simplesmente lindo!

Harpas e orquestra retornam em “Noite de Garoa” assinada por Amil. Que se para alguns não é uma música brilhante tem pelo menos uma linha na letra, digna de se destacar como fantástica: “...por que soluças tanto ó coração? / não vês que está traçada a minha meta / deixa eu que sofra com resignação /do próprio mal de ter nascido poeta...” Não é incrível?

Há ainda “Tamba-Tajá” de Waldemar Henrique e “A Carícia de Tuas Mãos” valsa pouco conhecida do mestre Joubert de Carvalho. E para encerrar disco, uma canção brejeira - quase um lamento sertanejo - de beleza sublime, composta por outro mestre Laurindo de Almeida [será que ele fez parte na gravação deste disco?]: “Minha Saudade”. “...minha viola não mais geme que maldade / chora tristemente essa saudade... ...quero conviver com a natureza / quero frente a tal beleza / ser menor que não sei que...” Depois disso, não há mais o que dizer, apenas calar e ouvir... Uma boa viagem!

Rosa Pardini 1959 “Eu, O Luar & Você” [RCA Victor BBL 1143]

01 Eu o Luar e Você [Sivan Castelo Netto]
02 Guacyra [Hekel Tavares, Joraci Camargo]
03 O Que Eu Queria Dizer ao Seu Ouvido [Hekel Tavares, Mendonça Jr.]
04 Chorinho [Waldemar Henrique, Bruno de Menezes]
05 Se Tu Soubesses [George Moran, Christóvão de Alencar]
06 Chuva e Vento [José Maria de Abreu, Alberto Ribeiro]
07 Modinha [Jayme Ovalle, Manuel Bandeira]
08 Mal-Estar [Marcelo Tupynambá]
09 Noite de Garoa [Amil]
10 Tamba-Tajá [Waldemar Henrique]
11 A Carícia de Tuas Mãos [Joubert de Carvalho]
12 Minha Saudade [Laurindo de Almeida]

Arranjos e orquestra sob regência do Maestro Erlon Chaves.

Quero agradecer ao amigo e colecionador Clóvis Cordeiro, de Curitiba, quem gentilmente cedeu este e outros discos para digitalização.

Bossa-Brasileira 2009

Queridos amigos, leitores e acompanhantes do Bossa-Brasileira:

Quero informar à todos que não encerramos as atividades!
Porém, estamos totalmente absorvidos por um outro projeto - também sobre música brasileira, do qual falaremos aqui mais adiante - e que tem tomado todo nosso tempo e dedicação. É por uma boa causa, nos intervalos procurarei trazer aqui mais alguns discos, assim que for possível.

Quero deixar pública minha gratidão para com os amigos, colecionadores e pesquisadores Clóvis Cordeiro [de Curitiba] e ao Gabriel Gonzaga [de São Paulo] que gentilmente nos emprestaram alguns de seus raros itens de seus acervos pessoais, discos que assim que for possível, entrarão aqui. Meu muito obrigado à eles e um grande abraço!

E também meu muito obrigado à todos que nos visitam diariamente, mandam emails, comentam, nos enviam sugestões e discos... um abração à todos!

Thiago Mello

18/12/2008

Trio Surdina 1956 "Ouvindo Trio Surdina Volume 2" [Musidisc DL 1009]



Quando Paulo Tapajós pensou em um conjunto instrumental para atuar em seu programa na Rádio Nacional “Música em Surdina”, convidou o amigo Garoto [Aníbal Augusto Sardinha, *1915 +1955] - um dos gênios das seis cordas que o Brasil teve a honra de ver nascer - para organizar o conjunto. Ele então indicou o seu próprio trio, que estava se apresentando com certa regularidade nos estúdios da Nacional. Garoto ao violão, Chiquinho do Acordeon [Romeu Seibel, *1928 +1993] e Fafá Lemos [Rafael Lemos Junior, *1921 +2004] exímio violinista e ex-músico da Orquestra Sinfônica Brasileira, eram a base melódica do conjunto. Uma formação diferente, ainda que acrescida de percussão [no primeiro disco a cargo de Bicalho] e contrabaixo [com Vidal], o foco era mesmo os solistas, e o resultando foi também uma sonoridade diferente. Garoto se empenhava há anos em formações musicais similares, ele parecia buscar um som específico, um dos embriões do Trio Surdina contava com Laurindo de Almeida no segundo violão, o violino de Mesquita e o contrabaixo de Faria: era o Garoto e Suas Cordas Quentes - foto promocional abaixo.

Garoto tanto conseguiu encontrar o som que procurava como também influenciou toda uma geração de músicos, como instrumentista e compositor. Segundo o pesquisador Jorge Mello - que escreve um livro sobre o músico - foi Paulo Gracindo na ocasião apresentador, quem batizou o conjunto de “Trio em Surdina” em 1952, na Rádio Nacional. Pouco tempo depois foram convidados por Nilo Sérgio, amigo, apresentador, cantor e dono do iniciante selo de discos Musidisc, para lançar uma série de LPs no formato ainda experimental de 10 polegadas, com oito faixas rodando em 33 rotações. Fafá Lemos contou que os discos não foram gravados em estúdio, mas sim editados a partir de acetatos gravados na Rádio Nacional, entregues a Nilo Sérgio por Paulo Tapajós.


Um dos embriões do Trio Surdina as “cordas quentes” de Laurindo de Almeida, Mesquita, Faria e Garoto.

Os disquinhos venderam bem, fizeram sucesso e rechearam o catálogo da Musidisc - que em poucos anos se tornaria vasto - com um padrão de extremo bom gosto e delicadeza, tanto no registro da música como também nas capas. Num esquema quase artesanal, infelizmente alguns discos eram prensados em material de baixa qualidade, no entanto Nilo Sérgio foi pioneiro na administração de uma gravadora nacional e esta ainda teve vida longa.

Em 1953 Fafá Lemos acompanha Carmen Miranda em mais uma turnê pelos Estados Unidos, gravando por lá o disco “Jantar no Rio” [1954 RCA Victor BKL 2] já em 12 polegadas - disponível aqui no bossa-brasileira. Em 1955 Garoto falece prematuramente vítima de problemas cardíacos. No mesmo ano o mundo musical brasileiro também cumpre luto por Carmen Miranda. Fafá retorna ao Brasil, mas não volta a gravar na Musidisc. Nilo Sérgio não desiste da “marca” Trio Surdina e remonta o conjunto com auxílio do excelente violonista Nestor Campos, para a gravação de mais LPs. Ao lado dos músicos Auro P. Thomaz, o “El Gaúcho” acordeonista e Joaquim Gonçalves Oliveira Filho, o Al Quincas músico originalmente saxofonista, mas no Trio Surdina encarando o violino com destreza.


O violonista Nestor Campos.

A intenção de Nilo Sérgio foi manter a aura musical criada por Garoto, e claro, impulsionar o sucesso fonográfico do seu selo. E foi bem sucedido. Mesmo sem a genialidade e ecletismo da formação original, o “novo” Trio Surdina, embora mais simples, também possuía brilho. Este disco é a prova. Lançado em 1956, possui uma sonoridade forte, com ênfase na percussão, e nos belos diálogos e fraseado dos solistas. A arrojada capa é assinada por Apolo, num resultado gráfico fora do padrão e absolutamente moderno para a época.

Como nas gravações do trio original, está aqui a mesma atmosfera de cabaré, evocando por vezes a música latina da Europa e suas tradições ciganas e através destas, a raiz árabe da música ibérica. Se a fórmula segue parecida, os músicos são outros - e claro, a visão muda. O destaque é mesmo o violão do Nestor Campos, gostoso de ouvir, preciso e com leveza. Há influencia do estilo todo particular de Garoto, mas Nestor se sai bem ao distanciar do estilo do mestre, buscando linguagem própria. Também o violino e o acordeon possuem momentos sublimes. “Linda Flor” de Henrique Vogeler por exemplo, é belíssima, com o solo de violino vibrante, valorizando a melodia pontuada com precisão pelo violão e o acordeon. “Jelousie”, clássico norte-americano, é revestida com elegância e desenhos sonoros de efeito sublime. O violino se destaca no choro “Comigo É Assim” de Luiz Bittencourt e José Menezes, com a intervenção perfeita do solo ligeiro de Nestor. Há também elegantes releituras para sucessos internacionais, como o fox “Charmaine”, a balada “Moonlight Serenade” e o bolero “Maria-lá-ô” de Ernesto Leucona, em arranjo belíssimo. Surpreendente também é “Iracema na Escócia” com bateria e violino em primeiro plano, soa como um casamento feliz e improvável entre a marcha escocesa e o samba brasileiro. Fechando o disco, um samba-choro assinado por Al Quincas “Você Não Gosta”, com destaque especial para o solo de acordeon do El Gaúcho. Um belíssimo presente aos amigos amantes da boa música!

Trio Surdina “Ouvindo Trio Surdina Volume 2”
1956 Musidisc DL 1009


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01 Jealousie [Jacob Gade]
02 Comigo É Assim [Luiz Bittencourt, José Menezes]
03 Charmaine [E. Rapee, L. Pollack]
04 Linda Flor [Henrique Vogeler]
05 Maria-lá-ô [Ernesto Lecuona]
06 Iracema na Escócia [Pernambuco]
07 Moonlight Serenade [M. Parish, G. Miller]
08 Você Não Gosta [Al Quincas]

Al Quincas: violino
Nestor Campos: violão
El Gaúcho: acordeon

para mais Trio Surdina visite as matérias de Jorge Mello:
Trio Surdina no site Musica Brasiliensis
Cancioneiro de Garoto no site Sovaco de Cobra
O Extraordinário Guitarrista Nestor Campos no Sovaco de Cobra parte 1
O Extraordinário Guitarrista Nestor Campos no Sovaco de Cobra parte 2
blog do Jorge Mello com diversas informações sobre a boa música brasileira
Trio Surdina no site Gafieiras - matéria de Ricardo Tacioli

02/12/2008

Marília Batista 1952 “Poeta da Vila nº 1” [Rádio 0001]

É com grande felicidade que trazemos aos amigos esta jóia da discografia brasileira. Trata-se do disco número um da pioneira gravadora Rádio, editado em 1952, com a cantora Marília Batista interpretando sambas de Noel Rosa em arranjos luxuosos do mestre Aldo Taranto. “Poeta da Vila” é considerado o primeiro long-playing em 33 rpms gravado e produzido no Brasil, ainda no formato inicial em 10 polegadas. Registros apontam que as gravadoras Sinter e Musidisc já haviam se aventurado no formado em 1951. Segundo o pesquisador Egeu Laus, o Brasil foi o quarto país do mundo a colocar no mercado discos em formato long-playing rodando em 33 rotações, depois dos Estados Unidos, Inglaterra e França, em 1951, com uma coletânea de Carnaval no selo Sinter. Tendo sido lançado em 1952, “Poeta da Vila” é comprovadamente um dos primeiros.

A cantora Marília Batista [*13.04.1918 - +09.07.1990] incentivada pela mãe, pianista e pelo pai, médico, desde cedo desenvolveu sua aptidão para música. Empunhando violão [fato incomum para as meninas na época], aos oito anos já compunha e sonhava em ser solista. Aos doze fez seu primeiro recital, apresentando composições suas entre sambas e canções regionais. Aos quinze anos - em 1932 - gravou seu primeiro disco em 78 rpms com duas parcerias feitas com o irmão Henrique Batista. No ano seguinte, já está acompanhada por Noel Rosa, como destaque no famoso Programa do Casé, na Rádio Philips, o mais ouvido na época. A cada programa, novos sambas do também famoso poeta da vila eram apresentados.
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Foto histórica pertencente ao acervo do cantor Almirante, nos estúdios da rádio Mayrink Veiga: Mário Moraes, Cyro de Souza, Henrique Batista [irmão de Marília, também compositor], Marília Batista, Fernando Pereira, Renato Batista [irmão de Marília, também compositor] e Noel Rosa.

Marília Batista e Noel Rosa se conheceram em 1931, ela tinha quatorze anos, quando ele a viu se apresentar em uma festa, a sintonia foi imediata. Ao lado de Aracy de Almeida, Marília Batista foi a mais importante intérprete das composições de Noel Rosa. Boa moça, Marília tricotava nos intervalos da programação, enquanto Aracy acompanhava os rapazes em intermináveis noitadas pelos bares cariocas. Dona de voz e personalidade igualmente fortes, Marília também possuía humor refinado, como seu amigo Noel. No Programa do Casé ela criou o seu próprio prefixo: “Fala o Programa do Casé... / Veja se adivinha quem é... /Faço a pergunta por troça / Pois todo mundo já conhece / A garota da voz grossa...”. Além dos programas de rádio, Noel e Marília também dividiram os microfones em diversas gravações históricas, lançadas em 78 rpms pela Odeon, em algumas acompanhados pelo regional do Benedito Lacerda.

O “garota da voz grossa” não pegou, Marília Batista ficou conhecida mesmo pelo apelido delicado de: “Princesinha do Samba”. Com a inauguração da Rádio Nacional ela passa a integrar o cast como parte do conjunto vocal As Três Marias, que além de estrelas do elenco, também acompanhavam outros artistas. As Três Marias também gravam alguns discos e aparecem no filme “É Proibido Sonhar” de Moacir Fenelon, lançado em 1943.

No início de Maio de 1937, uma notícia nos jornais abala o Rio de Janeiro: Noel Rosa morre aos 27 anos de idade, vítima de sucessivas enfermidades, agravadas pelo estilo de vida boêmio. Marília Batista ainda mantém a carreira com sucesso por mais alguns anos, mas ao casar-se em 1945, se ausenta dos palcos e microfones.

Até 1952, quando é convidada pela gravadora Rádio para estrelar o primeiro LP produzido no Brasil. Uma homenagem a Noel Rosa, com arranjos do maestro Aldo Taranto. Oito sambas, sendo três, instrumentais. O resultado é uma obra-prima. Dos primeiros compassos de “Feitio de Oração” [parceria de Noel com o pianista Vadico], até a última frase de “Dama do Cabaré”, Marília Batista e Aldo Taranto registram versões perfeitas, senão definitivas, em arranjos que ao mesmo tempo evocam e transcendem as gravações originais feitas na década de trinta. As belas “Quando o Samba Acabar”, “Pra Esquecer” e “Dama do Cabaré” são os maiores exemplos. Não há como não destacar a partitura orquestral nas faixas. Nem mesmo o arranjo ousado do pequeno conjunto em “Pela Primeira Vez” [parceria com Cristovão de Alencar], onde Taranto coloca sopros dialogando com uma guitarra elétrica de maneira magistral. “Quem Ri Melhor” sobrepõe o conjunto e a orquestra, com grande beleza nos desenhos melódicos dos violinos - enquanto o samba come solto, com percussão marcada, pandeiros e a participação vocal das Três Marias. Já “Com Que Roupa?” comparece instrumental com solo de guitarra - músico infelizmente não creditado [seria o grande Laurindo Almeida?] - e um solo assombroso de piano do mestre Taranto em pessoa.

Marília Batista 1952 “Poeta da Vila nº 1” [Rádio 0001]

Foram lançadas diferentes edições deste disco, a que usamos para digitalizar possui o vinil perolado nos tons preto, vermelho e branco. Existe também uma edição com o vinil predominante branco, mas perolado em vermelho e preto, outra com o vinil acinzentado, além do vinil normal, inteiramente preto. Se alguém conhecer edições em outras cores deste disco, entre em contato!

Destacar a importância de Noel Rosa é chover no molhado. Faço questão porém, de mostrar aqui um bilhete encontrado na primeira página do álbum de recortes mantido pela mãe do compositor, apenas como ilustração de seu incrível senso de humor:

Imagem pertencente ao acervo de João Máximo e Carlos Didier, autores da caprichada e obrigatória “Noel Rosa, Uma Biografia” editado pela Linha Gráfica em 1990.

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01 Feitio de Oração [Noel Rosa, Vadico]
02 Até Amanhã [Noel Rosa] samba
03 Quando o Samba Acabou [Noel Rosa]
04 Pra Esquecer [Noel Rosa]
05 Com Que Roupa [Noel Rosa]
06 Quem Ri Melhor [Noel Rosa]
07 Pela Primeira Vez [Noel Rosa, Cristóvão de Alencar]
08 Dama do Cabaré [Noel Rosa]

arranjos do maestro Aldo Taranto

19/11/2008

Paulo Tapajós 1956 “Melodias Imortais de Joubert de Carvalho” [Sinter SLP 1082]

É com grande felicidade que apresentamos este disco de 10 polegadas gravado por Paulo Tapajós e lançado pela gravadora Sinter em 1956. Raridade histórica, este LP traz interpretações únicas para canções do mestre Joubert de Carvalho. São valsinhas, canções seresteiras e toadas, arranjadas para orquestra, côro e pequeno conjunto pelo mestre das batutas Léo Peracchi - que segundo Paulo, no texto da contracapa, realizou a sobreposição de arranjos diferentes na mesma canção, em algumas das faixas. Somente pelas presenças de Paulo Tapajós e Léo Peracchi executando o repertório de Joubert de Carvalho, este disco já seria um clássico, mas consegue ir além. A beleza das faixas, a leveza dos arranjos, a voz econômica - sem a costumeira impostação exagerada da época - a delicadeza geral com que foi gravado, já mostra se tratar aqui, de mais um dos clássicos esquecidos da nossa discografia histórica.

Os músicos não são creditados, mas o instrumental é estupendo. Há um belo violão, diálogos entre vibrafones, clarinetas e flautas, e até mesmo solos de guitarra elétrica. A orquestra completam a massa sonora, com desenhos belíssimos, completando o efeito sublime das gravações.

“Olha-Me Bem Nos Olhos” abre lírica com a orquestra se desdobrando em coloridos inesperados, emoldurando a bela poesia de Aldemar Tavares: “...Mas quando eu repousar em cova rasa / E Deus, estrela ou flor, fizer de mim... / Estrela, eu fico sobre a tua casa / Flor humilde, abrirei no teu jardim...”

“Hula” é uma valsa hipnótica, com vibes, guitarra havaiana - a música foi certamente inspirada em melodias daquelas ilhas - além de côro feminino completando a beleza da composição com letra do poeta Olegário Mariano. Já “Nhá Maria” começa evocando música de câmara, com suas linhas de violinos e oboés, até se transformar em uma toada brejeira, misturando piano, solos de violinos e acordeons. Trabalho incrível de brasilidade única do mestre Léo Peracchi, que surpreende também na famosa “Maringá”, com arranjo composto apenas de vozes, com Paulo solando e o côro misto executando a melodia.

A deliciosa “De Papo Pro Á” foi gravada com pequeno conjunto, com percussão, baixos e sopros em primeiro plano, marcando a melodia famosa em arranjo belíssimo. Em “Taboada”, o clima volta a ser melancólico, novamente a orquestra completa é chamada em primeiro plano. Uma das mais lindas canções de Joubert de Carvalho é “Dor”, registrada aqui com grande delicadeza, em arranjo alternando entre o brejeiro e o barroco, com acordeons e os vibrafones passeando pelo ar e a melodia revelando o compositor também como grande poeta: “...diz alguém, que não tens morada / que andas aqui e acolá, qual paloma abandonada / onde moras, dor cruel pungente? / é na casa da saudade, onde vive tanta gente...”

“Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá...” “Cantigas da Minha Terra” fecha o disco com Paulo Tapajós cantando em meio a flautas, solos de harpa e vozes femininas. “Minha terra tem cantigas nas ruas em profusão / Que o vento passando leva diretas pro coração...” É de se orgulhar de ser Brasileiro!


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01 Olha-me Bem nos Olhos [Joubert de Carvalho, Aldemar Tavares] canção
02 Hula [Joubert de Carvalho, Olegário Mariano] valsa
03 Nhá Maria [Joubert de Carvalho] tanguinho
04 Maringá [Joubert de Carvalho] canção
05 De Papo Pro Á [Joubert de Carvalho, Olegário Mariano] cateretê
06 Taboada [Joubert de Carvalho, Adelmar Tavares] canção
07 Dor [Joubert de Carvalho] canção
08 Cantigas de Minha Terra [Joubert de Carvalho] canção

Orquestra, Côro e Pequeno Conjunto regidos pelo Maestro Léo Peracchi

18/11/2008

Daisy Guastini 1959 Compacto-Duplo 45 rpm [Arpége AEP 1003]

Foi dito que a voz humana é o mais belo instrumento musical que existe. Humildemente confirmamos a afirmação. No entanto, é triste descobrir que o descaso histórico com nossa produção musical, tenha relegado vozes como a de Daisy Guastini a um incompreensível esquecimento. Um atentado à cultura... Ainda bem que há pessoas obstinadas nas tarefas de redescoberta e de tornar acessíveis tais tesouros musicais. Discos como este, esquecidos em coleções particulares, ou sebos empoeirados, ficariam para sempre como objetos inúteis se decompondo no tempo. Usando a tecnologia do presente para resgatar a música do passado, prestamos serviço incontestável para a preservação da nossa própria cultura musical.

Temos aqui mais um tesouro: a voz de Daisy Guastini. Cantora nascida no estado de Minas Gerais, que iniciou sua carreira nos anos 50, como locutora e radioatriz da Rádio Inconfidência, e apresentadora da TV Itacolomi, ambas emissoras de Belo Horizonte. Casou-se com o compositor e guitarrista Nazário Cordeiro, união que gerou a filha Daisy Cordeiro, também cantora. Atuou em emissoras do Rio de Janeiro e de São Paulo e gravou pelos selos Arpége e RGE. Daisy Guastini ainda se apresenta ao vivo, em 2005 organizou um tributo à grande Isaurinha Garcia.

Aqui, ela interpreta alguns sambas-canção sofridos com personalidade ao lado do conjunto do pianista Waldir Calmon, também dono do selo Arpége. Seu marido, o guitarrista Nazário Cordeiro comparece tocando guitarra elétrica e violão. Ao lado de um conjunto intimista, com repertório e arranjos apropriados, a voz da cantora cresce, num resultado de elegância e extremo bom gosto. Ouso dizer que está aqui a melhor versão já gravada para o clássico “O Que Tinha Que Ser”, de Antônio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes. Há ainda outra canção de Jobim “Esquecendo Você”, onde a cantora destila calma, a tristeza que irá “ter que aprender a viver sozinha na solidão... eu vou ter que passar minha vida esquecendo você...” e no meio do caminho o samba-canção arrastado vira um fox marcado pelo piano do Calmon, numa alegria inusitada.

De Fred Chateaubriand e Vinicius de Carvalho“Noite Triste Sem Ninguém” com belo arranjo para violão e piano - combinação difícil, que resulta em perfeição. A bossa de Daisy Guastini e a bela melodia completam a beleza: “...embora vendo-te presente, ao redor tudo desmente / o que os sonhos meus contém / é faz-de-conta somente / noite triste sem ninguém...” E o piano e o violão ainda solam, com um vibrafone discreto completando a maravilha.

Para não terminar o disquinho no completo baixo astral - apesar de belíssimo - há o samba-canção de José Braz de Andrade, o “Delé”, “Basta A Luz da Lua”, onde desta vez finalmente, o amor é correspondido, marcando a esperança de dias felizes. Vibrafone, violão e o piano na bossa perfeita de um conjunto de “cool samba-canção”, apenas como suporte luxuoso para a voz limpa e aveludada da Daisy Guastini: “...basta a luz da lua, pra iluminar a nossa estrada / tendo nos meus lábios, esta canção apaixonada / dentro do meu coração, as palavras que nascem com grande emoção / vem expressar com razão, toda grandeza de minha paixão... / e assim eu vou convencida / sonhando estar nesta vida / nos seus braços embalada / canção que me faz feliz / neste estribilho que diz / basta a luz da lua e não precisa de mais nada...” Sem palavras.

Daisy Guastini 1959 Compacto-Duplo 45 rpm [Arpége AEP 1003]

01 Porque Tinha de Ser [Antônio Carlos Jobim, Vinicius de Moraes] samba-canção
02 Noite Triste Sem Ninguém [Fred Chateaubriand, Vinicius de Carvalho] samba-canção
03 Esquecendo Você [Antônio Carlos Jobim] samba-canção
04 Basta a Luz da Lua [José Braz de Andrade "Delé"] samba-canção

Roberto Luna 1957 "Molambo" [Odeon BWB 1086]

Dono de um vozeirão Roberto Luna, nasceu em Serraria, Paraíba, em 01.12.1926, e era chamado de “uma voz para milhões”. Morando no Rio de Janeiro desde 1945, iniciou como cantor em teatro de revistas, logo se tornando crooner de diversas casas de shows na cidade. Em 1951 foi contratado pela Rádio Guanabara, depois também atuou nas rádios Globo, Mayrink Veiga e Nacional. Na mesma época gravou seus primeiros discos em 78 rpms. Versátil, se destacava tanto nos sambas carnavalescos, marchas e sincopados, como nos sambas-canção, boleros, tangos e canções românticas. Fez grande sucesso na década de 50, deixou fonogramas gravados na Star, Musidisc, Odeon, RGE e Philips.

Este disquinho saiu pela Odeon, quatro faixas em 45 rotações, e capinha especial com lettering do grande César G. Villela. Apenas uma das faixas já havia sido lançada anteriormente, “Molambo” de Jaime Florence e Augusto Mesquita, na mesma gravação, mas em versão estendida no disco de 10 polegadas “Uma Voz Para Milhões” [Odeon MODB 3063] lançado em 1956.

Nos arranjos, não creditado no disquinho, está o maestro Luiz Arruda Paes, conduzindo orquestra e côro com a destreza e o capricho que lhe era habitual. O repertório curiosamente passeia por canções que se imortalizaram em vozes femininas. “Molambo”, “Caminha” [de Rolando Candiano e Evaldo Ruy, sucesso na voz de Elizeth Cardoso], a famosa “Conselho” de Oswaldo Gulherme e Denis Brean, e a belíssima “Alucinação” samba-canção de Newton Teixeira e Macieira Nascimento. Um registro muito caprichado, dos melhores gravados por Roberto Luna.
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01 Molambo [Jayme Florence, Augusto Mesquita] samba-canção
02 Caminha [Rolando Candiano, Evaldo Ruy] samba-canção
03 Conselho [Denis Brean, Oswaldo Guilherme] samba-canção
04 Alucinação [Newton Teixeira, Macieira Nascimento] samba-canção

Orquestra e Côro regidos pelo Maestro Luiz Arruda Paes

17/11/2008

Carnaval em Bossa [BRLP 002]

Começamos com a reedição da coletânea “Carnaval em Bossa”, depois de muito tempo fora do ar, ela volta com nova capa e ajustes no som. Agradeço a paciência dos amigos que nunca deixaram de pedir pela reedição.

“Através da música, o Carnaval do passado pode ser revisto. Algumas das marchas e sambas carnavalescos que se tornaram célebres - na verdade a sua grande maioria - não atravessaram o tempo. É uma produção que ainda está a ser descoberta. O blog Bossa-Brasileira produziu uma coletânea, com exemplos deste rico painel musical, também uma indicação de pesquisa. Aqui, apenas um singelo exemplo, um pequeno painel do que de melhor foi gravado em música de Carnaval no Brasil. São em sua maioria marchinhas, alegres ou melancólicas e alguns sambas. Todos representantes legítimos do som que se fazia e se ouvia no Carnaval Brasileiro de outras épocas.”

“Uma das preferidas da casa Aurora Miranda comparece em quatro faixas, irresistível como sempre. Sua irmã Carmen Miranda, em três - incluindo a impagável “Good-bye” [de Assis Valente]. Há outra Carmen - a Barbosa - que bela voz ela revela e que sincopado! As Irmãs Pagãs também destilam sua beleza. E que dizer da voz de Lolita França em “Tahí” [Joubert de Carvalho]... Era a bossa de 1939... Há também os cantores, os obrigatórios Francisco Alves, Mário Reis, Almirante e Orlando Silva. Carlos Galhardo também é um dos preferidos da casa, ouçam “Mariposa” [de João da Baiana, Wilson Batista] e tirem suas próprias conclusões. A malandragem também não poderia ficar de fora, neste quesito temos Vassourinha, Noel Rosa ao lado de Marília Batista e a inacreditável Dora Lopes. Para não falarem que o samba é somente carioca temos também a graça de Isaurinha Garcia. Alguns dos melhores intérpretes e muitos dos melhores compositores: Assis Valente, Herivelto Martins, Benedito Lacerda, Ismael Silva, Noel Rosa, Lamartine Babo, Wilson Batista, Haroldo Barbosa, Custódio Mesquita, Antônio Almeida e outros, a lista é longa. Este é “Carnaval em Bossa”, um belo presente!”

“Carnaval em Bossa” [BRLP 002]

01 Lolita França “Pra Você Gostar de Mim [Tahi]” [Joubert de Carvalho] 1939
02 Aurora Miranda “Que Horas São Estas” [A. Almeida, O. Santiago] 1939
03 Almirante “História do Brasil” [Lamartine Babo] 1933
04 Dora Lopes “Velho Borocochô” [Dora Lopes, J. Batista, N. Viana] 1954
05 Almirante “Menina Oxigenê” [Hervê Cordovil, Lamartine Babo] 1933
06 Carmen Miranda “Good-Bye” [Assis Valente] 1932
07 Irmãs Pagãs “Água Mole em Pedra Dura” [M. Moreira, S. de Mello] 1939
08 Carmen Barbosa “Loteria do Amor” [Aldo Cabral, Benedito Lacerda] 1940
09 Orlando Silva “A Primeira Vez” [Marçal, Armando, Bide] 1940
10 Aurora Miranda “Quando a Lua Vem Saindo” [Alberto Ribeiro] 1938
11 Carlos Galhardo “Mariposa” [João da Baiana, Wilson Batista] 1940
12 Aurora Miranda “Não Vejo Jeito” [Ismael Silva] 1939
13 Carmen Miranda “E o Mundo Não Se Acabou” [Assis Valente] 1938
14 Dalva de Oliveira & Francisco Alves “Andorinha” [H Barbosa, H Martins] 1945
15 Aurora Miranda “Se a Lua Contasse” [Custódio Mesquita] 1933
16 Vassourinha “Chik Chik Bum” [Antônio Almeida] 1941
17 Carmen Miranda “Ao Voltar do Samba” [Sinval Silva] 1934
18 Carmen BarbosaNo Picadeiro da Vida” [B. Lacerda, H. Martins] 1937
19 Quatro Ases e Um CoringaMarcha do Caracol” [A. Teixeira, Peterpan] 1950
20 Mário ReisMais Uma Estrela” [B. de Oliveira, H. Martins] 1934
21 Francisco AlvesVai Meu Samba” [Custódio Mesquita] 1936
22 Isaurinha Garcia “O Sorriso do Paulinho” [Gastão Viana, Mário Rossi] 1942
23 Aurora Miranda “Mania de Malandro” [Herivelto Martins] 1938
24 Noel Rosa & Marília Batista “De Babado” [João Mina, Noel Rosa] 1936

16/11/2008

3 anos de Bossa-Brasileira!

Neste Novembro de 2008 o blog Bossa-Brasileira completa 3 anos. Vimos nascer e crescer um universo de blogs e sites enfocando a música brasileira de outros tempos, outros fecharam as portas e deixaram saudades. De nossa parte, concluímos que mesmo impossibilitados de uma grande freqüência de posts, possuímos admiradores fiéis, o que nos incentiva a continuar sempre, apesar de todas as dificuldades. O blog passou por mudanças, reformas, todos os links estão no ar e novos posts entrarão nos próximos dias. Um grande abraço a todos, e feliz aniversário!

19/08/2008

Lana Bittencourt 1955 "Lana Bittencourt" [Columbia LPCB 35017]

Este é o primeiro disco em formato long-playing, ainda em 10 polegadas, lançado por Lana Bittencourt, em 1955 via Columbia, com fonogramas lançados anteriormente em discos de 78 rotações de grande sucesso. A aceitação do formato LP era ainda modesta e algumas gravadoras preferiam reunir faixas já consagradas em um único produto melhor acabado, do que lançar novas gravações. Muitos artistas tiveram coletâneas de sucessos extraídos dos discos em 78 rpms, como seus primeiros LPs. O resultado era que o novo formato ia criando belas coleções, discos que atravessaram o tempo, preservando a estranha beleza que a música brasileira possuía na época.

Em 1955 a gravadora Columbia possuía um dos melhores estúdios de gravação do país, já familiarizado com o sistema em alta-fidelidade, em uso nos Estados Unidos desde o início da década. A qualidade do registro pode ser percebida em pequenos detalhes como o brilho na voz e nos demais instrumentos, a percussão em destaque e os arranjos orquestrais em profusão impressionante. O que os engenheiros de som conseguiam com os recursos e o sistema da época é de causar espanto.

Lana Bittencourt [nome artístico de Irlan Figueiredo Passos] foi cantora de grandes sucessos, conhecida pela voz perfeita em timbre forte, derramada em sambas e canções internacionais. Estrela das rádios Tupi e da Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro, chegou a ter um programa exclusivo na TV Paulista, em São Paulo. Em discos estreou em 1954 pela gravadora Todamérica, passando para a Columbia no ano seguinte, onde permaneceu por muitos anos. Atua até hoje em discos e shows.

Temos aqui os primeiros grandes sucessos de Lana Bittencourt, em uma coleção elegante, a começar pela belíssima capa. Dos primeiros acordes da orquestra em “Malagueña”, fantasia espanhola de Ernesto Leucona, versão em português de Julio Nagib, até o último suspiro do samba-choro “Porque É” de Milton Legey e Paulo Menezes, temos o privilégio de acompanhar a essa bela voz brasileira passeando por oito paisagens musicais. Destaque para a versão em português, também de Julio Nagib, para “Johnny Guitar”, grande sucesso internacional de Victor Young, trilha-sonora do filme homônimo, com arranjos incríveis do maestro Renato de Oliveira, com direito a solo de clarinete. Mas há também o belo samba-canção de Ricardo Galeno “Quem Se Humilha”; outra fantasia de Ernesto Leucona em versão de Julio Nagib, “Andalúcia” em belíssimo arranjo, destaque para a cascata de melodia promovida pela orquestra; e o samba-sincopado [seria uma pré-bossa nova em 1955?] “Pobre Menino Rico”, de Vargas Jr. e Oscar Bellandi, com letra mais que atual: “Pobre menino rico, da zona sul da cidade / embora tenhas de tudo, não tens a felicidade / não jogas bola de gude não sabes rodar pião / não podes pisar descalço a terra seca do chão...” Coisa finíssima!

Lana Bittencourt 1955 “Lana Bittencourt” [Columbia LPCB 35017]

01 Malagueña [Ernesto Lecuona, versão Julio Nagib] fantasia espanhola
02 Johnny Guitar [V. Young, versão Julio Nagib] bolero
03 Quem Se Humilha [Ricardo Galeno] samba-canção
04 Andalúcia [Ernesto Lecuona, versão Julio Nagib] rumba
05 Vai [Go] [R. Evans, A. Aristone, versão Nazareno de Brito] fox
06 Pobre Menino Rico [Vargas Jr., Oscar Bellandi] samba
07 Juca [Haroldo Barbosa] fox
08 Porque É [Milton Legey, Paulo Menezes] samba-choro

Para mais Lana Bittencourt, visite o Bossa-Filmes onde há imagens raras da cantora em 1960, aqui.

10/08/2008

Roberto Inglez 1954 "Um Programa com Roberto Inglez" [Odeon LDS 20.007]

Simplesmente fantástico, este LP foi lançado no Brasil em 1954 pela Odeon no formato de 10 polegadas. À primeira vista pode parecer mais um disco no estilo dos de orquestras de danças, que fizeram muito sucesso e hoje ressurgem nos sites que disponibilizam LPs antigos, mas pelo contrário, “Um Programa com Roberto Inglez” é uma preciosidade musical e de colorido inédito.

Roberto Inglez - na verdade Robert Inglis - nasceu na Escócia em 1913 e aprendeu piano aos 5 anos de idade, aos 15 já possuía o seu próprio conjunto. De origem simples, estudou e chegou a trabalhar como dentista durante o dia e como maestro à noite. Mas o talento musical falou mais alto. Em 1937, estudando regência na Royal Academy of Music em Londres, conhece o maestro Edmundo Ros, membro na época da Don Marino Barreto’s Cuban Orchestra, especializada em música latina. Quando Edmundo Ros deixou Don Marino para formar sua própria orquestra, recrutou Robert, sugerindo o nome artístico Roberto Inglez - já que ele seria o único britânico na formação. Sua estadia ali durou pouco e logo partiu para formar sua orquestra. Com a Segunda Guerra Mundial, a produção artística na Europa é praticamente interrompida e as primeiras gravações profissionais só surgem no final de 1945. No ano seguinte, Roberto Inglez é contratado pelo Hotel Savoy, casa do famoso pianista Carrol Gibbons, e um dos mais sofisticados hotéis de Londres.

Seus discos foram lançados pela Parlophon britânica, pela Coral americana e pelas associadas Odeon na Espanha e no Brasil, e venderam grandes quantidades de 78 rpms e long-playings. Todas as suas gravações trazem a paixão pelos rítmos latinos, especialmente os brasileiros. Em 1952, veio ao Brasil pela primeira vez e liderou uma orquestra de músicos brasileiros com 30 integrantes, em apresentações no Rio de Janeiro [quatro semanas no Hotel Casablanca] e em São Paulo [duas semanas no Hotel Lord]. Diz a lenda que nesta ocasião acompanhou as primeiras apresentações da iniciante Ângela Maria. De volta à Londres, Dalva de Oliveira foi estrela de seu set por duas semanas no Hotel Savoy, encontro que fez nascer 17 registros antológicos lançados no Brasil em LPs da Odeon. Em 1954, casou-se e foi morar no Chile, formando lá a Roberto Inglez y su Orchestra Romanza. Voltou ao Brasil em outras temporadas e para mais gravações na Odeon, se retirando dos meios musicais no início dos anos 60. Faleceu em 1978 na capital Chilena, Santiago.

Este é provavelmente o seu quinto LP no formato 10 polegadas, os outros neste formato, foram lançados nos Estados Unidos pelo selo Coral a partir de 1951. Aqui, o repertório de primeira, é executado com brilho e vigor, em gravação excelente para os padrões técnicos da época. O piano econômico, pinçando notas no silêncio, contribui para a beleza geral e faz pensar: teria Roberto Inglez ajudado a criar o estilo largamente difundido no Brasil com Waldir Calmon, Britinho, José Luciano, indo até João Donato e claro, chegando a Antônio Carlos Jobim?
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O LP abre com uma versão arrasadora do baião “Delicado” de Waldir Azevedo, com direito a chuva de sopros e cordas, numa aula de arranjo. “Mano Generosa” [Texldor] coloca cha-cha-cha na mistura e um solo de trompete com surdina - coisa incrível. O samba-canção “Distância” de Marino Pinto e Mário Rossi, acalma o ambiente e por segundos pensamos que o disco voltará ao padrão musical que estamos acostumados - até a melodia ser levada ao espaço por detalhes fantásticos, beleza indescritível. O tempo fecha de novo, e bongôs anunciam “Marroco” [Fields, Shaw], melodia árabe em roupagem latina, encontro inusitado com metais e sopros em primeiro plano. Em “Calla, Calla” [Samuels] aparecem cavaquinhos e a melodia, dessa vez judaica, vira um sambão de orquestra, com palmas e solos de metais. É de espantar como ficou bonito. “Raminay” [Lawrence, Fain] traz o piano pontuando belos desenhos da melodia, que é desconstruída pela orquestra num crescendo até a explosão final. Em seguida, o baião “Kalú” de Humberto Teixeira, também ganha belo arranjo. O rítmo acelera com “Sururu” [do maestro Lôro], piano em primeiro plano em meio às cascatas melódicas promovidas pela orquestra, percussão pesada e novamente cavaquinho. “Heart and Soul” [Carmicael] beguine muito famoso na época, é suave, melodia deslizando pelo espaço sendo moldada com delicadeza, sem repetir uma única frase. O set encerra com “Brasileirinho” de Waldir Azevedo, acelerada e com estranho colorido. O silêncio final é ainda mais vazio, o que parecia ser uma salada sonora deixa saudade... só resta ouvir tudo novamente... e pensar: Bravo Maestro!
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01 Delicado [Waldir Azevedo] baião
02 Mano Generosa [Texldor] canção
03 Distância [Marino Pinto, Mário Rossi] bolero
04 Marocco [Fields, Shaw] rumba
05 Calla, Calla [Samuels] samba
06 Raminay [Lawrence, Fain] canção
07 Kalú [Humberto Teixeira] baião
08 Sururú [Lôro] samba
09 Heart and Soul [Carmichael] beguine
10 Brasileirinho [Waldir Azevedo] chôro

09/08/2008

Chiadofone!

Espantamos a poeira para anunciar mais um blog de conteúdo na rede, é o Chiadofone, produzido em São Paulo por um time de apaixonados pela música brasileira de outros tempos. “O selo discográfico português Chiadofone, encontrado por acaso num site russo nos idos de 2005, circulou no início do século XX e é o mote deste blog sobre música popular brasileira registrada nos chiados dos discos de 76 e 78 rpm.” é o texto que os apresenta. No interior muita informação e boa música, bons textos, e raridades como as primeiras gravações de Silvinha Telles, gravações raras de Denise Duran, irmã de Dolores Duran... Um blog de primeira, vida longa!