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20/02/2011

Délora Bueno “Cânticos Brasileiros” 1955 [Odeon LDS 3009]



Você provavelmente nunca leu o nome de Délora Bueno em livros ou ouviu seu nome citado nas conversas sobre música brasileira, mas ela foi dona de uma bela voz, dedicou sua vida a música e teve sua parcela de importância na história da nossa música popular.

Délora Bueno foi uma das primeiras artistas brasileiras reconhecidas fora do Brasil. Filha de pai brasileiro [pianista] e mãe norte-americana, nasceu nos Estados Unidos mas cresceu e se educou no Brasil entre o Rio de Janeiro, Salvador, Recife e Minas Gerais, naturalmente absorvendo toda essa diversidade cultural. No Rio de Janeiro, estudou piano na Escola Nacional de Música. Em 1944, voltou com a família para os Estados Unidos e continuou a estudar piano e canto no Juilliard School de Nova York.

Na década de 1940 nos Estados Unidos, havia outra cantora brasileira fazendo muito sucesso, a estrela de cinema Carmen Miranda, que encantava os americanos com sua mistura ingênua de graça, sensualidade, deboche e caricatura. Os americanos, claro, queriam mais, e numa América rendida pela “pequena notável”, Délora Bueno acabou na mira dos executivos da indústria musical. Ela já vinha se destacando nas salas de concerto e em aparições no rádio, sempre apresentando nossa música, logo comandava também um programa na TV com 15 minutos de duração no ano de 1949, antes mesmo da TV estrear no Brasil.

O “Délora Bueno Show” fez sucesso, com ela a vontade em frente as câmeras. Logo expandiram o programa para 30 minutos, rebatizado de “Flight to Rhythm”. Num cenário de boate fictícia o “Club Rio”, Délora agora dividia o microfone com o cantor Miguelito Valdez, uma orquestra, dançarinos e atores que interagiam com os cantores-apresentadores. No programa, Délora também cantava músicas do repertório de Carmen Miranda...

Ela sabia que só sobreviveria se mostrasse seu próprio valor. Eram tempos em que não existiam artistas fabricados, tinha que se ter talento, e muito talento para se sobressair. Assim, Délora Bueno se destacou com seu talento genuíno, incorporou à sua música elementos folclóricos e deixou de lado o deboche. Foi solista em grandes orquestras como a de Paul Whiteman, a da Força Aérea dos Estados Unidos e da Banda da Marinha Norte-Americana.

Neste disco o contralto delicado de Délora Bueno é registrado em sua melhor forma, gravado no Brasil pela gravadora Odeon em 1955. O repertório é impecável, os arranjos incríveis e a voz doce de Délora, perfeita. “...é difícil, tão difícil separar dois coração...”

O resultado é genial, com a elegância peculiar das gravações brasileiras na década de 1950. Délora Bueno é acompanhada por orquestra, coro e conjunto regional - infelizmente não creditados. O disco abre com a belíssima valsa amazônica “Tambatajá” de Waldemar Henrique em gravação definitiva. Continua nas brejeiras “Óia o Sapo”, “Toca-Toca”, “Pingo Dágua” e “Tayeiras” retiradas do folclore. “Cobra Grande” é outra belíssima valsa amazônica de Waldemar Henrique, também em gravação definitiva; de sabor psicodélico, com a orquestra desenhando paisagens de sonhos - no caso de pesadelo. O gosto de interior do Brasil aparece nas famosas “Maringá” do mestre Joubert de Carvalho e “Casinha Pequenina” [tradicional] com destaque para o acordeon. É de se emocionar. Para fechar o disco, Délora convida a galopar com Ary Barroso em “Meu Trolinho”. Com arranjos de metais em brasa, letras alternando inglês e português e percussão marcada, “Meu Trolinho” remete à Carmen Miranda e aumenta uma certa impressão circense que acompanha todo disco, como que lembrando que é necessário ser um pouco criança para entender e se apaixonar pelo universo musical da Délora Bueno.



Délora Bueno “Cânticos Brasileiros” 1955 [Odeon LDS 3009]


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01 Tambatajá [Waldemar Henrique] canção amazônica
02 Óia o Sapo [tradicional] canção
03 Toca-Toca [tradicional] canção
04 Pingo D'água [Osvaldo de Souza] canção
05 Cobra Grande [Waldemar Henrique] canção amazônica
06 Maringá [Joubert de Carvalho] canção
07 Tayeiras [tradicional]
08 Casinha Pequenina [tradicional]
09 Upa! Upa! Meu Trolinho [Ary Barroso] marcha


Este disco é um presente do site Bossa-Brasileira e não pode ser comercializado.

Para ouvir outro belo disco de Délora Bueno, lançado em 1962, visitem a página do meu amigo Simon Boutman, que voltou a editar o seu excelente site, o Unbreakable Microgooves para nossa alegria.

18/11/2008

Roberto Luna 1957 "Molambo" [Odeon BWB 1086]

Dono de um vozeirão Roberto Luna, nasceu em Serraria, Paraíba, em 01.12.1926, e era chamado de “uma voz para milhões”. Morando no Rio de Janeiro desde 1945, iniciou como cantor em teatro de revistas, logo se tornando crooner de diversas casas de shows na cidade. Em 1951 foi contratado pela Rádio Guanabara, depois também atuou nas rádios Globo, Mayrink Veiga e Nacional. Na mesma época gravou seus primeiros discos em 78 rpms. Versátil, se destacava tanto nos sambas carnavalescos, marchas e sincopados, como nos sambas-canção, boleros, tangos e canções românticas. Fez grande sucesso na década de 50, deixou fonogramas gravados na Star, Musidisc, Odeon, RGE e Philips.

Este disquinho saiu pela Odeon, quatro faixas em 45 rotações, e capinha especial com lettering do grande César G. Villela. Apenas uma das faixas já havia sido lançada anteriormente, “Molambo” de Jaime Florence e Augusto Mesquita, na mesma gravação, mas em versão estendida no disco de 10 polegadas “Uma Voz Para Milhões” [Odeon MODB 3063] lançado em 1956.

Nos arranjos, não creditado no disquinho, está o maestro Luiz Arruda Paes, conduzindo orquestra e côro com a destreza e o capricho que lhe era habitual. O repertório curiosamente passeia por canções que se imortalizaram em vozes femininas. “Molambo”, “Caminha” [de Rolando Candiano e Evaldo Ruy, sucesso na voz de Elizeth Cardoso], a famosa “Conselho” de Oswaldo Gulherme e Denis Brean, e a belíssima “Alucinação” samba-canção de Newton Teixeira e Macieira Nascimento. Um registro muito caprichado, dos melhores gravados por Roberto Luna.
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01 Molambo [Jayme Florence, Augusto Mesquita] samba-canção
02 Caminha [Rolando Candiano, Evaldo Ruy] samba-canção
03 Conselho [Denis Brean, Oswaldo Guilherme] samba-canção
04 Alucinação [Newton Teixeira, Macieira Nascimento] samba-canção

Orquestra e Côro regidos pelo Maestro Luiz Arruda Paes

10/08/2008

Roberto Inglez 1954 "Um Programa com Roberto Inglez" [Odeon LDS 20.007]

Simplesmente fantástico, este LP foi lançado no Brasil em 1954 pela Odeon no formato de 10 polegadas. À primeira vista pode parecer mais um disco no estilo dos de orquestras de danças, que fizeram muito sucesso e hoje ressurgem nos sites que disponibilizam LPs antigos, mas pelo contrário, “Um Programa com Roberto Inglez” é uma preciosidade musical e de colorido inédito.

Roberto Inglez - na verdade Robert Inglis - nasceu na Escócia em 1913 e aprendeu piano aos 5 anos de idade, aos 15 já possuía o seu próprio conjunto. De origem simples, estudou e chegou a trabalhar como dentista durante o dia e como maestro à noite. Mas o talento musical falou mais alto. Em 1937, estudando regência na Royal Academy of Music em Londres, conhece o maestro Edmundo Ros, membro na época da Don Marino Barreto’s Cuban Orchestra, especializada em música latina. Quando Edmundo Ros deixou Don Marino para formar sua própria orquestra, recrutou Robert, sugerindo o nome artístico Roberto Inglez - já que ele seria o único britânico na formação. Sua estadia ali durou pouco e logo partiu para formar sua orquestra. Com a Segunda Guerra Mundial, a produção artística na Europa é praticamente interrompida e as primeiras gravações profissionais só surgem no final de 1945. No ano seguinte, Roberto Inglez é contratado pelo Hotel Savoy, casa do famoso pianista Carrol Gibbons, e um dos mais sofisticados hotéis de Londres.

Seus discos foram lançados pela Parlophon britânica, pela Coral americana e pelas associadas Odeon na Espanha e no Brasil, e venderam grandes quantidades de 78 rpms e long-playings. Todas as suas gravações trazem a paixão pelos rítmos latinos, especialmente os brasileiros. Em 1952, veio ao Brasil pela primeira vez e liderou uma orquestra de músicos brasileiros com 30 integrantes, em apresentações no Rio de Janeiro [quatro semanas no Hotel Casablanca] e em São Paulo [duas semanas no Hotel Lord]. Diz a lenda que nesta ocasião acompanhou as primeiras apresentações da iniciante Ângela Maria. De volta à Londres, Dalva de Oliveira foi estrela de seu set por duas semanas no Hotel Savoy, encontro que fez nascer 17 registros antológicos lançados no Brasil em LPs da Odeon. Em 1954, casou-se e foi morar no Chile, formando lá a Roberto Inglez y su Orchestra Romanza. Voltou ao Brasil em outras temporadas e para mais gravações na Odeon, se retirando dos meios musicais no início dos anos 60. Faleceu em 1978 na capital Chilena, Santiago.

Este é provavelmente o seu quinto LP no formato 10 polegadas, os outros neste formato, foram lançados nos Estados Unidos pelo selo Coral a partir de 1951. Aqui, o repertório de primeira, é executado com brilho e vigor, em gravação excelente para os padrões técnicos da época. O piano econômico, pinçando notas no silêncio, contribui para a beleza geral e faz pensar: teria Roberto Inglez ajudado a criar o estilo largamente difundido no Brasil com Waldir Calmon, Britinho, José Luciano, indo até João Donato e claro, chegando a Antônio Carlos Jobim?
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O LP abre com uma versão arrasadora do baião “Delicado” de Waldir Azevedo, com direito a chuva de sopros e cordas, numa aula de arranjo. “Mano Generosa” [Texldor] coloca cha-cha-cha na mistura e um solo de trompete com surdina - coisa incrível. O samba-canção “Distância” de Marino Pinto e Mário Rossi, acalma o ambiente e por segundos pensamos que o disco voltará ao padrão musical que estamos acostumados - até a melodia ser levada ao espaço por detalhes fantásticos, beleza indescritível. O tempo fecha de novo, e bongôs anunciam “Marroco” [Fields, Shaw], melodia árabe em roupagem latina, encontro inusitado com metais e sopros em primeiro plano. Em “Calla, Calla” [Samuels] aparecem cavaquinhos e a melodia, dessa vez judaica, vira um sambão de orquestra, com palmas e solos de metais. É de espantar como ficou bonito. “Raminay” [Lawrence, Fain] traz o piano pontuando belos desenhos da melodia, que é desconstruída pela orquestra num crescendo até a explosão final. Em seguida, o baião “Kalú” de Humberto Teixeira, também ganha belo arranjo. O rítmo acelera com “Sururu” [do maestro Lôro], piano em primeiro plano em meio às cascatas melódicas promovidas pela orquestra, percussão pesada e novamente cavaquinho. “Heart and Soul” [Carmicael] beguine muito famoso na época, é suave, melodia deslizando pelo espaço sendo moldada com delicadeza, sem repetir uma única frase. O set encerra com “Brasileirinho” de Waldir Azevedo, acelerada e com estranho colorido. O silêncio final é ainda mais vazio, o que parecia ser uma salada sonora deixa saudade... só resta ouvir tudo novamente... e pensar: Bravo Maestro!
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01 Delicado [Waldir Azevedo] baião
02 Mano Generosa [Texldor] canção
03 Distância [Marino Pinto, Mário Rossi] bolero
04 Marocco [Fields, Shaw] rumba
05 Calla, Calla [Samuels] samba
06 Raminay [Lawrence, Fain] canção
07 Kalú [Humberto Teixeira] baião
08 Sururú [Lôro] samba
09 Heart and Soul [Carmichael] beguine
10 Brasileirinho [Waldir Azevedo] chôro

23/03/2008

Norberto Baldauf e Seu Conjunto 1960 "Encontro Dançante" [Odeon MOFB 3137]


Este disco com o Conjunto do Norberto Baldauf é um pequeno tesouro perdido. Foi gravado pela Odeon em 1960, quando o conjunto gaúcho já era bastante conhecido e tinha vários discos lançados. “Encontro Dançante” a primeira vista parece um disco comum, no padrão da época. O repertório é incrível, com músicas que então faziam sucesso e até números da bossa nova, como “Este Seu Olhar”, “Brigas Nunca Mais” e uma belíssima versão de “Eu Sei Que Vou Te Amar” todas de Antônio Carlos Jobim, sendo que as duas últimas com letras de Vinicius de Moraes. Vale destacar ainda as latinas “La Barca”, “El Bodeguero” e também a italiana e divertida “Scapricciatiello”.

“Encontro Dançante” impressiona pela técnica, variedade e criatividade do conjunto e também pela sonoridade do registro em estúdio. Há som de órgão com Solovox, guitarra elétrica, piano vigoroso, acordeon, baixo marcante, ritmo sincopado e um eventual coro. São elementos simples que tomam dimensões inesperadas. Pode-se ouvir a satisfação dos músicos ao interpretar com tanto brilho e força canções mesmo singelas, que se tornam quase brincadeira irresistível de dança. Aliás, é um disco “Para Dançar” conforme se dizia na época, de primeiríssima qualidade...



01 Bom Que Dói [Luis Bonfá]
02 La Barca [Roberto Cantoral]
03 A Certain Smile [Paul Francis Webster, S. Fain]
04 Este Seu Olhar [Antônio Carlos Jobim]
05 Tu Me Acostumbraste [F. Dominguez]
06 To The Ends Of The Earth [J. Sherman, N. Sherman]
07 Scapricciatiello [F. Albano, P. Vento]
08 Da Cor do Pecado [Bororó]
09 El Bodeguero [E. R. Egues]
10 Brigas Nunca Mais [Antônio Carlos Jobim, Vinicius de Moraes]
11 Non Dimenticar [P. G. Redi, M. Galdieri]
12 Eu Sei Que Vou Te Amar [Antônio Carlos Jobim, Vinicius de Moraes]

07/11/2007

"Os Duetos de Francisco Alves e Mário Reis" 1930 - 1932 Odeon [MODB 3075]


Já foi dito que o Brasil é um país de cantores. Olhando para trás, no caleidoscópio histórico dos grandes ídolos da voz, temos a confirmação. A introdução do rádio e sua grande influência na vida das pessoas tornaram possível o surgimento de fenômenos de popularidade em massa - alguns deles com a aura de “vozes de ouro” do rádio. Eram tempos em que a produção podia ser permeada pela qualidade artística do que se ouvida nos aparelhos. Nenhuma destas vozes porém teve o mesmo efeito no coração brasileiro como a voz , digamos, fenomenal de Francisco Alves. Ele foi o primeiro grande ídolo do rádio e do disco, esteve presente na formação do teatro e do cinema por aqui. Sem intenção, criou uma escola de influência direta em todo o desenvolvimento da música brasileira. Foi um artista de ouvido apurado, afinação e timbres perfeitos e de bom gosto impecável. Compositor importante, ao lado das boas histórias de que “inventava” parcerias, ou mesmo as comprava, há também provas que ele realmente chegou a alterar tempos, compassos e corrigir as composições de seu agrado sem pedir participação na edição. Há também histórias envolvendo sua relação por vezes autoritária com seus “colaboradores”, como os amigos e companheiros de boemia Noel Rosa e Ismael Silva. Menino pobre, Francisco Alves foi engraxate, cresceu trabalhando em uma fábrica de chapéus, convivendo com boêmios e sambistas. Não assinava contratos, preferindo empenhar a palavra, era admirado por todos os seus colegas de profissão e ganhou o apelido de “Chico Viola, o Rei da Voz”.

Mesmo tendo iniciado a trajetória artística um tanto depois, foi Mário Reis quem primeiro colocou a cadência necessária ao samba, mais tarde absorvida por Chico. No texto de contra capa deste disco, Lúcio Rangel afirma: “apesar de mais novo em idade e em arte, foi Mário Reis quem exerceu influencia sobre a maneira de cantar de seu companheiro mais velho, como aliás, sobre todos os cantores da época, que moderaram os seus impulsos para o bel canto e passaram a pronunciar as palavras, interpretando dentro do ritmo exigido.” Levado pelo compositor Sinhô aos estúdios, Mário Reis teve também grande sucesso e deixou gravações históricas.

A gravadora Odeon valendo-se da amizade entre seus maiores cantores, lançou uma série de discos em 78 rotações com eles cantando em dueto. Era o início dos anos 30 e o resultado foi pouco mais de 11 discos antológicos. Além das duas vozes distintas que interagem entre si criando efeitos inesperados, a música que as acompanha não é menos sublime. Segundo Lúcio Rangel, os conjuntos “eram todos eles constituídos pelos mesmos músicos, alguns dos melhores da época: o pistonista Djalma, o trombonista Ismerino Cardoso, o pianista Romualdo Peixoto [Nonô], o baterista Walfrido Silva, o violonista Arthur Nascimento [Tute] e Luperce Miranda, mestre do cavaquinho e do bandolin. Outros instrumentistas estão presentes mas os que enumeramos eram constantes em todos os conjuntos que acompanhavam a dupla. O discófilo de ouvido apurado poderá reconhecer no côro, em diversos números, as vozes de Noel Rosa, Ismael Silva e Nilton Bastos.” Incrível... Logo após as primeiras gravações da dupla, um conjunto chamado “Ases do Samba” foi criado pelos dois cantores mais Lamartine Babo. Com este grupo, sem Lamartine, porém com Nonô, Noel Rosa e o bandolinista Peri Cunha, partiram em Março de 32 para uma excursão ao sul do país, se apresentando com grande êxito em Curitiba, Porto Alegre, e até mesmo em Florianópolis.

Este disco de 10 polegadas, lançado em 1955, reúne algumas destas gravações. Sambas e marchas eternos como “Formosa” de Nássara e J. Ruy, “Se Você Jurar” de Francisco Alves, Ismael Silva e Nilton Bastos e “Fita Amarela” de Noel Rosa. Sambas que foram famosos na época, como “Estamos Esperando” de Noel Rosa, “Mas Como... Outra Vez?” de Noel em parceria com Francisco Alves, num belo arranjo que começa como marcha e termina como um fox irado; e minha favorita “Tudo Que Você Diz” uma bela e moderna melodia de Noel Rosa, ainda mais realçada pelas vozes de Mário Reis e Francisco Alves. Há ainda “Marchinha do Amor” de Lamartine Babo e mais dois sambas do trio Francisco Alves, Ismael Silva e Nilton Bastos: “Não Há” e “Arrependido”. É uma grande alegria disponibilizarmos este disco, como escreveu Lúcio Rangel: Francisco Alves e Mário Reis, a maior dupla de cantores da nossa música popular, anos depois de gravarem seus históricos discos, continuam a despertar a mesma emoção, a mesma alegria, tal encanto de suas interpretações, tal beleza que sabiam imprimir aos números que, em boa hora, registraram para a posteridade.”

Os Duetos de Francisco Alves e Mário Reis
1955 Odeon [MODB 3075]

01 Marchinha do Amor [Lamartine Babo] marcha 1931
02 Fita Amarela [Noel Rosa] samba 1932
03 Formosa [Nássara, J. Ruy] marcha 1932
04 Se Você Jurar [Francisco Alves, Ismael Silva, Nilton Bastos] samba 1930
05 Mas Como... Outra Vez? [Francisco Alves, Noel Rosa] marcha 1932
06 Arrependido [Francisco Alves, Ismael Silva, Nilton Bastos] samba 1931
07 Estamos Esperando [Noel Rosa] samba 1932
08 Tudo Que Você Diz [Noel Rosa] samba 1932
09 Não Há [Francisco Alves, Ismael Silva, Nilton Bastos] samba 1930

24/04/2007

Melodias Imortais com Pattápio Silva [BRLP 003]

Há exatos cem anos, falecia em Florianópolis, capital de Santa Catarina, um dos maiores músicos que o Brasil já teve. Pattápio Silva era seu nome. Viveu pouco, apenas 27 anos. A maior parte deles, dedicados à música.

Em seu tempo Pattápio, ou Patápio [os dois t's foram abolidos com o passar dos anos], foi considerado um fenômeno musical espantoso, e se tornou mestre de seus mestres. Mais do que virtuose em seu instrumento, a flauta, Pattápio provaria ser um artista extremamente sensível e inspirado, e também um compositor completo. Sua música possuía uma beleza misteriosa, a imprensa de seu tempo atestou: “gênio igual, não mais apareceria neste século”.

Por ocasião do centenário da morte do flautista, o jornal Diário Catarinense, em seu caderno de cultura, publicou uma bela reportagem escrita pelo jornalista Maurício Oliveira, detalhando a passagem de Pattápio Silva pela cidade. A matéria na íntegra pode ser lida aqui. Foram incluídas também, imagens raras pertencentes ao acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina.

O músico, em fotografia de Valério Vieira.

Pattápio Silva nasceu na vila de Itaocara, no Rio de Janeiro em 22 de Outubro de 1880. Sua família era simples, o pai barbeiro. O menino que aos 12 anos já trabalhava ao lado do pai, ganhava respeito e admiração dos colegas da pequena vila, tirando som de canudos de madeira ou bambus, com apenas 5 furos. Tocava no intervalo do trabalho e logo a barbearia se via lotada: “Aquêle pobre instrumento serviu para grande reclame, não só dos negociantes do tal artigo, que passou a ser vendido em grande escala a todos os meninos, como também, para demonstrar a grande vocação de Pattápio.” - escreveu seu irmão Cícero Menezes em curta biografia publicada em 1953.

“Com apenas 26 anos Patápio era um célebre concertista, condição que alcançara ao se destacar como aluno do curso de flauta do Instituto Nacional de Música, do Rio de Janeiro, a mais importante escola do gênero no país à época.” – escreve Maurício Oliveira. O jornalista descreve as circunstâncias de sua morte repentina, incluindo fatos pouco esclarecidos até hoje. Mas omite a informação de que os bens do músico [incluindo roupas, flautas e partituras] foram leiloados na capital Catarinense, para pagar uma dívida abusiva cobrada pelo dono do Hotel do Comércio – o prédio está em pé até hoje [foto abaixo] - relacionada a despesas com hospedagem e tratamento médico. Seu enterro na Capital Catarinense no entanto, teve honras de Estado e foi acompanhado por uma multidão comovida. A notícia abalou a pequena cidade que não chegou a ver o famoso músico se apresentar, e também chocou o país. Mais tarde seu padrasto conseguiu recuperar parte destes bens, pagar definitivamente a dívida e fazer o translado do despojos para o Rio de Janeiro.

Fachada do antigo Hotel do Comércio, centro de Florianópolis - hoje.

O gênio de Pattápio Silva ainda teve tempo de fazer as primeiras gravações de um instrumentista solo do país, para a Casa Edison, no selo Odeon. Deixou pouco mais que 15 músicas lançadas em discos de 78 rpms, gravadas a partir de 1904 até o ano de sua morte, 1907. Registro único da dimensão do que foi a sua arte. Pattápio sofreu por conseqüência de sua posição como músico excepcional. No ano de sua morte, estava magoado e sentia-se desiludido com a sociedade musical a que pertencia. Muito jovem ainda, mulato e de origem humilde, ele não era levado a sério pelos maestros e professores, até estes o ouvirem tocar. Foi ovacionado nos salões e banquetes elegantes, mas teve problemas financeiros por toda a vida. Dominou o seu instrumento, mas o julgava imperfeito, a flauta não lhe oferecia todos os recursos e queria mudá-la para que pudesse executar plenamente sua música. Pretendia visitar fábricas na Europa e assim, tentar aperfeiçoar o instrumento. Para bancar a viagem, iniciou uma turnê de excepcional sucesso por diversas cidades entre o Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, e finalmente Santa Catarina. Era o auge e o fim de sua curta, mas espantosa trajetória.

Selo do disco com a música "Só Para Moer" na Odeon.

O Bossa-Brasileira reuniu 12 gravações históricas de Pattápio Silva nesta coleção, todas realizadas para a Casa Edison. Composições para flauta e piano, algumas eruditas, outras populares, numa fusão estética que só um artista genial como Pattápio Silva poderia executar.

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Melodias Imortais com Pattápio Silva

01 Variações de Flauta [Pattápio Silva]
02 Serenata Oriental [Ernesto Kohln]
03 Noturno [Pattápio Silva]
04 Só Para Moer [Viriato Figueira da Silva]
05 Serenata d'Amore [Pattápio Silva]
06 Alvorada das Rosas [Júlio Reis]
07 Serenata [Gaetano Braga]
08 Primeiro Amor [Pattápio Silva]
09 Dueto Para Flauta e Violino [Pattápio Silva] com Serpa ao violino
10 O Sonho [Pattápio Silva]
11 Serenata de Schubert [Franz Schubert]
12 Margarida [Pattápio Silva]

Bossa-Brasileira BRLP 003, gravações realizadas entre 1904 e 1907

Compilado e masterizado por Thiago Mello por ocasião do centenário da morte de Pattápio Silva - Florianópolis em 24 de Abril de 2007. Esta compilação não pode ser comercializada, é um presente do site Bossa-Brasileira.

Foto rara de Pattápio, encontrada no Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina.